Tesla Model S Plaid: Desportivo familiar com pé de chumbo

Luís Leitão,

Parece um familiar sensato, mas dispara como um superdesportivo graças aos mais de 1000 cavalos de potência. Só os piscas é que decidiram complicar a equação.

Chovia. Não era a chuva fina que embacia o vidro, mas aquela que transforma estradas em espelhos de água e obriga a agarrar o volante com respeito. E era precisamente aí, com o asfalto molhado e o céu carregado, que o Tesla Model S Plaid iria mostrar se os seus 1020 cavalos eram uma ameaça ou uma ferramenta controlada.

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Arrancar de forma mais brusca, acelerar com convicção nas saídas das portagens, testar os limites em curvas molhadas. O resultado? Uma lição de física aplicada que contraria qualquer preconceito sobre berlinas elétricas de alto desempenho. O carro não fugiu. Simplesmente avançava, imperturbável, como se a chuva fosse apenas um detalhe decorativo.

O Model S Plaid é a prova de que a Tesla sabe fazer contas. Três motores elétricos — um à frente e dois atrás — entregam 1.020 cavalos de potência e 1.424 Nm de binário através de um sistema de tração integral que distribui a força de forma inteligente. A aceleração dos 0 aos 100 km/h em 2,1 segundos não é apenas um número para impressionar nos jantares. É uma experiência violenta, mas surpreendentemente controlada.

O sistema de vetorização de binário ajusta constantemente a distribuição de potência entre as rodas, o controlo de tração trabalha em milissegundos e a suspensão pneumática adapta-se às condições da estrada, permitindo que, mesmo sob chuva intensa, mantenha a trajetória sem hesitações dramáticas.

A condução desportiva é o cartão-de-visita do Plaid, entregando prestações de hiperdesportivo, espaço para a família, tecnologia de ponta e eficiência energética. Mas não é perfeito, tem os seus caprichos e a construção ainda mostra desencontros pontuais entre painéis.

Esta não é a primeira versão do Model S Plaid. A berlina elétrica que inaugurou a era Tesla chegou ao mercado em junho de 2012, quando as dúvidas sobre autonomia e desempenho dos elétricos eram a norma. A primeira geração do Model S, com a versão P85, prometia 265 km/h e 0-100 km/h em 4,2 segundos – números respeitáveis, mas longe do que viria depois.

Em 2021, a Tesla lançou a versão Plaid, um salto quântico que colocou o Model S no território dos hiperdesportivos. Agora, em 2026, a versão renovada chega às estradas nacionais com melhorias ao isolamento acústico, nova iluminação ambiente, suspensão recalibrada e uma câmara frontal adicional que melhora a funcionalidade do Autopilot. As alterações não são revolucionárias, mas refinam uma fórmula que já funcionava.

Ao volante, o Plaid impõe-se pelo tamanho. Com 5,02 metros de comprimento e quase dois metros de largura, não é um carro para ruas estreitas ou lugares de estacionamento apertados, mas o espaço interior compensa. Quatro adultos viajam sem apertos, a bagageira oferece 709 litros mais 89 litros no frunk dianteiro e o habitáculo respira qualidade.

Os materiais são superiores ao que a Tesla habituou no passado, com superfícies macias, acabamentos em pele sintética, detalhes em carbono e alumínio. O ecrã tátil central de 17,4 polegadas domina o tablier e concentra praticamente todos os controlos, desde a navegação à climatização.

Os passageiros traseiros não ficam esquecidos: têm direito a um ecrã de 9,4 polegadas para gerir os próprios conteúdos ou ajustar a temperatura. É tecnologia a funcionar sem ostentação. Mas nem tudo é perfeito. O ponto mais irritante do Model S Plaid está nos piscas. A Tesla decidiu colocar os indicadores de mudança de direção em dois botões no volante, eliminando a alavanca convencional.

Em autoestrada, até se consegue viver com a solução. Nas rotundas, porém, a história muda. Sair de uma rotunda obriga a calcular onde estão os botões enquanto o volante roda, desviando o olhar da estrada para o volante. Este “salto” de modernidade é uma decisão que prioriza o minimalismo em detrimento da ergonomia e transforma uma operação trivial numa fonte de stress desnecessária. Há quem se habitue, mas a curva de aprendizagem é mais longa do que devia.

A condução desportiva do Plaid é, contudo, o seu cartão-de-visita. A direção é precisa, a resposta do acelerador é imediata e a travagem — com discos de 15 polegadas à frente e 14,4 polegadas atrás — está à altura da potência.

A suspensão pneumática ajusta-se automaticamente e filtra as irregularidades da estrada sem comprometer a estabilidade em velocidade. Em autoestrada, o conforto é de primeira classe, com níveis de ruído baixos até aos 130 km/h. Acima disso, os ruídos aerodinâmicos começam a entrar, mas mantêm-se dentro do aceitável.

A autonomia de 611 quilómetros em ciclo WLTP é generosa, embora em condições reais e com condução mais enérgica esse número desça para os 460-500 quilómetros. O carregamento rápido até 250 kW permite recuperar 80% da bateria em cerca de 35 minutos, o que, combinado com a rede Supercharger, torna as viagens longas perfeitamente viáveis.

O preço de 120 mil euros da versão Plaid ensaiada pelo ECO coloca o Model S numa posição curiosa. É caro, sem dúvida. Mas quando se compara com a concorrência direta como o Porsche Taycan Turbo GT, por exemplo, que custa mais de 240 mil euros, por exemplo, o Tesla começa a parecer um negócio.

Estamos perante uma berlina que entrega prestações de hiperdesportivo, espaço para a família, tecnologia de ponta e eficiência energética. Não é perfeito, tem os seus caprichos e a construção ainda mostra desencontros pontuais entre painéis. Mas, no equilíbrio entre valor e desempenho, poucos rivais conseguem competir. O Model S Plaid é a prova de que a eletrificação não precisa de ser aborrecida. E que 1020 cavalos, quando bem domados, podem ser tão seguros quanto brutais.

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