Transportes têm mais passageiros, mas perdem qualidade. “A loja vai reabrir com nova gerência”
Há hoje mais viagens e piores condições, avisam os peritos. O crescimento de passageiros, apontam, não equivale a transferência modal e o preço pode ter prejudicado quem mais depende do sistema
Se o transporte público cresceu tanto na última década, porque é que continua a perder para o automóvel? Esta foi uma das questões levantadas na conferência ‘Transporte Público: Uma Década Depois – O Que Mudou?’, organizada pelo ECO, com apoio da Transtejo Soflusa.
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Rosário Macário, professora no Instituto Superior Técnico e a duas semanas de assumir a presidência da World Conference on Transport Research, foi direta na abertura e reconheceu que muito mudou desde a entrada em vigor do Regime Jurídico do Serviço Público de Transporte de Passageiros, em 2015. Mas se as alterações se alargaram da tecnologia aos veículos, passando pelo quadro institucional, “o problema principal não mudou”, afirmou. “Continuamos a ter um crescente congestionamento nas nossas cidades, continuamos a não conseguir fazer transferência modal do carro privado para o transporte público, não obstante os milhões que estão a ser investidos”.
Para a académica, o setor insiste em ignorar que o transporte público tem de ser tratado como um produto de massas. “O cidadão está automatizado numa lógica e num ecossistema de economia de consumo. O transporte público tem de aparecer dentro deste enquadramento”, avisa. A gratuidade, considera, não resolve o problema, apesar de atrair quem antes não viajava, mas não convence quem usa o carro a deixá-lo em casa.
Quando tinha menos passageiros, era uma melhor opção para quem o usava do que é hoje
A gratuitidade, complementou Álvaro Costa, não falhou apenas em atrair novos utilizadores modais, como piorou a experiência de quem já dependia do sistema. “Quando tinha menos passageiros, era uma melhor opção para quem o usava do que é hoje”, afirmou o professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. O especialista, que não tem automóvel e usa transportes públicos no quotidiano, aponta comboios cheios sem lugar, paragens impossíveis de abandonar e recurso ao táxi por falta de alternativa. A causa, diz, está na ocupação do sistema por pessoas que não precisam verdadeiramente de o usar. A solução proposta é simples e politicamente incómoda: aumentar o preço como mecanismo de triagem.
José Manuel Viegas, também professor do Instituto Superior Técnico e um dos autores do estudo europeu ISOTOPE, que, há 30 anos, lançou as bases do modelo regulatório atualmente em vigor, apontou os contratos com operadores públicos como um ponto de falha claro. “A Carris só tem um critério de desempenho no contrato, que é quantos por cento dos serviços fazem cada mês. E sabem qual é o valor para ser considerado bom? 85%”, apontou. A operadora podia não fazer serviço durante dois dias e meio por mês e estaria formalmente a cumprir, nota. “É vergonhoso que, como sociedade, possamos permitir isto”, disse, em contraste com os contratos muito mais exigentes dos operadores privados.
O professor identificou ainda outro problema que se prende com os dados: as empresas de transporte recolhem hoje volumes enormes de informação, mas raramente os aproveitam. “Não estão a ser digeridos pelo sistema”, lamenta. Sem explorar esses dados, o investimento em digitalização converte-se num custo sem retorno.
Fazer mais do mesmo pode reduzir a velocidade da perda de quota de mercado, mas não vai permitir inverter as coisas.
No final do debate, José Manuel Viegas sugeriu que plataformas como a Google poderiam mostrar em tempo real quais as viagens que teriam sido possíveis em transporte público, com lugar disponível. Uma comunicação baseada em dados reais e não em previsões. Defendeu também o transporte partilhado a pedido, com veículos pequenos para cobrir ligações de esquina a esquina em zonas onde a cadência dos transportes penaliza quem tem de fazer transferências.
Os três especialistas concordaram que fazer mais do mesmo, mesmo que melhor, não vai inverter a tendência. Lisboa e o Porto são, entre as principais áreas metropolitanas europeias, aquelas com maior percentagem de viagens em veículo privado – 64% e quase 70%, respetivamente.
“Fazer mais do mesmo pode reduzir a velocidade da perda de quota de mercado, mas não vai permitir inverter as coisas”, disse José Manuel Viegas, defendendo que o sistema precisa de um reset. “A loja vai reabrir com nova gerência”, resumiu, para ilustrar a necessidade de um novo modelo operativo que mude a forma como o serviço é concebido e comunicado.
Assista à conferência no vídeo abaixo.
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