“É preciso distinguir o trigo do joio” nos pedidos de ligação elétrica dos data centers

Numa altura em que os pedidos de ligação à rede, muitos vindos de projetos de data centers, o Secretário de Estado da Energia defende que é preciso equilíbrio e bom senso na gestão da rede.

“Não sei se todos têm noção, mas nós temos em Portugal um consumo em pico, pela primeira vez aconteceu agora, em janeiro, de 10 gigawatts. E temos pedidos de ligação à rede de 41 gigawatts. Isso não é exequível”. Foi desta forma que Jean Barroca, Secretário de Estado da Energia, caracterizou o momento que atravessamos em termos de exigências à rede elétrica, que tendem a aumentar por via da procura de data centers e de uma maior utilização de computação ligada à inteligência artificial.

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Jean Barroca, Secretário de Estado da EnergiaHenrique Casinhas/ECO

Falando no encerramento do 6º encontro do .IA, do ECO, Barroca defendeu que “as redes não foram pensadas para saltos quânticos. As redes são pensadas e operadas, tendo várias perspetivas de sustentabilidade, de segurança, mas também de sustentabilidade financeira dos investimentos, para evoluções graduais”.

O responsável salientou que há muitos pedidos de ligação à rede que obrigariam a enorme investimento em infraestruturas, não sendo certo que todos esses projetos, em última análise, fossem para a frente.

“O primeiro ponto que é preciso fazer sobre estes mais de 40 gigawatts de ligação à rede é, permitam-me uma expressão, distinguir o trigo do joio. É perceber o que é que são intenções, o que é que são especulações, do que o que são verdadeiramente projetos firmes com intenções de ligar à rede e com business plans que sejam capazes de os suportar”, explicou.

Até porque, recorda, no fim da linha, são sempre os consumidores, todos, que pagam os custos da infraestrutura, na sua fatura de luz.

Para evitar encargos desnecessários e desequilibrados, foi criado o regime de Zona de Grande Procura, que avalia os vários pedidos e acarreta, em várias situações, a prestação de uma caução. Isto de forma a que haja uma maior certeza de que a uma criação de ponto de ligação à rede corresponda efetivamente a um projeto empresarial, ao invés de apenas intenções vagas ou tentativas de, mais tarde, vender um terreno ou um projeto com ligação à rede mas sem atividade real.

“Criou-se este procedimento que agora temos, que vem reformular a forma de acesso à rede. Voltando aqui ao início, a forma de evolução gradual dos sistemas fazia com que qualquer pessoa que pedisse ligação à rede, em princípio, mais cedo ou mais tarde, podia ter essa ligação e, portanto, o procedimento normal é de fila. First in, first out. A pessoa pede ligação, liga. E isso, não sendo um bem escasso, não tem valor económico, não tem especulação”, explicou.

A questão é que, com tanta procura, a ligação se tornou um bem escasso. “Tornando-se um bem escasso, porque é impossível suprir 40 gigas de pedidos de ligação à rede, acontece imediatamente que se cria um mercado paralelo que especula ou monetiza um bem que é público, que é a rede elétrica de serviço público”, defende.

“O que se faz com a zona de grande procura é justamente criar um instrumento que ordena os pedidos de ligação à rede. E esse vai ser um paradigma que vamos ter em Portugal, é uma ferramenta para uma situação excecional, mas vai ser um paradigma que vamos ter em Portugal, desde logo nesta grande zona de grande procura que está a ser criada a nível nacional”.

Com este mecanismo, “as pessoas podem dizer que se querem ligar à rede, mas têm que prestar caução pela ligação que querem fazer. E a caução vem associada a dois elementos: potência, ou seja, quanto é que eu quero ligar; e calendário, que é quando é que eu quero ligar. Estes dois elementos são fundamentais para se conseguir fazer um planeamento”.

O Secretário de Estado justifica a medida: “Quem paga a rede são os consumidores, não é o Orçamento do Estado. Quem paga a rede somos todos. Cada vez que ligamos a luz, pagamos uma componente de energia, pagamos uma componente de tarifas de acesso à rede“.

Se fosse decidido “reforçar a rede elétrica, para agora acomodar 40 gigawatts de projetos, que depois pudessem vir a não existir, o que ia acontecer é que afetávamos um dos pilares fundamentais da nossa política energética, que é a competitividade dos preços. Íamos ter uma rede sobredimensionada, com ativos que não iam ser utilizados e que, basicamente, todos íamos pagar na conta da luz. E ninguém quer esse cenário em que não só se paga a rede que temos e de que precisamos, como passaríamos a pagar a rede que teríamos e de que não precisaríamos”.

Ninguém quer esse cenário em que não só se paga a rede que temos e de que precisamos, como passaríamos a pagar a rede que teríamos e de que não precisaríamos

Jean Barroca

Secretário de Estado da Energia

E lembrou que já há anúncios de Power Purchase Agreements (PPA), como o que foi recentemente firmado entre a Start Campus e a EDP, que são bons exemplos do que deverá continuar a acontecer. Até porque, com esta previsibilidade, há mais condições para os geradores de energia, nomeadamente renovável, tenham previsibilidade de sustentabilidade financeira para continuar a investir nestes projetos.

Jean Barroca, Secretário de Estado da EnergiaHenrique Casinhas/ECO

IA sim, em dois sentidos

Jean Barroca defendeu, ainda assim, que Portugal tem de lutar para continuar a atrair estes projetos, criando todas as condições para que as empresas com reais capacidades encontrem um acolhimento positivo e gerem valor acrescentado entre nós.

“Nós olhamos para esta competitividade e procuramos, obviamente, aquilo que é o valor acrescentado para o país. Queremos que estes projetos não limitem o país a ser operários de fornecimento de AI, mas beneficiários dos benefícios da inteligência artificial. Queremos evoluir naquela que é a recolha de benefícios destes investimentos. Seria redutor, seria passar ao lado de uma brutal oportunidade se nós fôssemos o parque de data centers da Europa. Nós não queremos ser o parque de data centers da Europa. Nós queremos que os centros de dados e a inteligência artificial tenham um impacto na sociedade e valor acrescentado a nível nacional”.

E lembrou as várias vantagens que Portugal tem como destino deste tipo de instalações, nomeadamente a estabilidade, o custo e a forte penetração de energias renováveis. Não deixou, no entanto, de lembrar que tudo isto tem desafios, nomeadamente na dimensão do consumo de que estamos a falar: “No aspeto da estabilidade, temos noção de que cada um destes data centers a funcionar no seu pleno tem consumos completamente astronómicos comparado com aquilo que era o sistema a que estávamos habituados até agora”.

Por outro lado, a aposta na inteligência artificial não se fica apenas pela atração de projetos nessa área, mas também na utilização da tecnologia para gerir melhor o ecossistema energético.

“Se quisermos falar da própria inteligência artificial para a operação da rede – portanto falo em planeamento, falo em operação e falo em gestão de consumos– pode ter de facto aqui uma mudança de paradigma na forma como nós nos posicionamos”, tanto em termos de haver um sistema mais resiliente e adaptável como no que toca ao desenvolvimento de tecnologia, de soluções, que podem até ser exportadas, uma vez que dada a nossa grande penetração de renováveis “temos o laboratório, que somos nós, que é o nosso sistema. Estamos verdadeiramente com um perfil relativamente único que nos pode dar uma vantagem competitiva”.

Assista aqui à intervenção na íntegra:

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