Fátima, futebol e festival: o regresso dos três “efes”

  • Juliana Nogueira Santos
  • 13 Maio 2017

O dia 13 de maio de 2017 vai ficar marcado como o regresso dos três "efes" que ajudam a construir a identidade nacional. Mas o que há para além do f?

 

Papa Francisco, Jonas e Salvador Sobral vão ser alguns dos protagonistas deste fim de semana.Fotomontagem: Raquel Sá Martins

Fátima, Futebol e Fado. Durante anos, esta foi a máxima que identificava o que era ser português: a extrema devoção cristã, materializada pela adoração à padroeira da nação, a ainda maior devoção ao esférico disputado entre 22 homens e a expressão máxima da saudade e do lamento português.

Como explica ao ECO, Luís Capucha, professor do Departamento de Ciência Política e Políticas Públicas do ISCTE, a expressão foi cunhada pelos críticos do regime ditatorial que viam nestes três fenómenos, simples instrumentos de manipulação e subjugação da população ao regime ditatorial instalado: “Era correspondente a uma crítica que se fazia à política do regime fascista, nomeadamente à política cultural, que se resumia a manter o povo adormecido servindo-lhe sistematicamente doses de Fátima, de futebol e de fado.”

Uma revolução e várias décadas depois, os três “efes” voltam a encontrar-se, adivinhando uma apologia da identidade do nosso país. “Hoje em dia já não temos um país de Fátima, Futebol e Fado”, refere Luís Capucha. “Mas a existência de campeões que representam o país gera um fenómeno de adesão emotiva em torno destes acontecimentos.”

Em diferentes moldes e com impactos variados, estes três acontecimentos têm marcado o panorama mediático português e, com certeza, não o vão abandonar. Mas o que há para além do “f”?

F de Fátima

O Papa Francisco está em Fátima no 13 de maio.Olivier Douliery / Pool via Bloomberg

O Papa Francisco aproveitou a celebração do centenário das aparições de Fátima para fazer a primeira visita a Portugal. Neste dia 13 de maio, Fátima vai parar para receber o líder da igreja católica e milhares de crentes, portugueses e estrangeiros, que querem com ele celebrar. Os dados mais recentes apontam para que cheguem ao santuário cerca de um milhão de pessoas, entre os quais milhares de estrangeiros.

Ainda assim, esta não vai ser uma visita semelhante às que aconteceram até agora. “Somos visitados por um papa que consegue ser agradável até para os agnósticos, ateus e outros líderes religiosos por causa do seu discurso social e da forma como se posiciona em relação às instituições religiosas”, esclarece Luís Capucha.

Portugal vai assim estar no centro do mundo, não só por receber um evento que poderá ser visto por mais de 12 mil milhões de pessoas globalmente, mas também porque se assumir assim como competente nessa missão, como justifica ao ECO Pedro Mendes, diretor do IPAM Lisboa e especialista em grandes eventos. “Mais uma vez vamos demonstrar ao mundo inteiro que temos capacidade para organizar grandes eventos com segurança.”

Para além do impacto social deste evento, o impacto económico também será muito forte, começando pelo alojamento. As unidades hoteleiras da zona já se encontram esgotadas há largas semanas, um efeito que se tem estendido ao resto do país. Cristina Siza Vieira, diretora executiva da Associação da Hotelaria de Portugal, referiu ao ECO que dois terços dos hotéis lisboetas estão uma taxa de ocupação de 75% ou 100% nas noites de 12 e 13 de maio, uma taxa que se vai manter até ao fim do mês.

Este acontecimento está a proporcionar também um recorde no que toca aos preços. Uma pesquisa feita pelo ECO, ainda no princípio deste ano, mostrou que as 21 unidades hoteleiras de Fátima que ainda tinham quartos disponíveis cobravam valores 400% mais altos neste fim de semana de 12 a 14 de maio, sendo que a média se colocava nos 818,5 euros por noite.

O alojamento local também é uma opção escolhida por aqueles que querem passar este fim de semana no santuário, uma vez que a circulação automóvel vai estar condicionada. O Airbnb já comunicou ao público que registou dez vezes mais alojamentos na cidade relativamente ao mesmo período do ano passado, um número histórico para a plataforma.

Por entre refeições, deslocações e outros gastos, o destaque vai também para as tradicionais recordações. Segundo uma reportagem da TSF, as recordações de Fátima são muito diversificadas, desde os habituais terços e postais, até recipientes de com terra e água sagrada da zona de Fátima. Os sacos de terra custam um euro cada e os frasquinhos de água 1,50 euros. O terço oficial da celebração do centenário custa 12 euros, mas já se encontra esgotado na maioria das lojas.

“Hotéis esgotados, estradas lotadas de automóveis e peregrinos, pessoas que vieram de avião, pessoas que precisam de beber e comer, que vão gastar dinheiro em recordações da sua estadia, ou seja, um evento que vai corresponder a uma dinamização da economia local”, conclui Pedro Mendes. “O segredo é de que forma é que no futuro podemos capitalizar isto.”

F de futebol

A festa do Benfica pode repetir-se este sábado.

Este sábado, o Sport Lisboa e Benfica poderá conquistar o primeiro tetracampeonato da sua história. Ainda que não seja uma conquista que agrade a todos, a massa adepta do clube lisboeta é a maior do país, sendo ela composta por milhões e milhões de pessoas, não só em Portugal, mas um pouco por todo o mundo. “Este fim de semana jogam-se as paixões relativas às conquistas dos diferentes clubes”, analisa o professor Luís Capucha. “Isto vai gerar um fenómeno de constrangimento para os que vão perder e um movimento de euforia entre aqueles que vão ganhar.”

"Num momento de euforia, as pessoas tenderão em fazer alguns investimentos irracionais. No ato do festejo vão gastar mais dinheiro em comida, em bebida e muito provavelmente até vão comprar produtos de merchandising alusivos ao seu clube”

Pedro Mendes

Diretor do IPAM Lisboa

A rotunda do Marquês de Pombal, em Lisboa, o sítio tradicionalmente escolhido pela equipa para celebrar, poderá ficar cheia daqueles que vivem e respiram Benfica. Várias horas de direto e páginas de jornal serão dedicados a isto, mas além do impacto mediático, esta conquista sem precedentes pode estender-se à economia do nosso país.

O último clássico, que colocou frente a frente o Benfica e o Porto teve, segundo cálculos do IPAM, um impacto económico de 25 milhões de euros, por entre bifanas, cervejas, bilhetes e direitos de transmissão. Pensando então num momento decisivo, em que a racionalidade é substituída pela paixão e pelo orgulho, os números poderão aumentar.

“Num momento de euforia, as pessoas tenderão em fazer alguns investimentos irracionais. No ato do festejo vão gastar mais dinheiro em comida, em bebida e muito provavelmente até vão comprar produtos de merchandising alusivos ao seu clube” garante Pedro Mendes. “Sendo o Benfica campeão teremos uma percentagem de portugueses com mais confiança.”

Já dizia António Mexia em 2013: “Acho que era bom para Portugal que o Benfica saísse de lá campeão, acho que isso teria um efeito positivo no PIB”. Nesse ano, o Benfica foi campeão, e o PIB cresceu.

F de Festival da Canção

A delegação portuguesa vai marcar presença na final do Festival da Eurovisão em Kiev.Eurovision/ EBU

Depois de uma pausa de um ano e de inúmeras edições em que as probabilidades de sucesso eram poucas ou nenhumas, Portugal volta em força ao Festival da Eurovisão. A balada improvável de Salvador Sobral venceu em casa e tem convencido um pouco por todo o mundo, sendo já apontada como uma das principais favoritas ao tão desejado título, nunca alcançado por um artista nacional. Parece que desta vez, o fado será outro.

“Amar pelos Dois” vai ecoar pelo Centro Internacional de Exibições de Kiev, mas vai ser vista por milhões em todo o mundo. Os dados da organização do festival, a União Europeia de Difusão, relativamente ao último concurso apontam para uma audiência de 204 milhões de pessoas. O mediatismo do evento espalha-se também às redes sociais: no YouTube, os vídeos das atuações acumulam já milhões de visualizações, enquanto no Twitter os utilizadores podem utilizar as hashtags especiais criadas em parceria com a rede social.

Mas não é só de espetáculo que se faz a Eurovisão. As controvérsias também marcam aquela que é a festa da celebração da diversidade. Em 2009, a Geórgia desistiu da competição porque a sua canção — como se percebe pelo título “We Don’t Wanna Put In” — seria uma afirmação política contra a Rússia. Em 2013, o Azerbaijão foi acusado de subornar o júri e de pagar a um grupo de estudantes da Lituânia para votarem na sua representante. Já no ano passado, a Roménia foi expulsa da competição por não pagar os 14,5 milhões de euros que devia à organização.

Este ano, a Rússia volta a estar no centro da controvérsia. Depois da tensão criada pela ocupação da Crimeia, o país que acolhe o evento, a Ucrânia, não concedeu um visto de entrada à participante russa para que esta marcasse presença na competição. A organização ainda tentou contornar este obstáculo e arranjar alternativas, mas não foi possível, sendo que este ano, a Rússia não se encontra entre os países concorrentes.

Desta forma, seja na fé, no futebol ou no festival, as atenções dos portugueses vão estar direcionadas para esta expressão que nunca sairá de nós. Para os que não se interessam por nenhum destes “efes”, boa sorte, serão uns dias bem atribulados.

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