Design, tecnologia e construção industrializada. A estratégia da Roca para reinventar a casa de banho

Lina Santos,

A Roca quer transformar a casa de banho num espaço central da casa, cruzando design, tecnologia e construção industrializada. Em Barcelona, mostrou as novidades à comunidade: arquitetos e designers

Casas de banho que ficam prontas a funcionar em horas, novas linhas, sanitas que usam a pressão da rede para fazer descarga e dispensam autoclismo externos, smart toilets ou protetores de duche cada vez mais simples. É quase impossível perceber que tudo isto se passa no interior desta galeria cujas janelas parecem uma cascata perpétua, junto à Avenida Diagonal, em Barcelona. Mas será mesmo necessário ou o nome Roca, à porta, basta para se saber que é de casas de banho, design e inovação que falamos? Durante dois dias, a empresa de origem catalã abriu as portas a quem mais pode falar do que fazem: arquitetos e designers – os prescritores das soluções que aqui se concentram. “Queremos que seja um espaço principal”, diz o diretor de marketing e design.

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À margem do Congresso Mundial de Arquitetos da UIA, que aconteceu na capital da Catalunha, sob o tema Becoming. Architectures for a planetintransition e reuniu mais de 10 mil profissionais de 130 países, o Roca Design Day juntou a comunidade para a apresentação das novidades do ano e a clara ambição de reposicionar a casa de banho como espaço central da arquitetura, do bem-estar e da construção industrializada. Entre a nova linha Meridian, smart toilets e pods modulares, provaram que o design também se mede em dados como o silêncio da água, a facilidade de limpeza ou a eficiência da obra.

Marc Viardot, diretor de Marketing e Design do Roca Group há seis anos, explica que a estratégia do encontro é aproximar uma empresa de origem industrial da comunidade de arquitetura e design. “O Grupo Roca nasceu como uma empresa industrial e continua a sê-lo, mas o volume não é o que nos mantém vivos, sobretudo em tempos difíceis. É preciso uma marca. Só a marca ajuda a vender”, diz ao ECO Avenida este alemão com apelido francês que soa a catalão, a partir da sua experiência no departamento de marketing da suíça Laufen, a insígnia de luxo do grupo Roca, adquirida em 1999.

Marc Viardot, diretor de Marketing e Design da Roca


A casa de banho, outrora mal-amada, é agora uma divisão central de todas as casas.
“Passámos da zona húmida para a zona de bem-estar”, resume Marc Viardot. Mas será esse bem-estar cada vez mais tecnológico? “Hoje existem todas estas oportunidades proporcionadas pela tecnologia, mas precisamos de a adaptar de forma sensata, para aproveitar verdadeiramente todo o potencial desse espaço em benefício do bem-estar humano”, diz. “Isto parece algo muito ambicioso, mas, finalmente, penso que é para aí que estamos a olhar”, acrescenta.

“É possível aplicar tecnologia com muita facilidade, mas todo o cenário exige mais. É necessário que esteja bem integrada numa experiência espacial e que todos os elementos funcionem em conjunto. Quando falamos de tecnologia, falamos de luz, de materiais, podemos falar de aromas e podemos criar emoção. Vejo isso mais como o futuro da casa de banho do que dizer que teremos a nossa saúde monitorizada e que seremos analisados pelo espelho, pela sanita e por todos os restantes elementos”, refere o diretor de marketing e design da Roca. Em qualquer caso, “queremos realmente que seja um espaço principal”, assegura Marc Viardot.

A exposição da Roca, com o que de mais recente criaram, é ver materializadas as palavras de Marc Viardot e o papel que querem atribuir ao design e à colaboração com designers na evolução desta empresa centenária. A Roca nasceu em 1917 em Gavà, Barcelona, pela mão dos irmãos Roca e hoje está presente comercialmente em 170 países. Detém 78 fábricas, em 22 países (incluindo Portugal), nos cinco continentes. Chamou o estúdio de Barcelona Altherr Désile Park, “uma alemã, uma francesa e um norte-americano”, para redesenhar uma das suas linhas mais clássicas, a Meridien. “Queremos que olhem para nós de fora”, afirma David Garrido, design manager da empresa.

Os que estão mais habituados a prescrever estes materiais – arquitetos e designers – sabem: Meridien é o nome de uma linha já histórica da Roca. “Conserva o nome, podemos dizer que é um redesenho, embora eu não goste de usar essa palavra porque mudou 100% o conceito”, explica Garrido.

A escolha de Jeannette Altherr, Delphine Désile e Dennis Park, explica David Garrido, fazia sentido pela relação da Roca com a cultura mediterrânica: “Conhece perfeitamente Barcelona, a Roca conhece o que é o Mediterrâneo”. A Meridian ocupa a gama média-alta do portefólio, diz David Garrido enquanto chama a atenção para a textura mate dos acabamentos do lavatório e do móvel ou os discretos veios que permitem escoar a água – detalhes que são hoje o elemento principal. “Têm de chamar a atenção. Tens de perceber que há uma materialidade e uns acabamentos que outro produto não tem, mesmo que não saibas nada de design, diz.

Marc Viardot concorda que o trabalho da Roca se faz na interceção entre responder às necessidades dos consumidores, o design aprazível e a inovação. Tanto está nos cantos arredondados de um lavatório como no sistema Vortex incorporado nas sanitas, pensado para reduzir ruído e salpicos. Para David Garrido, também isto é design: a forma como a água sai, a facilidade com que se retira a tampa para limpar, a higiene e a eficiência. “Não nos conformamos só com uma coisa ou só com a outra. Este é um exemplo perfeito da fusão das duas”, afirmou, referindo-se à combinação entre desenho e desenvolvimento industrial.

Em 2026, a Roca renovou também a linha L20, torneira de entrada de gama agora mais estilizada, lançou coloridos duches de exterior em aço inoxidável e apresentou uma nova linha de torneiras desenhada pelo designer Stefan Diez, fundador do Diez Office (Bassano del Grappa, Munique, Viena). Mas o que chama mais a atenção são as smart toilets, muito diferentes da oferta japonesa, a mais antiga e consolidada do mercado. “A nossa diferença é a simplicidade. Não complicamos, não pomos uma interface de utilizador muito complexa. É superintuitivo e discreto”, afirma David Garrido reconhecendo que, na Europa, o produto ainda exige pedagogia. Portugal, como Espanha, ainda não aderiu em massa a esta inovação.

Um pouco mais à frente, David Garrido mostra um dos produtos mais inovadores do ano – a sanita Avant que funciona com a força da pressão da rede, com autoclismo incorporado, e, caso a rede não suporte sempre, pode recorrer a um motor elétrico. “Uma inovação da Roca que em breve nos vão copiar, mas que é nosso”, diz.

Construir a casa de banho antes da casa

A segunda frente da inovação da Roca está na construção industrializada, como provou o cubo com uma casa de banho que foi possível ver no Roca Design Day, a 29 de junho: módulos pré-fabricados, totalmente produzidos em fábrica, incluindo estrutura, instalações, equipamento e acabamentos, e transportados para a obra prontos a instalar. Fernando Santos, product manager em Portugal, explica ao ECO Avenida que é uma solução que dá resposta ao facto da casa de banho ser uma das divisões mais complexas quando se constrói. Exige intervenção de várias disciplinas (eletricidade, canalização, construção…). A solução está pensada sobretudo para o mercado residencial, hospitality e saúde, confirmam. Por cá, já está a ser usada num complexo habitacional que cumpre os requisitos desta solução, isto é, serem mais de 40 unidades.

Diego Menz, managing director prefabricated bathrooms Iberia, explica que processo “reduz muito a complexidade operativa da obra.” Em vez de articular várias especialidades, há uma solução integrada. “Pões o pod, ligas e já está”, diz. Segundo estudos do norte da Europa citados pelo responsável, uma boa implementação pode reduzir até 20% o prazo de execução, “em alguns casos até 30%”, embora o impacto dependa de cada projeto. “Há benefícios indiretos que as pessoas ainda não estão educadas para medir, mas realmente poupa muita complexidade na obra”, acrescenta ao ECO Avenida.

Estas casas de banho resultam de outra aquisição empresarial. O grupo Roca comprou uma empresa italiana que já produzia casas de banho modulares. Brescia, no norte de Itália, continua a ser um dos pontos de fabrico, o outro está em Anadia, Aveiro, uma das oito fábricas Roca que existem em Portugal. Os módulos são transportados apenas para a Europa (ainda não é possível fora). A escala é sempre uma condição, nota. “Normalmente pedimos 40 unidades por tipo”, explica, porque “a fábrica precisa de produzir em cadeia”.

Roca fechou 2025 com lucros de 43 milhões de euros

A fábrica de Anadia é uma das oito que a Roca detém em Portugal. No país trabalham 2 mil dos mais de 20 mil trabalhadores do grupo. Este inverno, a maior das unidades industriais, a fábrica de Leiria, foi parcialmente afetada na sua cobertura após a passagem da tempestade Kristin, tendo estado encerrada alguns dias.

O grupo, fechou 2025 com lucros de 43 milhões de euros, segundo dados publicados em junho deste ano. A faturação líquida atingiu 1,96 mil milhões de euros, uma subida de 3,8% a taxas de câmbio constantes face a 2024.

A aposta do grupo Roca nos segmentos premium e de luxo viu-se também em duas operações que reforçam o posicionamento da empresa: a aquisição de uma participação maioritária na italiana Antonio Lupi Design, reconhecido fabricantes de casas de banho de luxo, e da australiana Phoenix Industries, empresa de torneiras distinguida por vários prémios internacionais de design.

As galerias completam esta estratégia de marca. À rede internacional, que inclui Barcelona, Berlim, Madrid, Lisboa, Londres, Xangai, Pequim e São Paulo, juntaram-se recentemente a galeria de Deli, inaugurada em novembro de 2025, e a de Sydney, aberta em março de 2026. Em setembro, está prevista a abertura de uma nova galeria em Zagreb, na Croácia.

A jornalista viajou a convite da Roca Portugal.

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