Nunca se consumiu tanto áudio. Nunca foi tão importante medi-lo bem

Nenhum sistema de medição será perfeito. Nem precisa de o ser. Precisa, isso sim, de ser suficientemente robusto para que ninguém duvide da sua legitimidade e transparente para que todos confiem.

A rádio mudou profundamente. Hoje vive em FM, nas aplicações móveis, nas plataformas de streaming, nos podcasts, nos automóveis ligados à Internet e nos social media. Continua a informar, a entreter, a criar comunidades e a influenciar decisões de consumo. Nunca foi tão relevante para marcas e anunciantes.

O paradoxo é que esta enorme evolução da rádio não teve, em Portugal, paralelo no sistema de medição de audiências. Enquanto o meio se tornou híbrido, multiplataforma, em direto e on demand, a forma como o medimos continua presa a um modelo que já não consegue representar toda a complexidade do consumo de áudio.

Portugal precisa de olhar para os estudos de audiência para lá da discussão sobre quem ganhou ou perdeu cada vaga. A verdadeira questão que importa ao mercado é saber como construir um sistema de medição cada vez mais robusto, transparente e capaz de acompanhar a evolução do consumo de áudio.

A boa notícia é que não precisamos de inventar tudo de novo. Há mercados que já percorreram esse caminho. Os Países Baixos são um excelente exemplo. A transição para um modelo de medição passiva não foi apenas uma mudança tecnológica. Foi um processo cuidadosamente preparado, envolvendo meios, anunciantes e agências, comunicado com transparência e acompanhado de mecanismos de auditoria e de governação capazes de reforçar a confiança de todo o mercado.

O caso neerlandês mostra que a modernização de um sistema de medição não é apenas uma questão tecnológica. É, acima de tudo, uma questão de governação e de confiança. Um estudo de audiências não pertence à empresa que o executa. Pertence ao mercado. Serve rádios, anunciantes, agências e todos aqueles que tomam decisões com base nos seus resultados. É uma infraestrutura crítica da indústria do áudio e, como qualquer infraestrutura crítica, deve assentar em regras claras, processos transparentes, escrutínio independente e capacidade de evoluir.

Essa evolução passa também por responder às exigências de um mercado cada vez mais digital: disponibilizar dados com maior rapidez, integrar novas métricas e oferecer uma visão verdadeiramente abrangente do consumo de áudio, independentemente da plataforma onde ele acontece.

Nenhum sistema de medição será perfeito. Nem precisa de o ser. Precisa, isso sim, de ser suficientemente robusto para que ninguém duvide da sua legitimidade e suficientemente transparente para que todos confiem nele. Porque as audiências mudam de vaga para vaga. A confiança é que sustenta o mercado.

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