Os roteiros do turismo e da qualificação na Estremadura e Ribatejo

  • Filipe S. Fernandes
  • 12 Setembro 2017

De Óbidos a Fátima passando por Santarém, o grande esforço da região passa pelo aumento da qualificações e, por isso, conta com uma grande rede de instituições.

Há 75 anos nasceu em Óbidos a primeira pousada em Portugal. A iniciativa de António Ferro, que então dirigia o Secretariado da Propaganda Nacional (SPN) e que defendia que quando as pousadas deixassem de conhecer o cliente pelo nome mas pelo número do quarto perdiam a sua essência. Hoje gerida pelo grupo Pestana, a Pousadas de Portugal vai triplicar a sua oferta em Óbidos: passa de 17 para 47 quartos até ao final de 2018 num investimento de dois milhões de euros.

Óbidos, despide el verano en este pueblo precioso de Portugal a seis horas de Madrid”, aconselhava recentemente a secção de viagens do site espanhol El Confidencial, que criou uma aura desde que, no século XIII, D. Dinis a ofereceu à sua mulher, D. Isabel, que ficaria conhecida como a rainha Santa Isabel. Para além das formas e das cores, da arquitetura e da obra de Josefa de Óbidos — a freira que despiu o hábito para ser pintora –, da Vila Natal, o Medieval, o Festival do Chocolate é, também, desde 2005 considerada pela Unesco uma Vila Literária. Nela se realiza o festival de literatura de viagens Latitudes e, sobretudo, o Folio, que se vai realizar entre 19 e 29 de outubro, em Óbidos, e terá como tema uma sugestão feita por Marcelo Rebelo de Sousa no ano passado, “Revolução, revolta e rebeldia”.

No entanto, este festival literário viu este ano a verba que lhe era afeta desviada para o surf. Desde que, em 2011, Garrett MacNamara surfou uma onda de quase 24 metros — considerada a maior onda do mundo no chamado Canhão da Nazaré –, que o surf se tornou uma atividade e um recurso turístico estratégico para esta região. Em março deste ano, o Financial Times, publicou um artigo intitulado “Uma onda para surfar na Praia do Norte”, no qual destacava as habitações de luxo localizadas no Oeste de Portugal e dirigidas a compradores que, além do elevado poder aquisitivo, também queiram surfar a maior onda do mundo.

Na Nazaré, o presidente da Câmara, Walter Chicharro, deu à Lusa exemplos do impacto do surf e do turismo com as visitas pagas ao Farol a disparar nos últimos dois anos para 250.000. Os passeios do ascensor passaram de 600 mil passageiros, em 2013, para 900 mil, em 2016, e as vendas de ‘merchandising’ da marca “Praia do Norte” — que não chegavam a seis mil euros em 2014 — ficaram próximas dos 50 mil euros em 2016.

Recentemente, o presidente da câmara de Peniche, António José Correia, estimava em mais de 25 milhões de euros os investimentos que surgiram nos últimos quatro anos e outros novos a caminho, calculados em 3,5 milhões de euros relacionados com o surf no local onde já existem 50 escolas. A etapa de Peniche do mundial de surf é exemplificativa. Durante os dez dias em que a prova decorreu em 2015, os 100 mil visitantes geraram lucros na economia estimados em 10,6 milhões de euros, segundo um estudo encomendado pela câmara.

Por isso, Garret MacNamara dizia na Surf Summit, em novembro do ano passado na Ericeira, que “no princípio olhavam para mim com desconfiança, hoje recebem-me de braços abertos na Nazaré. Assisti ao renascimento da Nazaré e do vosso país”. O surfista não teme a massificação do surf porque este pode ser praticado o ano todo, em contraciclo com a época balnear tradicional em julho e agosto, em que as praias ficam cheias.

A dinâmica turística do Oeste foi muito afetada pela opção em 2007 de não fazer o novo aeroporto de Lisboa na OTA como era previsível até então. Durante a primeira década do século XXI, a possibilidade de um novo aeroporto desencadeou um forte investimento privado para tornar a região Oeste num polo de atração turística. Foram projetados resorts, com o turismo residencial e o golfe a servirem de bandeira para promoverem a região internacionalmente, na tentativa de fazer do Oeste um destino de golfe ao alcance das elites europeias. Os projetos multiplicaram-se como o Praia D’El Rey (200 há) — resort, campo de golfe, moradias turísticas, que hoje é do fundo Aquarius da Oxy –, o Bom Sucesso Design — 270 ha, com hotel, centro hípico, campo de golfe, aldeamentos turísticos de luxo –, o Pérola da Lagoa — 50,9 ha com villas residenciais e campos de ténis –, o Peniche Botado — 45ha de hotel, campo de golfe que pertence ao Grupo MH Hotéis –, o Rio Maior Golden Eagle — com 540 ha, o empreendimento turístico situado na Quinta do Brinçal, perto de Rio Maior, tinha um campo de golfe desde 1994 que encerrou em 2015 –, o então Westin Campo Real — com 82 ha, hotel, moradias turísticas, campo de golfe, passou para as mãos do Fundo Discovery –, e o Hotel Golf Mar, com 220 ha de hotel, spa e campo de golfe.

A tese de mestrado de Sara Pardal, “Repensar o Turismo e o Território no Oeste: Os Impactos da Crise Económico-Financeira”, faria ainda o inventário de projetos como a Quinta da Abrigada (282 ha), hotel e campo de golfe, Rainha Golf & Spa S.I. Hotel, campo de golfe e moradias turísticas, Paimogo na Lourinhã (100 ha), hotel, campo de golfe, Quintas de Óbidos, 57,6 ha com hotel, villas turísticas e centro hípico, Royal Golf & Spa, 130 ha de hotel, campo de golfe e residenciais turísticas, e ainda do Falésia D’El Rey, 200 ha com boutique hotel, campo de golfe e villas.

Recentemente foi inaugurado o West Cliffs Ocean and Golf Resort, com um campo de golfe disponível que representou um investimento do fundo Aquarius de 21,5 milhões de euros, 14,5 milhões aplicados em infraestruturas e o restante nas áreas de golfe. Numa área total de 230 hectares, a intenção é a de avançar com a componente imobiliária de 569 alojamentos ainda em 2017 e, no prazo de três anos, dois hotéis de cinco estrelas – um com 130 e outro com 60 quartos. Apesar das dificuldades com que muitos destes projetos se debatem, hoje a região criou um cluster de campos de golfe muito relevante. O campo West Cliffs junta-se ao Praia d’El Rey, o Bom Sucesso e o Royal Óbidos, que ficam a cinco minutos de distância uns dos outros, que funcionam em rede, tendo pacotes comuns e o cartão Ace (que permite fazer voltas em todos os campos), além de transferes gratuitos para os jogadores se deslocarem entre os vários greens. Existe também um campo de golfe em Santo Estevão (Benavente) que serviu de âncora para o investimento imobiliário na região.

O turismo religioso em Portugal tem a sua capital em Fátima, que é um dos locais de peregrinação católica mais visitados no Mundo, tendo recebido, em 2016, 5,3 milhões de visitantes, muito deles estrangeiros. Em maio de 2017 teve a presença do Papa Francisco, que veio às comemorações do centenário das aparições de Nossa Senhora de Fátima: foi o quarto pontífice a visitar Portugal, depois de Paulo VI (1967), João Paulo II (1982, 1991 e 2000) e Bento XVI (2010). Este conjunto de eventos poderá levar a que o Santuário receba, em 2017, mais de sete milhões de visitantes.

Mas o turismo religioso não esgota as potencialidades e os recursos da região, que conta ainda com Alcobaça, Batalha; Tomar como Património da Humanidade e as grutas como Património Natural, além de Santarém cujo centro urbano antigo constituiu um património monumental notável sendo apelidada de Capital do Gótico.

Os desafios do ensino, qualificação e I&D

Os recursos humanos da região da Estremadura e Ribatejo seguem um padrão de qualificação semelhante à média regional e nacional, que se caracteriza pela predominância de indivíduos com o ensino básico e pela escassez de elementos com qualificação média e superior. Por isso é fundamental para o seu desenvolvimento uma rede de ensino superior, investigação, transferência de I&D e qualificação profissional.

Esta região conta com o Instituto Politécnico Leiria, que conta com mais de 10 mil alunos inscritos, e com o Instituto Politécnico de Santarém. O Instituto Politécnico de Leiria (IPL), criado em 1990, está organizado em diferentes unidades orgânicas de ensino e investigação: Escola Superior de Educação e Ciências Sociais (em Leiria), Escola Superior de Tecnologia e Gestão (em Leiria), Escola Superior de Saúde (em Leiria), Escola Superior de Artes e Design (nas Caldas da Rainha), Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar (em Peniche). Conta também com o Instituto de Investigação, Desenvolvimento e Estudos Avançados (INDEA), a IDD – Incubadora D. Dinis, em Leiria, o OPEN – Oportunidades Específicas de Negócio, na Marinha Grande, o ABC – Apoio de Base à Criatividade, em Óbidos.

O Centro de Transferência e Valorização do Conhecimento (OTIC) é uma unidade do IPL que tem como missão apoiar as empresas através da facilitação e gestão dos processos de gestão de transferência de tecnologia e de conhecimentos entre o meio académico e o tecido empresarial. O Centro para o Desenvolvimento Rápido e Sustentado do Produto e com ligações ativas ao tecido empresarial regional e o globADVANTAGE – Centre of Research on International Business & Strategy, destinada à investigação teórica e aplicada da promoção da competitividade internacional nas áreas dos negócios internacionais e a estratégia corporativa.

Existem ainda na órbita desta instituição várias entidades com algum significado como a Academia Oracle – Oracle Academy.IPLeiria, que tem como objetivo proporcionar a obtenção das certificações OCA e OCP, na área de Administração de Base de Dados Oracle, a LM Academy: powered by Siemens Industry Software, que é um espaço laboratorial orientado para as áreas da engenharia mecânica e gestão industrial, que surge de uma parceria entre a Siemens, a Cadflow e a Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Leiria ou a D. Dinis Business School, uma Escola de Negócios constituída por 19 associados que tem por objetivo promover a aquisição de conhecimentos e competências dos empresários e quadros superiores das empresas, o estudo científico e o desenvolvimento da criatividade e das suas múltiplas aplicações nos diversos domínios da atividade humana.

O Instituto Politécnico de Santarém é uma instituição de ensino superior politécnico público, empenhada na qualificação de alto nível dos cidadãos, reconhecida como polo de desenvolvimento e uma referência na formação, na cultura e na investigação desenvolvidas na região. Criado na década de 70, integra atualmente cinco escolas: Escola Superior Agrária, Escola Superior de Gestão e Tecnologia, Escola Superior de Desporto de Rio Maior, Escola Superior de Educação e Escola Superior de Saúde.

O ISLA-Santarém é uma instituição de ensino superior, prosseguindo a sua atividade, atenta especialmente ao desenvolvimento cultural, científico e técnico da região de Santarém. O ISLA – Santarém complementa o ensino superior público com cerca de trezentos estudantes de cursos técnicos superiores profissionais, licenciatura, mestrado e pós graduação. Há também o Instituto Superior Politécnico do Oeste – ISPO – que fica em Torres Vedras e que resultou da fusão dos Institutos Superiores de Torres Vedras, o ISMAG – Instituto Superior de Matemática e Gestão e o ISHT – Instituto Superior de Humanidades e Tecnologias, que pertence ao grupo Lusófona.

Com grande significado para a economia desta região são também os centros de formação comercial. O CENFIM – Centro de Formação Profissional da Indústria Metalúrgica e Metalomecânica é um centro protocolar de âmbito nacional, que promove a formação, orientação e valorização profissional dos Recursos Humanos do Setor Metalúrgico, Metalomecânico e Eletromecânico. O CENFIM com sede em Lisboa tem 13 núcleos em Portugal, cinco dos quais nesta região: Caldas da Rainha, Marinha Grande, Peniche, Santarém e Torres Vedras. O CENCAL – Centro de Formação Profissional para a Indústria Cerâmica, foi criado em dezembro de 1981. Sediado nas Caldas da Rainha, vocacionado para o setor da indústria cerâmica portuguesa, criou em 2008 uma delegação em Alcobaça. Em 2011 alargou a sua ação ao setor do vidro, com a integração das instalações do CRISFORM, na Marinha Grande.

O For-Mar, Centro de Formação Profissional das Pescas e do Mar faz formação profissional necessária à qualificação, reconversão profissional, aperfeiçoamento e progressão nas carreiras do profissionais marítimos, nos termos legais em vigor, bem como dos outros profissionais dos setores que integram o âmbito da sua atividade e têm unidades operacionais em Peniche e Nazaré.

O COTHN (Centro Operativo e Tecnológico Hortofrutícola Nacional) que fica em Alcobaça e tem como objetivo “promover o desenvolvimento da fileira hortofrutícola nacional, especialmente através da investigação aplicada, melhoria do nível de conhecimentos no setor, aprofundamento da cooperação e das parcerias nas áreas da tecnologia e da organização”, tem como associados instituições do ensino superior como a Escola Superior Agrária de Santarém e a Universidade de Trás-os-Montes (UTAD).

A Associação para o Conhecimento e Economia do Mar (Oceano XXI) é uma associação sem fins lucrativos que tem por objetivo dinamizar o cluster do conhecimento e da economia do mar, promovendo o desenvolvimento de relações de cooperação entre instituições do setor científico, empresas e entidades associativas. No quadro de objetivos traçado, a Oceano XXI prossegue cinco linhas prioritárias que orientam a sua intervenção no curto e médio prazo.

A região tem, além de várias incubadoras a partir do Instituto Politécnico de Leiria, parques tecnológicos como o Obitec que junta a Universidade de Coimbra, a Universidade de Lisboa, o Instituto Politécnico de Leiria e a ETIC – Escola Técnica de Imagem e Comunicação que, às indústrias criativas, junta as áreas estratégicas de agronegócios, bem-estar & saúde, turismo & tecnologia e tecnologias para energia.

A região da Estremadura e Ribatejo

Estas regiões que se configuram grosso modo nas antigas províncias de Estremadura e Ribatejo apresentam, com exceção da região de Médio Tejo — virada mais para o interior — um crescimento de população nas últimas duas décadas. Por exemplo, na região de Leiria, com base nos censos de 2011, a população residente ascendia, em 2011, a quase 517 mil habitantes – 4,9% da população portuguesa – representando uma taxa de crescimento de 2,21% face a 2001, ligeiramente superior ao crescimento registado em Portugal (1,98%). O Oeste tem uma densidade populacional e empresarial superior à média nacional, com indicadores de desenvolvimento económico e de nível de vida superiores aos verificados na generalidade da Região Centro, mas inferiores aos da Região de Lisboa e até às médias nacionais.

A população da Lezíria do Tejo conheceu nos últimos 25 anos um ligeiro acréscimo populacional, atraindo pessoas sobretudo da Área Metropolitana de Lisboa e imigrantes com ênfase para as comunidades brasileira e do leste europeu, embora os concelhos mais interiores como Coruche, Chamusca e Golegã tenham perdido população.

Comum a estas regiões estão dois fatores demográficos mais marcantes da sociedade portuguesa atual: a quebra dos índices de fecundidade que cria o fenómeno do duplo envelhecimento da população, quer pela redução da base da pirâmide, quer pelo alargamento do topo da pirâmide.

O subsistema urbano da Região de Leiria é polarizado por Leiria, Marinha Grande e Pombal e mantém relações preferenciais com Nazaré, Alcobaça, Fátima e Tomar, relacionado-se também com Coimbra, Oeste e Vale do Tejo, e com a metrópole de Lisboa. O Oeste é marcado pela proximidade a Lisboa, até porque é atravessado por um eixo que liga a área metropolitana de Lisboa a Leiria e ao norte do país, materializado pela A8. Articula-se também com o Oeste, através da A8, que liga a CRIL em Lisboa a Leiria, atravessando estes dois distritos.

A região da Lezíria e Tejo, que tem grande parte do denominado Ribatejo, tem uma localização geográfica de intermediação entre subespaços e territórios distintos como a Área Metropolitana de Lisboa, o Oeste, o Médio Tejo e o Alentejo Central. Esta proximidade às várias vias tem permitido que Azambuja, Benavente e Cartaxo sejam cada vez mais industrializados, mas sobretudo têm fixado polos logísticos devido à sua proximidade a vários nós ferroviários e viários como a A1, a A13, a A10, a Linha do Norte.

As transformações recentes do sistema territorial e urbano da Lezíria do Tejo têm favorecido a emergência de dois tipos de dinamismos. Por um lado, os processos de concentração inter e intra concelhios têm espoletado um crescente protagonismo territorial dos centros urbanos de pequena e média dimensão. Por outro, têm vindo a consolidar-se subsistemas territoriais e urbanos, sob a forma de eixos e conurbações, sustentada pelas principais vias de comunicação existentes.

As cidades de Leiria e de Santarém são polos de emprego e de funções administrativas, comércio e serviços. O número de pessoas empregadas neste setor supera dois terços da população ativa da região (68,86%), destacando-se os municípios de Ourém, Tomar, Torres Novas e Abrantes, que, em conjunto, representam mais de 45%.

Quem faz a região Estremadura e Ribatejo

A região Estremadura e Ribatejo engloba as seguintes comunidades intermunicipais e respetivos concelhos. A Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo é formada por Almeirim, Alpiarça, Azambuja, Benavente, Cartaxo, Chamusca, Golegã , Rio Maior, Salvaterra de Magos e Santarém . A Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo contempla Alcanena , Constância, Entroncamento, Ferreira do Zêzere, Ourém, Sardoal, Tomar, Torres Novas, Vila Nova da Barquinha, Mação, Sertã e Vila de Rei enquanto a Comunidade Intermunicipal do Oeste é feita com Alcobaça, Alenquer, Arruda dos Vinhos, Bombarral, Cadaval, Caldas da Rainha, Lourinhã, Nazaré, Óbidos, Peniche, Sobral de Monte Agraço e Torres Vedras. Finalmente segue-se a Comunidade Intermunicipal da Região de Leiria com Alvaiázere, Ansião, Castanheira de Pêra, Figueiró dos Vinhos, Pedrógão Grande, Batalha, Leiria, Marinha Grande, Pombal e Porto de Mós.

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