Critical Materials: do Minho para a Força Aérea do Paquistão

Em Guimarães, uma pequena empresa tem um produto capaz de avaliar a condição material e a integridade estrutural de componentes críticos em aeronaves, turbinas eólicas e outras infraestruturas.

Gustavo Rodrigues Dias, CEO da Critical Materials.

A Critical Materials, uma empresa especializada em soluções de tecnologia para sistemas críticos, está a vender o seu produto à Força Aérea do Paquistão. Este é apenas um dos muitos clientes que esta empresa com sede em Guimarães (AvePark) tem pelo mundo fora. Em Portugal, o único cliente é a EDP. Todos os outros estão espalhados pelo norte da Europa, desde a Dinamarca à Alemanha, passando pelo Reino Unido, Brasil e pelo Paquistão. E estão repartidos por setores como a aeronáutica, aeroespacial, energia e infraestruturas.

Gustavo Rodrigues Dias, CEO da Critical Materials, explica ao ECO que o produto em causa é o PRODDIA, “uma ferramenta de gestão que avalia a condição material e a integridade estrutural de componentes críticos em aeronaves, turbinas eólicas e outras infraestruturas complexas”.

"Uma ferramenta de gestão que avalia a condição material e a integridade estrutural de componentes críticos em aeronaves, turbinas eólicas e outras infraestruturas complexas.”

Gustavo Rodrigues Dias

Ceo da Critical Materials

A entrada da Critical Software

A empresa que nasceu oficialmente em 2009, resulta da transferência de conhecimento tecnológico a partir da Universidade do Minho. Gustavo Rodrigues Dias e Júlio Viana, os sócios fundadores da empresa, estavam ligados à Universidade do Minho onde eram professores e investigadores. Associado a essa atividade, os dois sócios eram consultores de materiais aeronáuticos na aplicação de novos materiais e novas estruturas. E foi durante esses anos que se cruzaram com a Critical Software.

Gustavo Dias justifica a parceria com a empresa de Coimbra de maneira simples. “A Critical Software é uma empresa focada na ‘criticalidade’ do software e acabamos por perceber que tínhamos um conjunto de visões muito semelhantes, na medida em que o nosso foco é a ‘criticalidade’ de materiais e de sistemas que não podem falhar. Dessa conjugação de visões surgiu uma ‘joint-venture’ a que demos o nome de Critical Materials”.

Mas a estrutura acionista rapidamente evoluiu. A Critical Software acabou por deixar de ser o acionista de referência, passando esse papel a ser exercido por um fundo de vários bancos e em que a empresa de Coimbra tem também uma participação. Atualmente, o fundo detém 70% da Critical Materials, estando o restante capital na mãos dos dois sócios fundadores.

Com a primeira versão do produto a ser comercializado em 2012, o CEO da Critical Materials diz que já vão na terceira versão do PRODDIA. Aliás, a mesma foi lançada em maio deste ano e já está a ser comercializada.

Mas para que todos percebam o que faz a Critical Materials, o presidente da empresa, optou por fazer uma demonstração do software em causa. Na sede da empresa está exposta uma peça lateral de uma avião. O dispositivo está ligado ao PRODDIA que responde às mais leves pancadas. Assim, um pequeno embate nessa parte do avião, apesar de não deixar mossa visível, acaba por ficar registado, permitindo aferir se é necessário recorrer à manutenção ou não. A companhia diz que “em causa está a medição de pequenos impactos que não são visíveis a olho nu”.

Potenciais clientes

Os clientes da empresa nortenha são as Embraers deste mundo, e ainda a EDP no caso dos aerogeradores e empresas que desenvolvem plataformas ‘offshores’. Em Portugal, a empresa trabalha apenas com a EDP, tudo o resto é mercado de exportação.

Gustavo Dias diz que “exportamos para vários países, temos um cliente dinamarquês, temos a Embraer Alemanha que está a desenvolver um protótipo que não tem grande expressão em números, mas que nos pode catapultar para outros projetos, temos Espanha, tivemos projetos com Inglaterra e temos também a relação com o Brasil que poderá ser ainda mais intensa com a venda dos KC130“.

O produto da Critical Materials para já está apenas patente em aviões militares, não estando ainda disponível em aviões comerciais. Para o CEO, esse facto é explicado “devido à exigência do processo de certificação que deverá demorar cerca de um ano a um ano e meio”.

Concorrência

Apesar de o produto estar patenteado, a concorrência existe. E deverá mesmo ser mais intensa com o decorrer do tempo. Para Gustavo Dias a explicação é simples. “Este é um tema sério, não tanto pela tecnologia em si mas pelo seu impacto. Ou seja, nós como utilizadores de aeronaves queremos preços mais baixos e isso implica que a cadeia de valor seja mais em conta e uma maneira de baixarmos esse custo é precisamente o de saber o estado do avião e a manutenção que é necessária. Para isso é necessário conhecer os problemas mais cedo e atuar sobre eles e, portanto, este tipo de tecnologia tem muita relevância para os operadores de aviões, o que forçosamente implica que tenha relevância para os construtores de aviões“.

"É necessário conhecer os problemas mais cedo e atuar sobre eles e portanto este tipo de tecnologia tem muita relevância para os operadores de aviões, o que forçosamente implica que tenha relevância para os construtores de aviões.”

Gustavo Rodrigues Dias

Ceo da Critical Materials

O que pode levar grandes empresas a desenvolverem internamente este tipo de tecnologia.

E nesse caso como fica a Critical Materials?

A resposta sai rápida ao presidente da empresa. “Não fica mal porque há dois mundos de negócio: um que é aquilo que são as instalações no ponto zero da fabricação dos aviões e outro que é reinstalar esta tecnologia em aviões que já são utilizados e que vão fazer manutenção“.

A Critical Materials emprega para já uma equipa de 25 pessoas, sobretudo engenheiros, das mais diversas áreas. Já a faturação ronda os 1,5 milhões de euros, mas a continuar a crescer a dois dígitos, o presidente da empresa estima atingir, no prazo de cinco anos, os 7 a 8 milhões de euros.

Com um EBITDA positivo, Gustavo Rodrigues Dias reconhece a importância dos fundos comunitários a que recorreu, nomeadamente o Fundo Europeu para Investimentos Estratégicos (FEIE) que lhe permitiu consolidar a empresa e estimular o seu crescimento ao nível de software/harware e de novos mercados.

Para o CEO da empresa, “os fundos ajudam muito. Por um lado desoneram o investimento que os acionistas teriam que fazer, sobretudo numa empresa como a nossa que tem ciclos longos de negócio, e depois porque baixa o risco e credibiliza as empresas porque são projetos que são muito escrutinados e avaliados. À medida que esses projetos vão aparecendo credibiliza mais o projeto e a tecnologia, entramos num ciclo virtuoso”.

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