Mais de um ano depois, ainda se joga Pokémon GO em família

O ECO foi à procura dos resistentes para saber o que os mantém ligados ao jogo, um ano e meio depois do lançamento, e o que mudou desde então. E parece que a febre se alastrou a todas as idades.

Provavelmente já ouviu falar no Pokémon GO, o jogo que deixa as pessoas agarradas ao telemóvel à procura dos pequenos animaizinhos espalhados pelas ruas. Foi em julho de 2016 que o jogo virtual chegou ao telemóveis e tablets dos portugueses e, acredite, há quem nunca tenha parado de jogar. O ECO foi à procura dos resistentes mas também dos desistentes. E, quanto aos últimos — que se cansaram do jogo –, os que ainda continuam explicam que “é porque não gostavam verdadeiramente de Pokémon“.

Os jogadores juntam-se em grupos para tentar capturar um Pokémon, após uma batalha.Rafael Castro

Provavelmente este mês a árvore de Natal da família Galego viu as bolas e as fitas substituídas por Pokémons. E, certamente, a decisão agradou tanto aos pais, como às duas crianças. Este Natal, o tempo para as compras é curto pois há outras prioridades… apanhar Pokémons. E a culpa? É das filhas pequenas.

Mesmo com o frio daquela tarde de sábado, João Galego e Tânia Botas estão em frente a uma pequena capela no centro do Cacém, acompanhados pela filha mais nova, Matilde, sete anos. Em poucos minutos, o grupo passa de cinco para dez pessoas — mais caçadores de Pokémons. “Aqui esta malta toda… São todos amigos“, aponta Tânia, 37 anos.

A família Galego: Matilde, Tânia e João.Rafael Castro

O Pokémon GO chegou a Portugal a 16 de julho de 2016 e, um mês depois, totalizava mais de 500 milhões de downloads, acabando por ser a app mais descarregada do ano nos iPhone. Desde então, o número de transferências diminuiu mas, até novembro deste ano, registam-se 800 milhões a nível mundial, de acordo com dados fornecidos pela Niantic, empresa que desenvolveu a app, ao ECO.

Apesar de não haver dados concretos por país, estima-se que em Portugal o cenário seja semelhante ao registado no resto do mundo, com uma queda gradual de downloads ao longo do tempo. De acordo com o site alemão Statista, em outubro deste ano, a aplicação do Pokémon GO gerou um total de 20,9 milhões de dólares (17,7 milhões de euros) por todo o mundo, sendo a sexta app que mais receitas gerou nesse período.

Para evitar perdas de jogadores como o Daniel, a Niantic lança frequentemente novos Pokémons. Este mês ficaram disponíveis para captura 50 novas criaturas mágicas, algumas já na terceira geração. Além disso, foi introduzida uma nova funcionalidade meteorológica. As descargas da aplicação podem já não ser bombásticas como eram, mas é certo que ainda há resistentes.

Quase todo o meu tempo livre é para isto… Mas tenho as minhas prioridades, elas e a família”, diz. Tânia, mãe de duas raparigas de sete e 13 anos, está desempregada e define-se como uma aventureira nestas andanças. Começou no jogo “porque o resto da família jogava”, mas ainda demorou algum tempo até apanhar o vício. “Eu nunca liguei a isso. Na altura não achei muita piada“, relembra.

A filha mais velha, Ana, experimentou o Pokémon GO quando foi lançado, tinha na altura 10 anos. Entretanto acabou por desistir por não ter conseguido apanhar o tão famoso Pikachu que apareceu dentro de casa, mas não tardou até voltar a tentar. Atrás foi o pai, a mana mais nova e, por fim, a mãe. “Este verão, a mais pequena disse que queria instalar o jogo e o pai ficou todo entusiasmado e instalou. Mas, na altura, ela era pequenina e não conseguia lançar muito bem as pokebolas, então eu comecei a lançar por ela. Comecei a ganhar o vício e pronto, aqui estou eu“, conta Tânia, entre risos.

Este verão, a mais pequena disse que queria instalar o jogo e o pai ficou todo entusiasmado e instalou. Mas, na altura, ela era pequenina e não conseguia lançar muito bem as pokebolas, então eu comecei a lançar por ela. Comecei a ganhar o vício e pronto, aqui estou eu.

Tânia Bota

O pai fala pouco: está concentrado a derrotar um “ginásio”, um local fictício e virtual, neste caso na capela, onde os jogadores lutam em grupo para tentar derrotar determinado Pokémon. Esse processo chama-se “raid” e, no fim, caso vençam, tentam apanhar o Pokémon. A tarefa não é fácil, exige trabalho de equipa e muita concentração. “Bora, é para entrar!”, avisa um dos jogadores. Um minuto depois, começa uma luta de dedos com toques rápidos e consecutivos nos ecrãs dos telemóveis, incluindo Tânia, que hoje tenta a tarefa com dois smartphones — o seu e o da pequena Matilde.

Mais um encontro de jogadores.Rafael Castro

João Galego, 38 anos, é impressor gráfico e diz não se importar com o que as pessoas pensam quando o veem jogar. Quando questionado sobre a coisa mais maluca que já fez para conseguir capturar um Pokémon, não hesita: “Estar às 4h da manhã no Jamor, no meio das ervas“. Mas, como essas, não faltam outras histórias para contar. Recordam as noites passadas em Sintra, no verão: “Em plena noite, na Serra de Sintra, saí do carro sozinha, num sítio onde não havia luz. Ali sozinha, sem medo… Quer dizer, tinha medo, mas não o podia mostrar por causa da minha filha”, recorda a mãe, enquanto vai lançando Pokebolas. “A minha família não sabe que eu jogo e os meus amigos dizem que eu sou maluca”.

Nesta família, todos se consideram verdadeiros caçadores, e Matilde que o diga. Segundo contam os pais, em tempos capturava mais Pokémons lendários — mais raros e difíceis de capturar –, do que toda a família junta. E mesmo que a prática não ajude, está sempre lá a mãe. “Às vezes é a mãe, quando eu não consigo, e outras vezes sou eu”, diz a menina de sete anos. Hoje, quase um ano e meio depois do lançamento do jogo, a família não se cansa. “É a emoção de estarmos todos juntos, a companhia. Porque andar sozinho não puxa. Eu também não vou apanhar Pokémons sozinha. Se for com ele ou com as miúdas é um incentivo, mas sozinha não”, diz Tânia.

Matilde, de sete anos, mostra o Pokémon que apanhou à mãe, Tânia, de 37.Rafael Castro

E, quando a batalha termina, todos conseguem capturar o sonolento e gigante Snorlax. Parece que o esforço valeu a pena e o que vale a pena também é continuar a jogar. Apesar dos jogadores que o Pokémon GO foi perdendo com o tempo, em parte devido à falta de inovações na aplicação, a mãe acredita que há mais razões. “Talvez preguiça de andar, ou então porque arranjam outros interesses. Principalmente naquela altura em que começou a ser um bocado saturante apanhar sempre os mesmos Pokémons. Mas agora já há imensos novos e já queremos apanhar mais”, explica.

2.508 quilómetros percorridos a pé

Espalhados pelas redes sociais há vários chats, criados com o intuito de reunir jogadores, onde se partilham localizações dos animais virtuais e se combinam encontros para derrotar ginásios. Num desses grupos está Paulo Gouveia, jogador em Portugal desde o primeiro dia. Naquela tarde fria de sábado, Paulo não contava sair de casa, pelo menos tão cedo. No entanto, o encontro marcado pelo grupo de jogadores do Facebook para derrotar um ginásio fê-lo sair. Novamente em frente a uma igreja estão 12 jogadores, entre eles o jovem de 23 anos, que saiu de casa à pressa, com carregador portátil no bolso, para tentar capturar um Groudon em mais um raid.

Paulo Gouveia, durante uma batalha com outros jogadores.Rafael Castro

“Sempre gostei de Pokémon desde miúdo e sempre joguei grande parte dos jogos, tanto para o Game Boy como para a Nintendo”, diz ao ECO o estudante de Finanças. Por isso, decidiu experimentar e, nesse período já percorreu o equivalente à distância entre Lisboa e Roma. “2.508 quilómetros, andados a pé, porque de carro não conta, se não tinha feito bem mais“. Ao longo de todos esses meses, conheceu bastantes pessoas, a maioria devido às recentes batalhas nos ginásios, onde são precisos vários jogadores para derrotar determinado Pokémon.

Influenciados por ele foram vários amigos, e até a namorada. Mas desses, quase todos deixaram de jogar: “A maioria nunca gostou de Pokémon antes… gostar a sério. Começaram a jogar porque sim e limitam-se a atirar pokebolas. Muitos nem sabem o nome dos Pokémons. Depois passou de moda e deixaram de jogar”. Paulo garante não ser um desses desistentes e até está num nível bastante avançado: 39 em 40.

A maioria [dos desistentes] nunca gostou de Pokémon antes…

Paulo Gouveia

Entretanto, ao fim de uns minutos a bater com o dedo repetidamente no ecrã do telemóvel, a batalha termina. O Groudon foi capturado e os jogadores não escondem a felicidade por capturar um Pokémon lendário, que deixará de ser avistado a partir do dia 16 de janeiro [os Pokémon lendários aparecem apenas durante um tempo limitado]. Para alguns membros do grupo, esta era apenas a primeira paragem daquela fria tarde de sábado.

Jogadores de Pokémon GO juntam-se em grupos. Normalmente são, no mínimo, quatro ou cinco jogadores.Rafael Castro

Assim como João e Tânia, Paulo também diz não se importar com o que pensam quando o veem jogar Pokémon. “A minha mãe diz que isto é para crianças e as pessoas perguntam constantemente ‘ainda jogas isto?’“, conta. E sim, ele joga: “Todos os dias. Num dia normal jogo nas viagens entre casa e a faculdade, tipo uma hora e meia ou duas horas”. O que não o impede de jogar em horas menos “normais”, como daquela vez em que saiu de casa às cinco da manhã para capturar um Snorlax ou no dia em que estava no meio do IC19 e fez um desvio para Alfragide em busca de um Dragonite, um dos preferidos pela comunidade.

Para o jovem, manter alguém no jogo durante todo este tempo não é fácil, confessa. No entanto, torna-se fácil e nada custoso quando se gosta realmente do Pokémon. “É difícil, demora bastante tempo até atingires o nível máximo. Mas o facto de continuarem a ser introduzidos novos Pokémons ao longo do tempo, principalmente os lendários que aparecem, em média, um por mês, tornam mais fácil e motivante continuares no jogo”, explica.

“Se os meus amigos jogassem todos, talvez voltasse a jogar para não ficar de parte”

Daniel Lourenço não foi assim tão paciente como a família Galego ou como Paulo. Começou a jogar Pokémon GO influenciado pelos amigos e, claro, pela curiosidade em experimentar. Assim como os restantes jogadores com quem o ECO falou, também o jovem de 20 anos recorda a sua infância rodeada de Pokémons. “Via todos os desenhos animados quando era criança, seguia todas as temporadas”, relembra. O estudante de Mecatrónica Automóvel lembra os tempos em que jogava, na altura cerca de duas horas por dia, “normalmente durante a noite, depois do jantar”.

Daniel Lourenço, o jovem que deixou de jogar Pokémon GO.Rafael Castro

Daniel nunca foi ao Jamor durante a noite mas também já se aventurou. “A coisa mais maluca? Ir até à ponta do farol para capturar um Blastoise“, normalmente encontrado em ambientes de mar ou rio. “Comecei a descer as pedras de segurança entre o farol e o mar”, conta. Mas o que mais lhe dava gozo capturar era o Charmander, um Pokémon de fogo que aparecia com pouca frequência na altura, “porque era tramado de encontrar e isso dava-me pica”.

Em tempos, Paulo e Daniel jogaram juntos. Hoje, continuam amigos mas não contam com o outro para jogar, principalmente Paulo. O estudante acabou por perder o interesse no jogo e deixou de jogar. “Parei porque entretanto surgiram coisas na minha vida que me fizeram perder tempo. Além disso, fui perdendo o interesse porque nunca surgiam novidades nem Pokémons novos, era sempre a mesma coisa, os mesmos Pokémons, e quando começaram finalmente a surgir, eu não quis jogar mais“, explica. Agora, mesmo com algumas frases de incentivo de Paulo, o amigo não cede. “Se os meus amigos jogassem todos, talvez voltasse a jogar para não ficar de parte. Mas entrar no vício não entrava”, garante.

Daniel Lourenço e Paulo Gouveia.Rafael Castro

 

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