Gucci apresenta sinais positivos e o grupo Kering volta ao crescimento (com recuo nos lucros)

Lina Santos,

O CEO do grupo diz que há sinais positivos e enfrenta a questão dos preços. "Somos bem conscientes do mercado e que temos de oferecer um produto criativo, de qualidade e ao preço certo".

A Kering, grupo que detém a Gucci, entre outras marcas, fechou o primeiro semestre de 2026 com receitas de 7,22 mil milhões de euros, regressando ao crescimento comparável, com as receitas a avançarem 1%. A margem operacional subiu, mas o lucro líquido recuou para 189 milhões, isto é, 60%, de acordo com o comunicado da companhia francesa. “É um regresso ao crescimento”, de acordo com o CEO da empresa, Luca de Meo, durante a apresentação dos números. “Desejabilidade das nossas marcas” é o foco da Kering, garantiu o diretor-executivo.

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A recuperação da atividade ainda não se refletiu nos resultados líquidos, dizem os números. O resultado operacional recorrente ficou praticamente estável em 921 milhões de euros e a margem correspondente aumentou 0,4 pontos percentuais, para 12,8%, mas o lucro líquido atribuível ao grupo caiu 60%, de 474 milhões para 189 milhões de euros. O EBITDA recorrente recuou 1%, para 1,94 mil milhões de euros, embora a margem tenha subido de 26,3% para 26,8%.

O CEO do grupo abordou diretamente a questão dos preços, aceitando que a elasticidade não é total e prometendo “continuar a alinhar o preço com a intenção de compra e desejo”, explicou. “Estamos aqui para vender sonhos e excelência. A minha mensagem é simples: somos bem conscientes do mercado e que temos de oferecer um produto criativo, de qualidade e ao preço certo”.

Na Gucci sabemos o que temos a fazer e estamos a fazer

Luca de Meo

CEO do grupo Kering

A Gucci, maior marca do grupo, continuou em queda, mas melhorou face ao início do ano, um dado que o CEO preferiu destacar. As receitas semestrais diminuíram 9% em termos reportados. “Todos os indicadores estão em linha ou à frente das nossas expectativas”, afirmou na apresentação, lembrando o clima de incerteza que afeta a indústria do luxo.

O plano de renascimento da Gucci está a começar a dar sinais positivos, sustenta o CEO. “Todas as regiões mostram melhores resultados”, assegurou, tal como as várias coleções que foram sendo apresentadas, de “La Famiglia” ao desfile de coleção de primavera, a primeira de Demna para a marca.

“A Gucci está de volta ao centro da conversa”, segundo De Meo. “Adicionalmente, temos uma estratégia mais coerente”, diz, garantindo que o trabalho em torno dos códigos da marca continuará. Este ano fica também marcado pela colaboração com a Alpine, com a qual a Gucci entra no desporto, nomeadamente na Fórmula 1.

“Se eu projetar os resultados das primeiras coleções pela variedade de produtos que temos na primavera, penso que estamos bem, mas acho que estamos melhor em muitas dimensões”, referiu. “Qualidade, preço, produtos… Estamos a fazer muita coisa. Sabemos o que temos a fazer e estamos a fazer”, disse, em resposta a um dos analistas na sala.

“Há muito trabalho a ser feito – produtos, indústria, fornecedores – e o que me mantém confiante é que a Gucci é uma marca incrivelmente popular”, defendeu Luca de Meo. “Há que ter em conta que a primeira coleção real de Demna só está agora a chegar à lojas”, afirmou. “Olhando para os números, a marroquinaria está a correr bem”. O trabalho de comunicação mais forte começará em agosto, assegurou.

Em julho, o grupo Kering anunciou, em comunicado, que a nova licença de beleza da marca Gucci com a L’Oréal deverá entrar em vigor em meados de 2027, após aprovações regulatórias e o resgate antecipado do acordo existente com a Coty.

O acordo segue a decisão da Gucci e da Coty de anteciparem em 12 meses a data de resgate da licença atual, que terminaria a 30 de junho de 2028. A operação está alinhada com a aliança em beleza e wellness entre a Kering e a L’Oréal, anunciada a 19 de outubro de 2025. A Coty deverá receber cerca de 400 milhões de dólares pela antecipação do fim dos direitos da licença existente e os pagamentos deverão ser feitos ao longo deste ano (250 milhões de dólares) e de 2027 (até 150 milhões de dólares).

Luca de Meo, presidente executivo da Kering, disse que este acordo permite à Gucci e à L’Oréal começarem a preparar o próximo capítulo da Gucci Beauty um ano antes do previsto.

Crescimento na Saint Laurent, mudanças na McQueen

Yves Saint Laurent, outra marca histórica e importante no portefólio da Kering, também está de volta ao crescimento, garante De Meo. Com uma nova estratégia para a coleção de homem, acreditam que vão poder continuar na mesma trajetória. No que diz respeito aos produtos de marroquinaria, prometem manter os clássicos e “novos lançamentos para o novo ano”, antecipou.

A italiana Bottega Veneta, que se mantém no verde, também apresentou novos lançamentos. “A Ásia continua a ser um mercado estratégico para a marca”, referiu De Meo.

Balenciaga tem crescido também à sombra dos seus produtos como malas, e a Kering definiu uma prioridade clara: “Uma proposta alternativa, mais feminina e elabora”. “É uma das casas com autoridade de alta-costura”, referiu, destacando também o trabalho feito em torno do calçado desportivo, “muito populares na Coreia do Sul, um mercado muito dinâmico dentro do luxo”.

Outra marca que se encontra em ebulição é McQueen. Fecharam duas dezenas de pontos de venda no último ano, a marca está de volta a Londres, o seu berço, e tem um novo CEO, “um passo importante para a marca”, segundo Luca de Meo.

Joias e óculos melhor do que moda

Outros destaques do CEO Luca de Meo foram para a divisão de joias da Kering, cujas receitas cresceram 20% numa base comparável, para 521 milhões de euros, com as vendas da rede própria a aumentarem 28% e o resultado operacional recorrente a duplicar para 32 milhões. Na Kering Eyewear, a divisão de óculos, a faturação avançou 8% em termos comparáveis, para 965 milhões de euros, e o resultado operacional recorrente subiu 19%, para 222 milhões.

Por regiões, os americanos melhoraram e estão agora em números positivos. Tanto nos EUA como quando viajam. O mercado chinês mantém-se negativo, mas melhorou face ao primeiro trimestre, tal como se verificou com os clientes europeus. O segundo trimestre foi melhor do que primeiro. “Vimos melhorias tanto em casa como em viagem”, precisou a chief finance officer da Kering, Armelle Poulou, na apresentação de resultados.

Depois de fechar 75 lojas líquidas em 2025, a Kering encerrou mais 84 no primeiro semestre, o equivalente a 5% da rede própria no final do ano passado, e mantém a meta de 100 encerramentos em 2026 e continuar este processo no próximo ano, com encerramentos, remodelações e relocalizações. “Encerrar 84 lojas é 5% do total e não tem um grande impacto, as pessoas encontram outas soluções”, acredita o CEO.

O fluxo de caixa livre operacional atingiu 2,6 mil milhões de euros, ou 1,8 mil milhões excluindo receitas imobiliárias e o acordo Gucci Beauty, enquanto a dívida líquida caiu 4,7 mil milhões desde dezembro, para 3,3 mil milhões de euros. A Kering mantém para 2026 o objetivo de regressar ao crescimento e melhorar a rentabilidade, num contexto geopolítico e macroeconómico que considera incerto.

Em 2025, a Kering empregava 44.000 pessoas e gerou receitas de 14,7 mil milhões de euros. “Reconstruir a desejabilidade das marcas demora tempo”, afiançou ao mesmo tempo que garantiu que se mantêm focados na saúde do grupo, com maior rigor nos inventários e na gestão. “Estamos a criar uma plataforma de crescimento a longo prazo”, garantiu o CEO. “Estamos a ajudar as nossas casas a ir mais rápido e a escalar as boas práticas”.

Continuar a aprofundar os lucros e as fundações da Kering para o longo prazo. “Quero confirmar a orientação que demos no início do ano: crescimento e rentabilidade este ano”.

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