A Inteligência Artificial está a transformar o trabalho mais rápido do que se esperava

  • Sónia Vasconcelos
  • 22 Julho 2026

Mais do que uma evolução tecnológica, estamos perante uma mudança profunda na forma como o trabalho é concebido.

Nos últimos tempos, tem-se intensificado o debate sobre o impacto da Inteligência Artificial no futuro do trabalho. A questão já não é se a IA transformará o trabalho, mas sim com que rapidez as organizações se conseguirão adaptar para aproveitar o seu potencial, garantindo que os seus colaboradores se mantêm no centro da criação de valor.

O contexto é complexo e o futuro incerto. A única certeza é que será diferente. Perante a velocidade e a escala das mudanças trazidas pela AI, pela Generative AI e pelo Agentic AI, muitos empregos serão substancialmente diferentes dos que conhecemos hoje. E talvez não seja algo totalmente novo. A chegada dos computadores pessoais e da Internet também trouxe disrupção, dúvidas e expectativas, mas a realidade acabou por superar muitas previsões. Curiosamente, a própria criatividade humana antecipa há muito estes cenários. Filmes como I, Robot, lançado em 2004 e passado em 2035, parecem hoje menos ficção e mais um espelho possível do presente.

Mais do que uma evolução tecnológica, estamos perante uma mudança profunda na forma como o trabalho é concebido. As organizações tornam-se ecossistemas onde humanos e tecnologia, incluindo agentes de Inteligência Artificial, coexistem e colaboram. Colaboração essa que levanta novas interrogações.

Quando sistemas já processam milhões de dados, interpretam-nos à luz de diversos contextos, produzem conteúdos, tomam decisões e geram recomendações, o princípio de “keep human in the loop” ganha relevância. Mas estamos preparados para esse papel?

Validar, questionar e assumir responsabilidade pelo que a tecnologia produz, exige mais do que supervisão. Quanto mais avançamos na automação, mais decisivas se tornam as competências humanas: pensamento crítico, decisão e comunicação, mas também curiosidade, criatividade, adaptabilidade e empatia. A primeira como motor de desafio, e contraponto; a segunda como alavanca de disrupção e inovação; a terceira como ignição para aprendizagem contínua; a quarta como âncora para compreender impacto, contexto e pessoas. O que levanta uma questão central: como capacitar as pessoas para se manterem relevantes num mundo em mudança acelerada e disruptiva?

O mercado de trabalho parece estar a ajustar-se, mas de forma desalinhada. Procura-se talento mais experiente, capaz de lidar com complexidade, incerteza e ambiguidade. Por outro lado, os jovens continuam a entrar no mercado sem estarem totalmente preparados para estas exigências. As academias tentam adaptar currículos, mas não ao mesmo ritmo da transformação. E surge um dilema: se as empresas tendem a contratar menos perfis juniores, como ganham os jovens experiência e evoluem? Como se desenvolve talento sem oportunidades para começar? Talvez este seja um dos grandes paradoxos do momento: enquanto falamos de escassez de talento, podemos estar a criar barreiras à sua própria construção.

Perante isto, talvez a questão não seja se a Inteligência Artificial vai substituir pessoas, mas como vamos redefinir o seu papel das pessoas. Que equilíbrio queremos entre automação e contribuição humana? Que competências vamos valorizar? E como garantir que ninguém fica para trás numa fase em que tudo acelera?

A Inteligência Artificial está a criar novas oportunidades e muitos desafios, tecnológicos, de sustentabilidade, e, sobretudo, humanos: mais do que respostas, este é talvez um momento que exige melhores perguntas.

Partilho algumas referências recentes do mundo dos serviços de IT, que consubstanciam esta reflexão. Em conjunto, mostram que a tecnologia, por si só, não chega. Embora a IA esteja a expandir drasticamente o campo da automação, desde equipas humano-IA altamente produtivas até triliões de dólares em tarefas laborais, o valor sustentável dependerá da capacidade das organizações para adaptarem as suas estratégias de pessoas, requalificarem talento e redesenharem o trabalho humano.

Segundo Mohamad Ali, Senior Vice President and Head of IBM Consulting, em ‘A New Way to Make AI Actually Work in the Real World’, de maio 2026, a IBM aponta para um futuro do trabalho assente em equipas pequenas, ágeis, e aumentadas por IA, capazes de alcançar níveis de produtividade muito superiores aos modelos tradicionais. A ideia de “humanos e digital a trabalhar em equipa — por desenho” reforça uma tendência clara: as empresas líderes em IA não estão apenas a adotar tecnologia, estão a redesenhar funções, equipas e modelos de entrega.

Já no relatório da Cognizant, “New Work, New World 2026”, de janeiro de 2026, é apresentada uma visão macro do impacto da IA no trabalho, sugerindo que quase todos os empregos serão impactados. Contudo, deixa claro que os maiores ganhos dependerão do desenvolvimento das pessoas — requalificação, aprendizagem contínua e redefinição de funções. O futuro do trabalho será, assim, uma combinação entre automação inteligente e valorização das capacidades humanas.

A última referência que gostava de deixar aqui é o comunicado da Deloitte, de 2026: From Ambition to Activation: Organizations Stand at the Untapped Edge of AI’s Potential. No relatório associado, The State of AI in the Enterprise, descreve-se um futuro em que a IA se torna omnipresente nas funções de trabalho, exigindo estratégias “human-in-the-loop”. A mensagem é clara: o futuro do trabalho dependerá da combinação entre eficiência tecnológica e criatividade humana, suportada por mudança cultural, adaptação organizacional e desenvolvimento de competências.

Estamos perante um momento em que a tecnologia amplia, mas não substitui o essencial. O próximo passo é claro: investir em competências, redesenhar papéis e fazer melhores perguntas, antes que a mudança responda por nós.

  • Sónia Vasconcelos
  • People executive director da Celfocus

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