Descarbonização do transporte marítimo: quais as opções?
Vários especialistas defenderam, em Matosinhos, que a transição verde do transporte marítimo depende de inovação, qualificação e equilíbrio entre metas ambientais e competitividade económica.
Descarbonizar o transporte marítimo é um dos grandes desafios da economia do mar, mas o caminho para uma logística mais verde não passa apenas pela adoção de novas tecnologias. Exige também mudanças organizacionais, capacitação das pessoas e decisões políticas capazes de equilibrar sustentabilidade e competitividade.
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No painel “Logística Verde: Descarbonizar o Transporte Marítimo”, integrado na conferência “Matosinhos e a Nova Economia do Mar”, Manuela Batista, investigadora do MARE-ULisboa, destacou que a transição energética implica repensar toda a cadeia logística. “Descarbonizar é quase redesenhar a cadeia”, afirmou, ao mesmo tempo que deixou claro que as realidades de uma empresa, de um porto ou de um estaleiro apresentam desafios distintos.
A investigadora explicou que a mudança depende da capacidade económica e operacional de cada entidade, e alertou para a necessidade de preparar os recursos humanos para esta nova fase do setor. Através de estudos realizados junto de oficiais da marinha mercante portuguesa, a equipa identificou uma diferença entre conhecimento e aplicação prática da regulamentação ambiental. “Temos tecnologias, temos regulamentação internacional, as pessoas dizem que conhecem, mas depois, na prática, não implementam”, referiu, apontando que apenas uma parte dos profissionais analisados aplica efetivamente essas normas.
Na discussão sobre os futuros combustíveis marítimos, Manuela Batista defendeu uma abordagem diversificada e admitiu que o nuclear poderá assumir um papel relevante, sobretudo em viagens de longa distância. “Penso que o futuro será o nuclear”, disse. Mas defendeu necessidade de esclarecer dúvidas sobre esta tecnologia, já que a solução em estudo passa por módulos nucleares para navios, e não por centrais convencionais.
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Painel de debate: “Logística Verde: Descarbonizar o Transporte Marítimo” -
Manuela Batista, Investigadora do MARE-ULisboa -
Manuel Tarré, CEO da Gelpeixe -
Pedro do Ó Ramos, Presidente da Administração dos Portos de Sines e Algarve -
Painel de debate: “Logística Verde: Descarbonizar o Transporte Marítimo”
A transformação do setor terá, contudo, de ser acompanhada pela realidade das empresas. Manuel Tarré, CEO da Gelpeixe, alertou para o risco de uma transição demasiado acelerada criar dificuldades económicas às organizações: “O que está em causa é como a vamos concretizar, porque as medidas devem considerar as especificidades de cada país e de cada atividade”.
Na experiência da empresa que lidera, a sustentabilidade já passou por investimentos como a instalação de painéis solares, sistemas de aproveitamento de água e a eletrificação dos motores de frio dos camiões de transporte. Segundo Manuel Tarré, estas soluções representam custos iniciais, mas podem ter retorno num prazo aceitável, ao mesmo tempo que reduzem o impacto ambiental.
O responsável da Gelpeixe defendeu ainda uma visão integrada da cadeia marítima, lembrando que navios, portos e transportes terrestres fazem parte do mesmo sistema. A eletrificação de algumas rotas, o desenvolvimento do hidrogénio e a modernização dos portos foram apontados como caminhos possíveis, desde que exista colaboração entre os diferentes intervenientes.
A competitividade dos portos europeus esteve também no centro da intervenção de Pedro do Ó Ramos, presidente da Administração dos Portos de Sines e Algarve, que alertou para os efeitos que alguns mecanismos ambientais podem ter no equilíbrio concorrencial, nomeadamente o sistema europeu de taxas sobre emissões de carbono (ETS).
O ex-secretário de Estado do Mar deixou a questão: “Que sentido faz termos navios que escalam em Sines a ser taxados para depois os seus contentores irem para outros lugares europeus?”. Tal como já tinha alertado numa entrevista ao ECO/Local Online, o gestor alertou, ainda, que a aplicação destas medidas pode levar alguns operadores a optar por portos fora da Europa, sem que isso represente uma verdadeira redução das emissões globais, ao mesmo tempo que reduz competitividade no sul da Europa.
Pedro do Ó Ramos defendeu, por isso, prazos mais alargados e maior ponderação na implementação destas regras europeias, para que se consiga, no continente, conciliar a liderança ambiental com a capacidade das empresas competirem num mercado global. “A Europa quer sempre ser vanguardista e dar o exemplo, mas tem perdido protagonismo”, disse.
Também a burocracia surgiu como um dos principais obstáculos identificados no debate. Neste âmbito, Pedro do Ó Ramos deu como exemplo os processos de licenciamento associados à instalação de infraestruturas elétricas, que podem prolongar-se durante anos. E lamentou: “Quando temos isto assim, muitas pessoas baixam os braços”.
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