Sombras sobre o Brasil

  • Filipe Vasconcelos Romão
  • 12 Janeiro 2018

O cenário que se desenhar é um retrato fiel da forma como a Lava-Jato ceifou a classe política brasileira e de como o sistema, dominado pelos próprios suspeitos, é totalmente incapaz de se regenerar.

A situação política brasileira é confrangedora. A menos de dez meses das eleições presidenciais, os dois candidatos mais bem posicionados nas sondagens são o antigo Presidente Luís Inácio Lula da Silva, recentemente condenado no âmbito da polémica operação Lava-Jato; e Jair Bolsonaro, deputado de extrema-direita, conhecido pelo seu discurso racista, pela sua paixão pela ditadura militar… e pelas suspeitas de enriquecimento ilícito.

O cenário que está a desenhar-se é um retrato fiel da forma como a Lava-Jato ceifou a classe política brasileira e de como o sistema, dominado pelos próprios suspeitos, é totalmente incapaz de desencadear um processo de reforma e regeneração. Não sendo de estranhar que os deputados e senadores não pretendam levar a cabo um suicídio colectivo, acaba por ser duro constatar a fatalidade do destino colectivo brasileiro.

No próximo dia 24, o recuso de Lula começará a ser julgado pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre. Uma confirmação da sentença ditada em primeira instância pelo juiz Sérgio Moro será um sério revés para as aspirações do antigo Presidente e para o Partido dos Trabalhadores (PT). Como fica patente neste artigo da Gazeta do Povo, a questão está longe de estar resolvida e a indefinição, no limite, poderá manter-se até depois da própria eleição presidencial.

O PT impediu a esquerda brasileira de levar a cabo uma renovação geracional. Apesar de o ímpeto inicial impresso por Dilma Rousseff ao seu primeiro mandato presidencial ter permitido uma certa autonomia em relação a Lula, a crise e a ameaça de destituição, no segundo mandato, voltaram a colocá-la na dependência do seu antecessor. Quem não se recorda da fracassada e desesperada tentativa de o nomear ministro-chefe da casa civil? Esse gesto foi a machadada final na sua carreira política e o reconhecimento de que para lá de Lula (por enquanto) não há PT.

A destituição de Dilma permitiu ao PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro, que voltou há dias a denominar-se MDB) e à oposição de centro-direita controlar o governo durante dois anos, mas não desbloqueou a criação de uma alternativa sólida e com possibilidades claras de conquistar eleitoralmente o poder. O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) deverá voltar a apostar em Geraldo Alckmin, governador de São Paulo e candidato já derrotado por Lula (2006), mantendo João Doria, prefeito de São Paulo, numa segunda linha com os olhos postos na eleição de 2022.

A ausência de capacidade de regeneração entre os principais partidos abre, assim, espaço para que uma figura como Jair Bolsonaro surja como candidato anti-sistema. A estratégia é clara: juntar à sua base ultra-conservadora os descontentes com o sistema e os sectores de direita para quem Lula é a encarnação de todos os males do Brasil.

Com alguma frequência, Bolsonaro tem sido comparado a Donald Trump. Com as devidas adaptações ao contexto histórico e ao sistema político e partidário brasileiro, existem pontos comuns, como o discurso “anti-sistema” e “politicamente incorrecto” e o apoio de sectores radicais. Há, porém, um aspecto diferenciador e que nos deve preocupar. Enquanto a solidez do quadro constitucional e a separação de poderes, nos Estados Unidos, têm permitido conter uma parte da agenda de Trump, a fragilidade brasileira poderá resultar numa incapacidade para limitar os enormes riscos de uma eventual ascensão de Bolsonaro.

Resta-nos espera-se que, neste caso, o sistema não seja testado.

Nota: O autor escreve segundo a ortografia anterior ao acordo de 1990.

  • Filipe Vasconcelos Romão
  • Professor na UAL e ISCTE

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