IA não representa o fim do trabalho, mas traz mudanças
Numa talk do Advocatus Summit sobre deskilling ou adaptação, Madalena Sutcliffe e Tiago Macaia Martins debateram se a inteligência artificial vai substituir ou transformar o trabalho de conhecimento.
O trabalho de conhecimento muda mais depressa do que as organizações conseguem absorver, concluiu-se na talk Advocatus Summit sobre “O futuro com IA: Deskilling ou Adaptação?”. A conversa contou com a presença da fundadora da Clarifayo, Madalena Sutcliffe, e o coordenador do Departamento de Dados, Segurança e Tecnologia da Eversheds Sutherland, Tiago Macaia Martins.
Escolha o ECO como fonte preferida no Google
Convidada a definir a sua leitura sobre a evolução da inteligência artificial, Madalena Sutcliffe assumiu-se “profundamente otimista, mas realista”. Citou a Goldman Sachs e um artigo da The Economist para sustentar que a automação cognitiva atinge primeiro os empregos de entrada e que os dados mostram uma disrupção real, embora não sinónimo de desaparecimento do trabalho. “O trabalho muda, não desaparece. Pelo menos para já”, defendeu.
Já Tiago Macaia Martins recusou o binómio otimismo e pessimismo, porque, acredita, pensar nestes termos implica uma passividade que desvia a atenção do essencial: “O importante é nós termos a capacidade de perceber que decisões é que estão a ser tomadas, quem é que está a tomar essas decisões, com que legitimidade, em benefício de quem”. Para o advogado, a tecnologia é neutra e são as escolhas humanas que decidem o rumo.

Um dos pontos mais debatidos foi o significado de deskilling e, para Macaia Martins, a preocupação não está na obsolescência de competências técnicas, mas na possível erosão de capacidades básicas como o pensamento crítico, a memória e a capacidade de decisão. O especialista alertou para o cognitive offloading, em que delegar tarefas cognitivas nas ferramentas reduz esse exercício, e para o automation bias, a tendência para concordar com o que a máquina produz. Recordou que estas ferramentas tendem a validar a pergunta em vez de a questionar. “Parte do trabalho do knowledge worker é compreender a realidade, olhar para a realidade e selecionar, neste conjunto enorme de factos, quais é que são relevantes”, sublinhou, sugerindo espaços livres de inteligência artificial para preservar esse raciocínio autónomo.
Construir um futuro equilibrado
Madalena Sutcliffe traçou o perfil do profissional valioso no futuro próximo, que deve ser alguém com domínio profundo numa área humana difícil de automatizar, combinado com fluência em inteligência artificial e capacidade de adaptação contínua. Citou dados da PwC segundo os quais 51% das organizações norte-americanas reduziram a contratação de recém-licenciados, sinal de que o impacto mais imediato recai sobre os níveis de entrada. “Os dois mindsets mais importantes são o de propósito, no sentido de uma coisa que me entusiasma muito e que ajuda a resolver problemas do mundo, e curiosidade, no sentido de que vou ter que me adaptar continuamente”, apontou.
Questionados sobre a regulação, Tiago Macaia Martins notou que muitos problemas levantados pela inteligência artificial remetem para áreas já reguladas, como proteção de dados ou propriedade intelectual, e considerou o Regulamento Europeu de IA um esforço válido, ainda envolto em tensão entre quem o vê como proteção e quem o entende como excesso burocrático.
“Podemos estar a subestimar os riscos, e ao fazer isso podemos comprometer a própria tecnologia”, avisou, criticando o discurso dominante capturado focado nas potencialidades e pouco atenta aos riscos.
Assista à talk completa no vídeo abaixo.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
IA não representa o fim do trabalho, mas traz mudanças
{{ noCommentsLabel }}