O que Cavaco vai ensinar aos jotas

Cavaco Silva semeou alcatrão por todo país, que ainda hoje pagamos e continuaremos a pagar, enquanto mandava matar agricultura e pescas.

Qualquer iniciativa partidária de aproximar os jovens da política e de lhes dar melhor formação é de louvar. Todos o fazem, por cá e lá fora, e a bondade das suas intenções é positiva. Li que na próxima Universidade de Verão da JSD, uma organização de muitos anos de um político de bem que é o Carlos Coelho, terá como convidado Cavaco Silva numa intervenção que terá por título: «A política da verdade vs. a da ideologia». E vou escrever o que ele deverá ensinar com a sua experiência.

Comer, mas fazer de conta que não gosta – Toda a vida política de Aníbal Cavaco Silva, a sua mitologia, é baseada no homem despojado, de serviço público, que não tinha nada a ver com politiquices. Era um homem providencial que, por mero atalho dos deuses, foi fazer a rodagem do seu novo Citroën e acabou entronizado líder do PSD num congresso. Nunca gostou da política, mas comeu, viveu dela, na carreira de poder mais longa do pós-25 de Abril. Apesar da cara de enjoado, nunca se enjoou do poder. Comeu e gostou. Espero que o diga em Castelo de Vide. Com verdade.

Misoginia partidária – Cavaco sempre odiou o seu próprio partido, secou-o, tirou tudo dele o que tinha a tirar, e sempre se esteve marimbando para ele. Cavaco é um misógino partidário, não gostou do PSD, não gostou das pessoas do PSD. A sua política, temporizada pelos silêncios e pela sua agenda, resguardavam-no das querelas internas e tinha uns serviçais que tomavam conta das ocorrências, enquanto também iam crescendo de influência e de bolso. Sim, quem eram os cavaquistas quando apareceram e onde andam eles agora? Quantos dos seus xerifes são hoje milionários quando tinham chegado aos corredores do poder com uma mão à frente e outra atrás? Deu vitórias ao partido, mas foram as suas vitórias. Dele (com letra maiúscula), do tal mito que pairava acima das politiquices, que falava de números, de rigor, porque as questões de “mercearia” – essas chatices – não eram coisa para ele. Espero que o diga em Castelo de Vide. Com verdade.

A suprema hipocrisia – Tenho para mim, é a minha opinião mas respeito outras, que o maior responsável do atraso estrutural de Portugal tem um nome bem claro: Cavaco Silva. Quando Portugal teve uma invasão de fundos estruturais ao nível do que recebíamos do ouro do Brasil, no tempo de D. João V, foi ele que indicou o caminho dessas verbas comunitárias. Semeou alcatrão por todo país, que ainda hoje pagamos e continuaremos a pagar, enquanto mandava matar agricultura e pescas. Em vez do desenvolvimento de novas tecnologias, vimos industriais converterem-se em banqueiros e nunca tantos esbanjaram dinheiro. Sim, a ganância é algo imemorial, faz parte da natureza humana, mas nunca ela tinha sido tão convertida num primado. Depois, quando estava em Belém, não teve vergonha de em vários discursos dizer que o País devia apostar na agricultura e pescas, ele próprio, o seu carrasco. Assim, espero que que defenda em Castelo de Vide a suprema hipocrisia de fazer e dizer o seu contrário 30 anos depois. Com verdade.

«A política da verdade vs. a da ideologia» – Pois bem, para Cavaco o conceito de verdade é o da sua verdade, a que lhe dava jeito em cada momento. Quanto a ideologia, era a sua, a Dele próprio, a do eucalipto que secava tudo para sobreviver. E a política, para lá de ser a arte do compromisso, é diariamente um exercício de sobrevivência. Tenho a certeza que Cavaco Silva será um excelente professor, um mestre esfíngico dos silêncios que tem tudo a ensinar aos jotas. Desde que diga a verdade em Castelo de Vide.

Nota: Por decisão pessoal, o autor não escreve de acordo com o novo acordo ortográfico.

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