Técnico, a faculdade que foi o berço do Priberam

  • Joana Azevedo Viana
  • 6 Junho 2017

Transformação digital é uma "questão premente" da universidade portuguesa, onde nasceram algumas das startups com maior crescimento dos últimos anos.

Até os leitores menos esclarecidos sobre tecnologia já terão consultado o site Priberam para tirar dúvidas sobre a língua portuguesa ou ouvido um anúncio que, por estes dias, habita a rádio e a televisão e que oferece dietas à medida de cada um. O que a maioria dos leitores não sabe é que a Priberam é uma empresa que nasceu no Instituto Superior Técnico (IST) e que, por trás das ofertas de dieta milagrosas, há uma startup também concebida no Técnico por especialistas em biotecnologia que, a partir da herança genética dos interessados, conseguem perceber que tipo de comidas cada um deve evitar.

“Aqui no Técnico acompanhamos há muito a transformação digital, que agora se tornou uma questão premente”, explica ao ECO Luís Caldas de Oliveira, vice-presidente do Técnico para o empreendedorismo e as relações empresariais.

A chamada quarta revolução industrial trouxe uma série de novas possibilidades, desde a comunicação entre máquinas em qualquer ponto do mundo civilizado até à produção de computadores que custam cêntimos.

Luís Caldas de Oliveira

Vice-presidente do Técnico para o empreendedorismo e as relações empresariais

A facilidade de comunicação que daí adveio também possibilitou que passássemos a poder guardar enormes quantidades de dados na nuvem. E com o desenvolvimento de novas tecnologias, entre elas a aprendizagem automática, vulgo inteligência artificial, deu-se a tempestade perfeita.

Mais de 30 anos depois de o Instituto de Engenharia e Sistemas de Computadores (INESC) ter desenvolvido a primeira central telefónica digital de Portugal, é do Técnico que continuam a sair alguns dos melhores projetos de transformação digital com marca portuguesa. Entre esses conta-se a HeartGenetics, a startup por trás das dietas NutriBalance, cujo trabalho vai muito além de meras ementas. “A genética é uma disciplina nova, complexa, que está a desenvolver-se a uma velocidade estonteante e que não existia quando a maioria dos médicos se formou”, explica Ana Teresa Freitas, cofundadora da empresa e professora catedrática de bioinformática e biologia computacional no IST. “O nosso lema é ‘genetics made simple’ e, no fundo, o que fazemos é usar dados genéticos para orientar diagnósticos preventivos e tratamentos.”

Da mesma maneira que criar um computador passou a custar cêntimos, hoje um teste genético custa entre 50€ a 150€ e, para o fazer, basta uma simples amostra de saliva. Foi também graças a isso, ao facto de “a tecnologia de laboratório para se aceder ao genoma ser agora muito barata”, que nasceu a HeartGenetics, aliando a genética aos avanços da informática para se lançar na área das doenças cardiovasculares. Hoje conta com uma equipa de 13 pessoas a trabalhar num laboratório em Coimbra e já está lançada nos mercados espanhol, italiano e brasileiro, com os primeiros projetos-piloto previstos para o Reino Unido e a Alemanha até ao final do ano.

“Apesar do receio que temos do cancro, hoje em dia são as doenças cardiovasculares que mais pessoas matam, na ordem dos oito milhões de mortes ao ano, por doenças de cancro contra 17 milhões de mortes anuais causadas por problemas cardiovasculares, entre eles hipertensão e excesso de colesterol”, elabora Freitas. “No Técnico desenvolvemos softwares em várias línguas e algoritmos automáticos que, a partir desses dados, criam guidelines para adaptar a recomendação de medicamentos ou certos tipos de tratamentos ao código genético de cada um.”

Pensar como o inimigo

Numa altura em que se começa a descortinar o verdadeiro impacto das transformações digitais, 15 anos depois de termos passado da robótica à indústria 4.0, a segurança é um dos grandes desafios, uma área “muito forte” para a qual “as pessoas estão a começar a abrir os olhos”, explica Pedro Adão, professor de engenharia de segurança de informação, também ele um ex-aluno do Técnico com formação-base em matemática avançada.

"Estamos a formar alunos para uma visão do mundo da segurança informática um bocadinho diferente da habitual.”

Pedro Adão

Professor de engenharia de segurança de informação

“Não nos limitamos a montar barricadas e ficar à espera para ver o que acontece do outro lado, porque do outro lado, do lado que ataca, não se vai tentar furar as barricadas, vai-se olhar para o todo e tentar descobrir frechas que possam ser exploradas.”

É isso que um grupo de 15 alunos do Técnico tem explorado com milhares de outros especialistas do mundo inteiro: “Estudar vulnerabilidades de segurança em sistemas fechados, no meio do deserto para não chatear ninguém”. São trabalhos de investigação em situações simuladas mas que procuram respostas para problemas reais. “Esta área é nova, está a avançar mais devagar do que a tecnologia. Estamos a correr atrás da tecnologia e isso cria uma lacuna gigante, há falta de mão-de-obra qualificada e portanto os alunos do Técnico não são apenas alunos. Para lhe dar um exemplo, em outubro participámos na competição PixelScam, que envolveu duas equipas universitárias e oito empresas, e ficámos em terceiro lugar.”

É por isso também que, nos últimos anos, as propostas de parcerias têm estado a aumentar. “O nosso grupo está a captar a atenção de empresas de tecnologia que veem que temos este olhar diferente e também já fomos contactados por uma outra empresa para resolver casos em tribunal que envolvem segurança informática, para darmos pareceres técnicos a equipas legais no âmbito de processos que envolvam crimes como roubos de dados.”

Só no ano passado, houve 200 alunos inscritos nas aulas de segurança informática em redes e sistemas que Adão leciona. “Há muito interesse porque é uma área que toca em tudo e as empresas estão a começar a perceber que uma fuga de dados não é uma mera fuga de dados, afeta tudo, incluindo a imagem da marca, podendo até ditar o fim da própria empresa.”

A importância humana

O valor das tecnologias está a ser transferido para os que sabem mexer nelas. Exemplo recente dessa valorização foi a reação de 97 multinacionais americanas, incluindo a Apple, a Google e a Amazon, ao decreto anti-imigração que Donald Trump promulgou em fevereiro, para impedir a entrada de refugiados e imigrantes de alguns países de maioria muçulmana nos EUA. “Os imigrantes desenvolveram algumas das maiores descobertas da nação e criaram muitas das mais icónicas e inovadoras empresas”, lia-se na ação jurídica que interpuseram contra o Governo, alegando que a medida não só é inconstitucional como acarreta enormes riscos para o país e para todo o mundo globalizado.

É esse o argumento invocado por Caldas de Oliveira para explicar a importância de mão-de-obra qualificada num mundo em permanente avanço tecnológico, e que é ecoado pelos investigadores do Técnico. “O valor passou a estar na adaptação do software ao problema, ou seja, em ensinar a máquina a usar os dados à disposição”, explica o vice-presidente do INESC. “Por exemplo, num call center o que hoje tem mais valor não é o algoritmo que a máquina aprende, é o trabalho da máquina com os dados desta ou daquela empresa. Se a empresa está a gerir um sistema de atendimento para uma companhia de seguros, os tipos de palavras e comportamentos registados pelas máquinas são diferentes do que no caso de uma empresa de serviços de acesso à internet. Tem de se adaptar a tecnologia ao problema específico e para isso são precisas pessoas que o saibam fazer.”

Nesse sentido, continua, “passou a haver uma grande valorização dos especialistas em tecnologias de informação, porque as empresas estão a começar a perceber que conseguem comprar tecnologia barata e que o que custa é adaptar a tecnologia aos seus problemas e especificidades”. É aí que o INESC se destaca, como incubadora de especialistas de onde têm saído alguns dos projetos e empresas mais inovadores dos últimos anos.

Projetos e parcerias

Podemos começar pela Codacy, uma startup lançada por um ex-aluno do Técnico para ajudar os programadores a identificar potenciais riscos de alterações aos seus códigos (hoje em dia guardados na nuvem e não em computadores privados). “Foi porque Jaime Jorge ganhou a Web Summit que Paddy Cosgrave percebeu o ecossistema que existe aqui em Lisboa e que escolheu a cidade para a edição de 2016”, explica Caldas de Oliveira. “O que o programa dele faz é encontrar potenciais erros de software para ajudar os programadores a trabalharem com mais eficiência. Ele costuma dizer que é a diferença entre deixar a louça suja acumular-se ou lavar logo o prato que se suja, a casa fica mais arrumadinha. Foi este o pitch que ele fez no Web Summit, foi assim que apresentou a ideia, com uma pilha de pratos em cima da mesa”, conta a rir.

Há outros exemplos. Veja-se o caso da Prodsmart, que ajuda pequenas fábricas metalomecânicas a modificarem os seus sistemas para os adaptar à chamada internet das coisas, que não é mais que hoje termos pequenos sistemas espalhados por todo o lado a comunicar dados de forma permanente. “Quando aplicamos a internet das coisas a uma fábrica, conseguimos ter sistemas de produção mais inteligentes, as máquinas passam a digerir dados e ajudam quem está a gerir a fábrica a otimizar o fluxo produtivo. Tudo isto, em fábricas como nas áreas da saúde, urbanística ou energética, tem um grande impacto na economia, porque se consegue produzir mais pelo mesmo custo.”

Ou o caso da Talkdesk, que aproveitou a transformação digital para “pôr os call centers na nuvem”, ou seja, para virtualizar o que até agora eram centrais telefónicas com pessoas a trabalhar in loco. “Receberam o primeiro cliente em 2012 e neste momento têm 130 pessoas a trabalhar aqui em Lisboa e outras 130 em São Francisco, e acabaram de receber mais 26 milhões de dólares de investimento. No fundo, se precisar de um call center para a sua empresa, a Talkdesk monta-lhe um em duas horas.” Como? “Basicamente têm um sistema de call center na torre 3 das Amoreiras que funciona para o mundo inteiro. Criam um número para o qual os clientes podem ligar e depois transferem a chamada para uma pessoa da empresa que já vai ter acesso aos dados disponíveis sobre quem está do outro lado. Se quiser montar um call center tradicional, em duas horas marca uma reunião com quem vai desenhar a central de atendimento. Com a Talkdesk, em duas horas põe o call center a funcionar, porque está virtulizado.”

Tudo isto é possível graças à chamada inteligência artificial, ou o que no INESC se chama de aprendizagem automática, que não é mais do que pôr os computadores a aprenderem a partir de exemplos. Como explica o gestor de projetos, “quando temos muitos dados, em vez de termos de programar a máquina para os entender podemos fazer o computador aprender e identificar padrões de forma automática, através de algoritmos muito poderosos que olham para esse manancial enorme de dados e que conseguem identificar, por exemplo, o que é que caracteriza uma pessoa que está zangada a falar com um operador de call center”.

O senão aqui é que há áreas, como a linguística, que estão em permanente mutação, pelo que é fácil os dados-base das máquinas ficarem obsoletos. Foi a partir daí que dois ex-alunos do INESC, André Martins e João Graça, tiveram a ideia de criar a Unbabel, uma empresa que trabalha com 40 mil editores espalhados pelo mundo e que, no espaço de minutos, garante traduções automáticas de textos e comunicações — melhorando as capacidades da aprendizagem automática das máquinas e dando garantias aos clientes de que está tudo dentro dos conformes. Tal como acontece com os especialistas em tecnologias de informação, os editores são sempre precisos, porque a língua evolui e a máquina não consegue acompanhar essa evolução sozinha. E é também por isso que o trabalho na área nunca tem fim.

Por causa disso, Mário Figueiredo e outros especialistas, incluindo Martins e Graça, Luís Sarmento, que trabalhou cinco anos na Amazon, e Fernando Pereira, que é chefe de investigação na Google, decidiram lançar uma escola de verão que, no próximo mês e pela sétima edição consecutiva, vai juntar 200 investigadores de todo o mundo no Técnico para mais uma odisseia à volta da inteligência artificial. “Este ano tivemos 532 candidatos para 200 vagas, 100 e tal empresas tecnológicas mas também empresas de consultoria, a Telecom França, o Max Planck Institute da Alemanha…”, explica o professor catedrático especializado em compreensão e codificação de dados. O projeto é patrocinado pela Google e pela Priberam e surgiu não só porque “estava a começar a surgir interesse na área mas porque havia, e ainda há, lacunas por colmatar”. Entre 20 e 27 de julho, trará a Lisboa muitos portugueses mas também gente do Brasil, México, Índia, Paquistão, Singapura, Coreia do Sul e China. “A cada ano temos registado um aumento de entre 10% a 15% no número de candidaturas.” A maioria fica a lamentar que não haja mais espaço para fazer subir o número de vagas.

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