Exportações, investimento e turismo. Qual a temperatura das relações entre Portugal e a Alemanha?

Primeiro-ministro visita esta terça-feira Berlim, onde se vai reunir com o chanceler germânico. Alemanha continua a estar simultaneamente entre os maiores clientes e fornecedores de bens de Portugal.

Em 2016, Marcelo Rebelo de Sousa, então Presidente da República, instituiu com António Costa, na figura de primeiro-ministro, a tradição de um duplo festejo das comemorações do 10 de junho. Assim, ao longo dos anos, a dupla que afinal ‘era feliz e sabia’ marcou presença por ocasião do dia de Portugal em cerimónias em território nacional e no estrangeiro, junto das comunidades. Quando Luís Montenegro assumiu o poder em São Bento, o antecessor de António José Seguro na Presidência não quis deixar cair a tradição. Em 2024, rumaram à Suíça e, no ano passado, depois de Macau acabar descartado devido aos timings da tomada de posse em ano de novas legislativas, foi na Alemanha que marcaram presença.

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A escolha não foi aleatória ou não existissem longas e relevantes relações entre os dois países. Mas porque nunca é demais reforçar laços, esta terça-feira, já sem Marcelo Rebelo de Sousa, Luís Montenegro regressa a terras germânicas para uma visita oficial, na qual será recebido pelo chanceler, Friedrich Merz, com quem fará posteriormente uma conferência de imprensa.

As relações económicas entre Portugal e a Alemanha são hoje mais fortes do que nunca. A Alemanha é um dos principais mercados de exportação portugueses e um investidor chave, com presença crescente na indústria, energia e serviços”, destaca Gonçalo Pina, professor de economia internacional na ESCP Business School, em Berlim, em declarações ao ECO.

As relações económicas entre Portugal e a Alemanha são hoje mais fortes do que nunca. A Alemanha é um dos principais mercados de exportação portugueses e um investidor chave, com presença crescente na indústria, energia e serviços.

Gonçalo Pina

Economista

A Alemanha surge assim simultaneamente entre os maiores clientes e fornecedores de bens. Do lado das exportações portuguesas, os dados indicam que o mercado alemão absorve cerca de 10% a 11% das vendas externas nacionais, posicionando-se de forma consistente no ‘top 3’ dos principais destinos. Já nas importações, o peso é ainda mais expressivo, oscilando entre 11% e 12%, o que coloca a Alemanha também entre os dois principais fornecedores.

Um quadro que revela um défice comercial recorrente com a Alemanha, embora com sinais de melhoria ao longo dos últimos anos. De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2025, a Alemanha foi o segundo principal destino das exportações de bens portugueses, com uma quota de 13,9%, ocupando o mesmo lugar como fornecedor de terras lusas, com uma quota de 11,8%. Porém, do outro lado, o retrato é bem distinto. Portugal ocupou o 24.º lugar como cliente da Alemanha e o 28.º lugar como fornecedor.

Neste sentido, as exportações portuguesas para a Alemanha têm seguido uma trajetória ascendente, tendo crescido 14,5% em 2025 face a 2024, para 11.063 milhões de euros. Entre os principais grupos de produtos estão as máquinas e aparelhos, químicos, veículos e outro material de transporte e instrumentos de ótica e precisão. Exemplo disso é o facto da Autoeuropa ter colocado Palmela no segundo lugar dos concelhos portugueses mais exportadores do país em 2025. Já as importações portuguesas aumentaram 8,9% para 13.210,2 milhões de euros.

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Um dos indicadores mais relevantes na relação entre os dois países, o coeficiente de cobertura –isto é, exportações sobre importações –, revela uma trajetória de convergência, aproximando-se dos 84%, depois de ter chegado a situar-se nos 68% em 2021. Um movimento que sugere assim um reforço da capacidade exportadora portuguesa para o mercado alemão e algum ajustamento no ritmo de crescimento das importações, ainda que continue a verificar-se a dependência portuguesa de bens intermédios e de capital provenientes da economia alemã.

Deste modo, a Alemanha contribuiu no ano passado com 1,78 pontos percentuais (pp.) para o crescimento das exportações globais de Portugal e 1,01 pontos para o incremento das importações.

Este peso é também visível no número de empresas exportadoras de bens para a Alemanha. Os dados mais recentes divulgados pela AICEP apontam para 3.137 em 2024, um número que se tem mantido relativamente estável nos últimos anos, sendo que apenas mais de 6,4% destas tem uma exposição superior a 75%.

Contudo, o peso das relações não se circunscreve aos bens, estendendo-se também aos serviços e ao investimento direto. Em 2025, as exportações de serviços para a Alemanha subiram 6,5%, totalizando 7.098,5 milhões de euros, com as viagens e turismo a representarem 47,4% do total. Neste sentido, os hóspedes alemães representaram 8,9% do total de estrangeiros em Portugal e 11,3% das dormidas.

Já as importações de serviços aumentaram 0,7% para 2.174 milhões de euros, com outros serviços fornecidos por empresas e os transportes com um peso de 38,3% e 17,5%, respetivamente. Paralelamente, em dezembro de 2025, o investimento direto da Alemanha em Portugal (no princípio direcional) subiu 14,6% para 11.086 milhões de euros, ocupando a sétima posição entre os países que mais investem. Entre as maiores filiais alemãs em Portugal destacam-se sobretudo as da indústria automóvel como a Autoeuropa, mas também se assinala a Bosch, a Continental, a Siemens, a Bayer ou o Lidl.

Entre os exemplos do investimento destas empresas em Portugal está, em abril, o anúncio da unidade da Bosch em Braga, que pertence à divisão mobility electronics, entre 25 a 30 milhões de euros, para duplicar a capacidade de produção dos radares sensores.

Para Gonçalo Pina, existem assim oportunidades para a economia nacional como “a integração nas cadeias industriais europeias, transição energética e digitalização, onde Portugal tem vindo a ganhar posição com produtos e serviços de maior valor acrescentado”.

Contudo, o economista destaca dois “grandes” desafios. “O primeiro é sobretudo interno: aumentar a escala, a produtividade e também a capacidade do mercado de trabalho, onde já há alguma falta de mão-de-obra e de qualificações para acompanhar o interesse de investidores alemães. O segundo é geopolítico. É uma hipótese remota, mas a economia alemã está exposta a alguma incerteza neste contexto”, aponta o economista.

Gonçalo Pina destaca dois “grandes” desafios na relação entre Portugal e a Alemanha. “O primeiro é sobretudo interno: aumentar a escala, a produtividade e também a capacidade do mercado de trabalho, onde já há alguma falta de mão-de-obra e de qualificações para acompanhar o interesse de investidores alemães. O segundo é geopolítico”, refere.

É que, nos últimos anos, aquela que é a maior economia da União Europeia (UE) e a terceira a nível mundial tem ficado marcada pela forte quebra da atividade. Em 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 0,2%, depois de dois anos seguidos de recessão, o que terá consequências para as dinâmicas com os países terceiros.

Os dados mais recentes, divulgados no final de abril, indicam que a economia alemã cresceu 0,3% no primeiro trimestre, tanto face ao mesmo período de 2025 como face aos três meses imediatamente anteriores, apesar do impacto da guerra no Irão. Segundo os dados preliminares da agência federal de estatística alemã, tanto o consumo privado como público foram superiores no primeiro trimestre em relação aos três meses anteriores, ao mesmo tempo que as suas exportações também aumentaram.

Contudo, a guerra no Irão e o bloqueio do Estreito de Ormuz levaram Berlim e os principais institutos económicos a cortar a previsão do PIB para um avanço de 0,5% e 0,6%, respetivamente. “A recuperação que se esperava para este ano foi travada por choques geopolíticos externos. A guerra no Irão dispara os custos da energia e das matérias-primas. Isso afeta as famílias e aumenta os custos para a economia alemã”, alertou a ministra da Economia e Energia alemã, Katherina Reiche, em 22 de abril, citada pela Lusa.

Entre os exemplos da deterioração de resultados das empresas alemãs está o grupo automóvel Volkswagen, que registou, no primeiro trimestre, um lucro líquido atribuível de 1.290 milhões de euros, menos 29% do que no mesmo período do ano anterior, devido à queda das vendas na China e nos EUA. Valores alcançados depois de o lucro da gigante automóvel ter caído para metade em 2025, chegando aos 6,9 mil milhões de euros, o montante mais baixo desde o escândalo Dieselgate.

Ainda assim, Carsten Brzeski, economista-chefe do ING, antevê que, mesmo que os receios de mais um ano de estagnação tenham regressado, “deve ficar claro que os investimentos planeados em defesa e infraestruturas continuam dentro do cronograma e devem impulsionar a economia este ano e nos próximos”.

“O estímulo orçamental é real, só precisa de tempo para chegar à economia”, considera o economista, que porém assinala que a nova crise dos preços da energia expôs “novamente” as fragilidades da coligação governamental alemã e “a dificuldade em lidar simultaneamente” com o desafio de “proporcionar alívio a curto prazo para os elevados preços da energia e avançar com reformas estruturais a longo prazo“.

“Nas últimas semanas, o debate político em Berlim não só se intensificou, como também as tensões dentro da coligação governamental aumentaram”, alerta.

Contudo, Gonçalo Pina acredita que a relação económica entre Portugal e a Alemanha “vai continuar a aprofundar-se, e para benefício de ambos”.

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