Presidenciais atípicas

  • Filipe Vasconcelos Romão
  • 21 Abril 2017

A partir do momento em que se tornou perceptível que François Hollande não teria quaisquer possibilidades de reeleição, consolidou-se a ideia de que estas eleições seriam disputadas entre a direita.

No próximo Domingo, terá lugar a primeira volta das presidenciais francesas. A campanha eleitoral que agora termina teve como notas dominantes a incerteza do resultados e a possibilidade de qualquer dos quatro candidatos que se perspectivam como os mais votados poder passar à segunda-volta. Como chegámos a este ponto?

A partir do momento em que se tornou perceptível que François Hollande não teria quaisquer possibilidades de reeleição, consolidou-se a ideia de que estas eleições seriam, sobretudo, disputadas entre a direita e a extrema-direita. Antes das primárias gaullistas, Allain Juppé, braço-direito de Jacques Chirac, figura moderada e com capacidade de arregimentar voto entre a direita moderada e o centro-esquerda, parecia destinado a ocupar o Eliseu. Numa hipotética segunda-volta contra Marine Le Pen, a esquerda não teria grandes problemas em dar-lhe o seu voto.

Porém, os últimos anos ensinaram-nos que a “opinião publicada” vale cada vez menos e Juppé foi facilmente derrotado em primárias pelo conservador François Fillon, antigo primeiro-ministro de Nicolás Sarkozy. O programa e a imagem de Fillon evidenciavam uma estratégia inversa à de Juppé: captar eleitorado de extrema-direita, sobretudo entre o conservadorismo católico francês que toca, subtilmente, a extrema-direita e que não não recusaria votar Le Pen. A estratégia não era nova e já tinha permitido a Sarkozy, em 2007, vencer chegar à presidência, com um discurso musculado que travara uma nova presença de Jean-Marie Le Pen na segunda-volta. Fillon teve, no entanto, de enfrentar durante a pré-campanha uma série de acusações judiciais relacionadas com o eventual favorecimento de familiares, o que acabou por diminuir (mas não anular) as suas probabilidades de chegar a presidente.

Por outro lado, o Partido Socialista (PS), francamente debilitado pela governação Hollande, voltou a apostar num processo de eleições primárias e, também aqui, os resultados não foram os previstos pelos analistas: o antigo primeiro-ministro Manuel Valls, pertencente à ala centrista do partido e principal rosto da governação social-liberal, foi ultrapassado por Benoît Hamon e pela sua promessa de reposicionar o PS à esquerda. Hamon enfrenta três grandes problemas: o peso da impopularidade de Hollande entre os socialistas; a emergência de uma candidatura forte de Jean-Luc Melénchon, que congrega boa parte da esquerda insatisfeita com o mandato de Hollande, incluindo socialistas de esquerda; e a antecipação de Emanuel Macron. Macron, outro antigo ministro socialista, auto-excluiu-se antecipadamente das primárias socialistas e fundou o movimento político “En Marche”, o que lhe permitiu estar em campanha mais tempo e gerir o próprio calendário sem constrangimentos externos.

Chegados às vésperas das eleições, foram tantas as situações atípicas que se dá o caso de qualquer dos quatro principais candidatos poder passar à segunda-volta e vencer a eleição. Em função dos eventuais alinhamentos na segunda-volta, poderemos ter presidências muito distintas. Um Macron que enfrente Le Pen, capaz de unir a esquerda, o centro e a direita gaullista será, necessariamente, um presidente diferente de um Macron que enfrente um candidato de esquerda (Melénchon) numa segunda-volta. Nesse caso, a sua campanha seria protagonizada pela direita, o que limitaria a sua capacidade para estabelecer consensos.

Quando olhamos para o semi-presidencialismo francês não podemos esquecer o papel que desempenham as eleições legislativas que terão lugar pouco depois das presidenciais. Desde que os mandatos do chefe de Estado passaram a ser de 5 anos (2002), as legislativas passaram a servir para confirmar o apoio ao novo presidente e para eleger maiorias de suporte. A coincidência prática entre o mandato presidencial e a legislatura poderá ter sido a principal razão para que desde 1997-2002 não haja um governo de coabitação em França.

Desta vez, porém, a acreditar na maioria das sondagens, qualquer que seja o presidente eleito terá grandes dificuldades em obter uma maioria clara no parlamento. Em primeira instância, este poderá ser um sinal do regresso de algum protagonismo parlamentar. Entre os quatro candidatos na linha da frente, só François Fillon dispõe de uma máquina partidária, “Os Republicanos”, capaz de potenciar a vitória presidencial (sobretudo pelo carácter inesperado de que se revestiria) e prolongá-la para uma vitória nas legislativas. Melánchon estaria dependente de acordos com os socialistas; Macron e o seu En Marche terão muitas pontes a estender à esquerda e à direita; e uma vitória de Le Pen seria sinónimo de um terramoto de tal magnitude que uniria (quase) todos os seus adversários nas legislativas seguintes.

Aguardemos por Domingo.

  • Filipe Vasconcelos Romão
  • Professor na UAL e ISCTE

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