Christie’s e Sotheby’s com vendas a subir. Arte lidera, mas luxo também cresce
Grandes coleções regressaram ao mercado, vendas privadas cresceram e compradores internacionais revelaram-se. Uma análise aos primeiros meses do ano nas maiores leiloeiras do mundo.
- As vendas das duas maiores leiloeiras do mundo, Christie’s e Sotheby’s, atingiram recordes na primeira metade de 2026, superando o desempenho do ano anterior.
- O aumento da procura por coleções valiosas e a crescente internacionalização dos compradores indicam um mercado de leilões robusto e otimista para o futuro.
- Cerca de metade dos novos clientes da Christies pertence às gerações Millennial e Z.
- A Sotheby's realizou a sua maior venda de sempre de relógios.
As duas maiores leiloeiras do mundo fizeram mais vendas na primeira metade de 2026 do que no mesmo período do ano anterior. A Christie’s ficou ligeiramente à frente da Sotheby’s, num período em que se viram regressar as grandes coleções ao mercado, cresceram as vendas privadas e os compradores internacionais licitaram mais.
O mercado mundial de leilões ganhou força na primeira metade de 2026, de acordo com a informação da Sotheby’s e da Christie’s. Ambas registaram o melhor desempenho dos últimos anos na primeira metade do ano, contabilizando cerca de 3,8 mil milhões de euros em vendas, cada uma.
Na Christie’s, as vendas em leilão atingiram cerca de 3,06 mil milhões de euros, mais 71% do que no mesmo período de 2025, quando tinham ficado em aproximadamente 1,84 mil milhões de euros. As vendas privadas ultrapassaram os 875 milhões de euros, o valor semestral mais elevado de sempre para a empresa.
A Sotheby’s apresentou uma evolução semelhante. As vendas aumentaram 58%, para um máximo histórico de cerca de 3,85 mil milhões de euros. Aproximadamente 2,98 mil milhões destas vendas corresponderam a leilões, mais 59% do que no período homólogo, enquanto as vendas privadas cresceram 52%, estabelecendo um recorde de cerca de 723 milhões de euros.
Na Christie’s, as vendas totais foram de 3,93 mil milhões de euros. A Sotheby’s apresentou vendas de 3,85 mil milhões. A diferença entre ambas é de cerca de 88 milhões de euros.
Na comparação dos resultados apresentados pelas duas leiloeiras, a diferença entre ambas é de aproximadamente 88 milhões de euros, tanto no volume total de vendas como nos negócios realizados em leilão. A Christie’s apresenta, contudo, um crescimento mais forte nas vendas privadas.
“Estes excelentes resultados foram alcançados de forma lucrativa e através de uma gestão disciplinada do capital, permitindo expandir as margens de EBITDA e reforçar ainda mais um balanço que já era excecionalmente sólido”, segundo Bonnie Brennan, CEO da Christie’s. “Ao olharmos com otimismo para o restante período de 2026, a equipa global da Christie’s continua a dar prioridade aos nossos clientes e à solidez do negócio a longo prazo”, acrescenta a empresa em comunicado.
Charles F. Stewart, CEO da Sotheby’s, assegura, por outro lado, que os resultados da empresa “refletem uma procura alargada por parte dos compradores em todas as categorias e localizações a nível mundial, leilões emblemáticos de coleções de um único proprietário, tanto em belas-artes como em luxo, e um crescimento significativo das vendas privadas”. E acrescenta: “O nosso desempenho recorde nos últimos 12 meses reforçou ainda mais a nossa rentabilidade e posição de capital, e as perspetivas para o segundo semestre de 2026 são sólidas e robustas.”
Grandes coleções voltam a atrair compradores
A primeira metade do ano ficou marcada pelas vendas de importantes coleções particulares, que concentraram algumas das obras mais valiosas do que levamos de ano. Por exemplo, a Christie’s vendeu, em maio, em Nova Iorque, a coleção do editor e colecionador norte-americano S. I. Newhouse por cerca de 552 milhões de euros, o valor mais elevado alcançado por uma coleção no primeiro semestre, com obras de, entre outros, Picasso, Constatin Brancusi e Jackson Pollock.

Uma obra deste último, aliás, lidera o pódio das três que alcançaram os valores mais altos no primeiro semestre. Trata-se de Number7A, 1948, uma pintura que foi oferecida pelo artista a um amigo fotógrafo, passou por várias coleções e desde 1977 que não era vista publicamente. Foi arrematada por 158, 6 milhões de euros. No segundo lugar deste ranking está outra obra da coleção de S. I. Nehouse – Danaïde, de Constantin Brancusi – vendida por cerca de 94,2 milhões de euros, e 15 (Two Greens and Red Stripe), de Mark Rothko, que atingiu aproximadamente 86,1 milhões de euros. Segundo a Christie’s, as três obras estabeleceram novos recordes em leilão.
A Sotheby’s, por sua vez, destaca a coleção de Joe Lewis (antigo proprietário do Tottenham Hotspur), cuja venda totalizou cerca de 355,5 milhões de euros e tornou-se o leilão de um único proprietário mais valioso alguma vez realizado no Reino Unido, assim como a mais valiosa venda de arte impressionista, moderna e contemporânea organizada na Europa.
Em Nova Iorque, a coleção de Robert Mnuchin, banqueiro da Goldman Sachs que viria a fundar uma galeria de arte na cidade norte-americana, alcançou cerca de 151,4 milhões de euros, enquanto as obras de arte e design pertencentes a Jean e Terry de Gunzburg geraram cerca de 137,9 milhões.
Um conjunto de 15 espelhos de Claude Lalanne foi vendido por cerca de 29,3 milhões de euros, estabelecendo um novo máximo para a artista e para uma obra de design em leilão.
O leilão dedicado ao design desta última coleção totalizou aproximadamente 84 milhões de euros, tornando-se o mais valioso da categoria na história dos EUA. Destaca-se, segundo a Sotheby’s, um conjunto de 15 espelhos de Claude Lalanne foi vendido por cerca de 29,3 milhões de euros, fixando assim um novo máximo para a artista e para uma obra de design num leilão.
Mais e maior competição
Sotheby’s e Christie’s identificam uma tendência comum entre os seus compradores: continuam seletivos, mas dispostos a competir por itens de proveniência reconhecida, qualidade e raridade.
Segundo os dados disponibilizados pela Christie’s, 91% dos lotes encontraram comprador, acima dos 87% registados um ano antes. O preço de martelo correspondeu, em média, a 124% da estimativa mínima, contra 112% no primeiro semestre de 2025. Também as vendas de obras avaliadas entre aproximadamente 17.500 e 87.500 euros beneficiaram da recuperação. Neste segmento, o preço de martelo atingiu, em média, 148% da estimativa mínima (este valor representa uma melhoria homóloga de 21%).
A Sotheby’s registou uma taxa de venda de 90% – a melhor da empresa desde, pelo menos, 2010. O número médio de licitantes por lote vendido subiu 6%, para um máximo histórico de 4,9, com participantes de 119 países em 170 leilões.
As principais temporadas de arte também atingiram novos máximos. Os leilões de maio da Sotheby’s em Nova Iorque geraram aproximadamente 795,2 milhões de euros e apresentaram uma taxa de venda de 92,5%, a mais elevada alguma vez registada pela casa numa série de grandes leilões na cidade. Em Londres, as vendas de junho totalizaram cerca de 487 milhões de euros, o maior valor alcançado numa temporada de leilões realizada na Europa.
O perfil dos compradores: mais jovens e internacionais
A Christie’s atribui parte do crescimento do primeiro semestre à crescente internacionalização da sua base de clientes. De acordo com a leiloeira, o valor adquirido por compradores que fizeram ofertas fora dos seus mercados aumentou 34%, enquanto as licitações de participantes que não acabaram por comprar cresceram 69%, um dado que mostra concorrência pelos lotes. Cerca de metade dos novos clientes, 47%, pertence às gerações Millennial e Z, um peso ligeiramente superior aos 45% que tinham registado em 2025.
As vendas exclusivamente online totalizaram cerca de 175 milhões de euros e foram responsáveis por 63% dos novos licitantes e compradores. Os leilões digitais constituem uma porta de entrada para a leiloeira.
Na Sotheby’s, a mudança da sede global para o edifício Breuer, em Madison Avenue fez crescer o número de visitantes para mais do dobro dos registados no ano anterior, nas antigas instalações da York Avenue. A leiloeira abriu ainda, em abril, o restaurante Marcel no interior do edifício.
Arte lidera, mas luxo também cresce
A arte dos séculos XX e XXI continuou a dominar a atividade da Christie’s, com vendas de aproximadamente 2,02 mil milhões de euros, mais 79% do que no primeiro semestre de 2025. As categorias clássicas foram, contudo, as que apresentaram as maiores taxas de crescimento. As vendas de Old Masters aumentaram 232%, para cerca de 160,2 milhões de euros, enquanto o segmento de arte clássica avançou 168%, para aproximadamente 210,9 milhões.
As vendas do segmento de luxo, incluindo os automóveis comercializados pela Gooding Christie’s, geraram cerca de 471,7 milhões de euros, mais 15% do que no período homólogo. O movimento é semelhante ao registado pela Sotheby’s.
“O dinamismo do mercado que começámos a observar no segundo semestre do ano passado não só se manteve como continuou a intensificar-se, impulsionando um primeiro semestre recorde para a divisão de luxo”, afirma, em comunicado, o diretor deste departamento, Josh Pullan. “É importante destacar que esta solidez se faz sentir numa variedade notável de categorias e geografias, desde um desempenho recorde nos automóveis até ao crescimento de 64% nos relógios, incluindo o valor total mais elevado de sempre num leilão de relógios da Sotheby’s, realizado em abril, em Hong Kong”, acrescenta.
O leilão a que alude totalizou aproximadamente 46,3 milhões de euros, o valor mais elevado alcançado pela Sotheby’s numa venda de relógios e, segundo a casa, por qualquer leiloeira na Ásia.
Nos automóveis, as vendas da RM Sotheby’s cresceram 61%, impulsionadas por vendas de carros como o Ferrari 250 GT SWB California Spider de 1961, vendido por 16,7 milhões de euros no Mónaco. Este leilão alcançou um total de 87 milhões de euros e tornou-se, segundo a empresa, a mais valiosa venda de automóveis de coleção alguma vez realizada na Europa.

A coleção The Shapes of Cartier, que foi descrita como o a venda do maior conjunto de relógios Cartier vintage alguma vez apresentado em leilão, foi integralmente vendida e gerou cerca de 15,1 milhões de euros.
A joalharia cresceu 13%, enquanto os vinhos e bebidas espirituosas apresentaram uma taxa conjunta de venda de 94%. Entre os recordes do semestre esteve uma garrafa de Old Rip Van Winkle de 1982, vendida por aproximadamente 142 mil euros, o preço mais elevado alcançado em leilão por uma garrafa de whisky norte-americano.
“Entramos no segundo semestre com verdadeira confiança, começando com a Sports Week e a Geek Week, em Nova Iorque, tendo como peça central Gus, o T. rex, e com uma programação excecional para a Monterey Car Week”, afirma Josh Pullan.
O que esperar da segunda metade de 2026?
Na Christie’s, agosto ficará marcado pelo leilão da Gooding Christie’s, a leiloeira oficial de Pebble Beach Concours d’Elegance, que acontece na Califórnia. Em novembro, o Rétromobile fará a sua estreia em Nova Iorque. Em Londres, o destaque vai para a venda, em setembro da coleção de guitarras de Johnny Marr, guitarrista da banda The Smiths.
Também em setembro, mas em Paris, é leiloada a coleção de Graziella Patiño de Ortiz Linares, filha do milionário Símon Patiño, que inclui obras relevantes de Watteau e Fragonard, assim como pratas e mobiliário, de acordo com a casa britânica. Na segunda metade do ano, a leiloeira celebrará os seus 40 anos na Ásia, assinalados com uma exposição de arte chinesa em outubro, em Hong Kong.
A Sotheby’s apresenta em agosto, em Londres, The South Asia Edit, uma série de exposições que celebram vozes modernas e contemporâneas do sul da Ásia. No mesmo mês tem lugar o leilão de Monterey, o maior de sempre para a RM Sotheby’s, com 75 carros à venda e estimativas de vendas superiores a um milhão de euros.
A partir de outubro, a Sotheby’s apresentará uma das mais importantes coleções de arte e objetos, da Antiguidade à era moderna, alguma vez colocadas no mercado, de acordo com a leiloeira. Mais de 900 obras, distribuídas por mais de 25 categorias, serão apresentadas numa série histórica de leilões dedicados a um único proprietário. Também em outubro, a Sotheby’s Paris realizará um leilão de vinhos provenientes das caves do Château Haut-Brion. O primeiro leilão inteiramente dedicado aos vinhos da propriedade, segundo a leiloeira.
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