Entrevista com a investigadora Elvira Fortunato: Na ciência “estamos pior do que com a troika”

A investigadora e vice-reitora da UNL preocupa-se com a burocracia que dificulta a investigação e com os ciclos políticos que dominam a ciência. No entanto, afirma, Portugal tem feito grandes avanços.

Elvira Fortunato tem o seu gabinete no CENIMAT, o centro de engenharia de materiais na Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade Nova, na Caparica, onde pratica a sua investigação, além de ser vice-reitora desta universidade que saiu recentemente como a mais bem representada das portuguesas em vários indicadores no prestigiado ranking de Leiden. A conversa com o ECO começou por aí, mas rapidamente passou para a política da ciência em Portugal, que em termos de burocracia está “pior do que com a troika”, e também na Europa, onde Elvira Fortunato é a única portuguesa no conselho científico da Comissão Europeia.

Quais são os indicadores em que a Universidade Nova se destaca no ranking de Leiden?

Há vários critérios a ter em conta, e a Nova destacou-se especialmente em dois. Um dos outputs científicos dos investigadores são publicações. Publicamos em jornais internacionais que são acedidos por qualquer investigador no mundo. Entre os 10% dos artigos mais citados a nível mundial há citações de artigos nossos. Ou seja, os artigos mais citados por todos os investigadores do mundo citam artigos da Universidade Nova de Lisboa. Esse indicador tem muito a ver com o impacto. Posso publicar muitos artigos, mas se não forem referenciados, das duas uma, ou o meu trabalho é muito mau ou a área em que estou a trabalhar é estéril.

O outro critério que o estudo de Leiden também utiliza é analisar, de entre todos os artigos que são publicados, quais os que têm colaborações com outros investigadores, tanto a nível nacional como internacional. De todos os artigos que a Nova produz, 87,8% dos nossos artigos são em colaboração. Dentro desses, 60% tem pelo menos um parceiro internacional. Isso dá uma dimensão da internacionalização da Nova, que está a funcionar muito bem em rede.

Queremos que as nossas universidades a nível nacional estejam bem colocadas quando se fazem estes rankings. Não estamos ainda muito bem colocados se nos compararmos com Harvard, Cambridge, ou com outras universidades de renome. Estamos a trabalhar nessa área.

Mas já tem havido melhorias nos últimos anos?

Claro, sem dúvida. Temos subido muito. A Faculdade de Economia é uma das escolas da Nova que se destaca exatamente nessa área da investigação científica porque já fez esta aposta há muitos anos.

Como é que vê nas universidades portuguesas, e aqui na Nova, o equilíbrio entre uma aposta mais virada para o ensino ou mais virada para a investigação?

Por definição, um professor universitário tem de ser um investigador, se não as universidades acabam por ser uns liceus muito grandes. Um professor universitário não pode só ensinar aquilo que está descoberto, mas tem, sobretudo, de ensinar aquilo que existe naquela área na última fronteira do conhecimento. Para isso é necessário que os professores universitários também façam investigação.

A ciência evolui de forma tão rápida. Ainda no outro dia uma aluna me disse, em brincadeira: “Nos cinco anos que estive cá, cheguei ao quinto ano e o que aprendi no primeiro já está tudo desatualizado.” As coisas mudam, e os professores têm de estar atualizados, e a melhor forma é irem aos congressos apresentar os seus trabalhos e terem equipas de investigação para poderem acompanhar.

Como se posiciona a produção científica em Portugal face a outros países europeus?

Portugal teve uma ditadura, e temos uma democracia que já é maior de idade, mas sem uma tradição muito grande na área da produção científica. O grande visionário para esta área foi o professor Mariano Gago. Foi ele que lançou todas estas raízes para a área da investigação.

Uma mensagem: ciência e educação deviam ter o seu ciclo próprio, não estando tão ligadas a ciclos políticos.

Não estamos ainda ao nível de outros países em termos de produção científica, mas não há nenhum país que tenha tido um aumento tão grande num espaço de tempo tão pequeno. Partimos de uma base muito pequenina, mas conseguimos dar o salto, e neste momento não estamos ao mesmo nível de países que têm uma tradição mais antiga, mas caminhamos para lá, e em determinadas áreas não ficamos nada atrás.

Como por exemplo?

Por exemplo a área onde trabalho: a engenharia dos materiais e das nanotecnologias. É uma área muito forte. Outra é a das biociências, como é o caso de muito do trabalho feito na Champalimaud ou no instituto Gulbenkian.

Em termos políticos, Portugal incentiva e valoriza a investigação?

Neste momento, estamos com excelentes iniciativas. O Governo atual lançou uma série de concursos, nomeadamente para o emprego científico, onde se espera empregar cerca de cinco mil investigadores doutorados, portanto, há uma aposta forte deste Governo pelo atual ministro desta área.

Por vezes, e é o que costumamos dizer, a ciência não devia estar tão politizada. A ciência e a educação não deviam ter cor política. Deviam ser áreas mais estáveis, com a abertura de projetos de forma regular, mas pelo menos sabíamos que não abrem só quando vem este ou aquele Governo. Uma mensagem: ciência e educação deviam ter o seu ciclo próprio, não estando tão ligadas a ciclos políticos.

Nesse hipotético ciclo próprio, haveria mecanismos de verificação de resultados?

Isso é fundamental. Todas estas iniciativas que são feitas têm de ser medidas e avaliadas. Mas isso demora tempo. É difícil em quatro anos saber logo o que resulta. Este ano, candidatámo-nos a projetos, mas estamos há mais de um ano à espera do resultado de projetos científicos.

Elvira Fortunato é investigadora no setor da engenharia de materiais e vice-reitora da Universidade Nova de Lisboa.Paula Nunes/ECO

Falta saber se as candidaturas foram aprovadas?

Falta saber se o projeto foi aprovado ou não, a nível nacional. Se submeti um projeto para fazer uma determinada investigação, e o projeto não vem, ou passa mais de um ano, às tantas quando for aprovado o que foi colocado em sede de candidatura já está atualizado. São estas pequenas coisas que não podem acontecer.

Em Portugal, há uma série de iniciativas positivas na área da ciência, mas há uma coisa muito má que temos: a burocracia. Não sei se já ouviram falar no Código das Contratações Públicas. Desde 1 de janeiro, quando essa mudança foi implementada pelo Governo, que as leis portuguesas estão contra a ciência. As leis que existem são anti-ciência.

São anti-ciência?

Porque a bloqueiam. Para além de perdermos muito mais tempo, estamos a perder competitividade. Tenho projetos europeus com prazos de três anos, e de seis em seis meses tenho uma reunião e tenho de apresentar resultados. Se eu preciso de comprar equipamentos, reagentes, consumíveis para realizar as experiências e não consigo, o que digo aos meus parceiros? Na próxima chamada de projetos talvez não venham falar comigo, porque pensam que os portugueses não cumprem.

Há uma burocracia medonha. Eu estou farta de dizer: neste momento estamos muito piores do que com a troika na área da investigação.

Há uma burocracia medonha. Estou farta de dizer: neste momento estamos muito piores do que com a troika na área da investigação. Não estou contra o Código nem contra os procedimentos administrativos, mas eles não encaixam na ciência, não foram feitos para investigação. Se eu não fizer isto, há um chinês que está a fazer exatamente o mesmo que eu fizer, e quando eu terminar o trabalho depois destas burocracias todas até nem vale a pena porque o chinês entretanto publicou.

Como vê a condição do professor e investigador universitário em Portugal?

Havia uma faixa de bolseiros que tinham bolsas há muitos anos e estas novas iniciativas com contratos servem para dignificar um pouco a condição desses investigadores que são fundamentais. É fundamental termos investigadores, não só pós-doutorados mas também alunos de doutoramento – são os cavalos de batalha aqui nos centros de investigação.

No entanto, com estas iniciativas, praticamente todos os bolseiros vão passar a ter contrato independentemente do mérito. Muito embora concorde com as iniciativas, em dar estabilidade a muitos bolseiros que não tinham o que um investigador normal ou um professor tem, a única crítica que faria é que se abriram muitos concursos, todos em simultâneo. Não sei se não se estará a secar um pouco o futuro. Vamos agora contratar estes investigadores todos, mas nos próximos cinco anos talvez não possa contratar mais ninguém novo. Há agora excelentes alunos de doutoramento que se vão doutorar, mas se calhar daqui a dois anos eu não tenho hipótese de os contratar por não ter meios, portanto o sistema satura. Devia ser mais faseado.

Existe consciência social e política da importância da investigação?

Onde se vê que se dá importância a esta matéria é por exemplo no próximo programa quadro da União Europeia, que vai até 2027. As únicas duas áreas onde houve aumento no orçamento foi na área da investigação científica, com um aumento de 30%, e no Erasmus. A Europa está a apostar fortemente no campo. Aqui em Portugal, como em outros países, temos de estar alinhados com as grandes prioridades da Europa, e espero que também Portugal aumente a participação financeira em termos de investigação.

E quanto ao seu papel enquanto conselheira junto da comissão europeia…

Recebi agora a notícia de que vou ser reconduzida por mais dois anos. Tem sido uma experiência muito enriquecedora. Basicamente trabalha-se na área da política científica. Trabalhamos muito diretamente com o comissário Carlos Moedas. Há comissários que colocam questões ou querem legislar sobre um determinado assunto. Basicamente, como somos cientistas e trabalhamos com as academias de ciências de toda a Europa, acabamos por dar pareceres muito baseados na evidência científica, e damo-los à Comissão Europeia. A Comissão acaba por poder legislar com facilidade por estar baseada num parecer científico. Contra factos não há argumentos.

A investigadora Elvira Fortunato é também a única portuguesa no conselho consultivo para a ciência da Comissão Europeia.Paula Nunes/ECO

Quais os desafios relacionados com ciência, inovação e ambiente que a Europa vai ter de enfrentar nos próximos anos?

Um deles é o caso das alterações climáticas. Não nos temos portado bem. Em 2015 houve o Acordo de Paris em que o mundo se comprometeu a baixar o nível de CO2 emitido em 80% até 2050. Se isso não acontecer, não garantimos um aumento de temperatura inferior a 2ºC. Nos últimos anos não nos portámos bem. Em vez de diminuirmos, ainda estamos a emitir mais CO2.

A área da energia é outra extremamente importante, e a da saúde, devido às novas doenças que vão aparecendo. Por exemplo, há o problema que agora enfrentamos: haver cada vez mais doenças que são resistentes aos antibióticos. As tecnologias de informação e comunicação também apresentam um desafio.

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