Crises nos EUA mancham imagem da Uber. E em Portugal?

A Uber já viu melhores dias. Vários problemas mancharam o prestígio da empresa e levaram muitos trabalhadores a procurarem novos empregos em Silicon Valley. Em Portugal, a situação é diferente.

“Anda tudo ansioso é pela chegada de novos operadores”, confidenciou um motorista ao ECO.PAULA NUNES/ECO

A casa-mãe da Uber, a mais valiosa de todas as companhias de Silicon Valley cujos títulos ainda não negoceiam na bolsa, tem atravessado diversas crises nas últimas semanas. São problemas atrás de problemas que muito abalaram a reputação da empresa perante passageiros, mas também os próprios trabalhadores. Com uma avaliação perto dos 70 mil milhões de dólares, a imagem da Uber já teve melhores dias.

Tudo começou quando cerca de 200.000 utilizadores decidiram, numa ação conjunta nas redes sociais, desinstalar definitivamente a aplicação. Aconteceu no final de janeiro. Em causa, a decisão da empresa de ignorar — e, consequentemente, boicotar — uma greve de taxistas que se recusavam a transportar passageiros no aeroporto internacional de Kennedy, em protesto contra as políticas de Donald Trump.

Depois disto, já em fevereiro, surgiu a denúncia de assédio sexual por parte de uma ex-trabalhadora. Susan Fowler, antiga programadora, alegou que por diversas vezes um superior hierárquico terá tentado ter relações sexuais com ela. Feita a queixa aos recursos humanos, o departamento terá decidido não fazer nada devido ao alto cargo ocupado pelo alegado agressor. O caso tornou-se mediático. A Uber, em resposta à polémica, ordenou a abertura de uma investigação interna.

Seria o ponto de partida para uma série de escândalos que se foram sucedendo ao longo das semanas recentes. Desde logo, a divulgação de um vídeo pela Bloomberg em que Travis Kalanick, presidente executivo da Uber, surge a discutir com um motorista da plataforma. Depois, o The New York Times relatou com pormenor o ambiente desenfreado que se vivia frequentemente no escritórios da companhia. A moral dos trabalhadores caiu e as polémicas não se ficaram por aqui.

A empresa foi ainda processada pela dona da Google por alegadas violações de patentes da Waymo, a unidade da Alphabet que está a desenvolver o carro sem condutor. A empresa foi ainda acusada de usar um programa para detetar e iludir as autoridades e as demissões foram aparecendo umas atrás das outras.

Esta sucessão de escândalos feriu fortemente a companhia. Agora, o Financial Times avança que um número anormal de trabalhadores tem procurado também abandonar os quadros da Uber nos Estados Unidos. O jornal falou com alguns responsáveis de recursos humanos de empresas sedeadas nas redondezas da Bay Area, que garantem estar a receber diversos currículos de trabalhadores da Uber. Um recrutador garantiu que “uma das principais razões” para o êxodo é a “falta de fé na liderança” dos destinos da companhia.

O caso ganha especial relevância, tendo em conta que existem boas razões para não se sair da Uber. Desde logo, enquanto trabalhadores da empresa, muitas pessoas acabam por deter valiosas ações ou opções de compra que, segundo o Financial Times, podem valer milhares (ou mesmo milhões) de dólares. “Historicamente, tem sido incrivelmente difícil recrutar pessoas da Uber, o que tem muito a ver com os trabalhadores não quererem abrir mão das opções de compra que têm”, resumiu ao jornal o líder da consultora SCGC Executive Search, Guillaume Champagne.

A próxima luta poderá começar em breve. Segundo a revista The Economist, a par de ter de descobrir como gerar (ainda) mais receitas, o Tribunal de Justiça da União Europeia vai finalmente declarar se a Uber é, afinal, uma empresa tecnológica ou uma firma de transportes. Se os juízes do mais soberano tribunal da União Europeia decidirem que a Uber é mesmo uma transportadora, a empresa ver-se-á automaticamente a braços com complexos regulamentos nas centenas de cidades europeias onde opera e que, até agora, sempre negou que se lhe apliquem.

E em Portugal?

Existem poucos indicadores de que a crise na casa-mãe esteja a ter efeitos significativos nas operações da plataforma em Portugal, nomeadamente ao nível do número de utilizadores. A Uber Portugal não prestou esclarecimentos nesse sentido até à publicação deste artigo e a concorrente Cabify preferiu não comentar. Para os motoristas com quem o ECO falou, abandonar a atividade parece também estar, para já, fora de questão, embora no meio já se fale de alternativas.

Um motorista da Uber, que não quis ser identificado, disse ao ECO que não notou qualquer redução óbvia no número de utilizadores do serviço em Portugal, salientando apenas o “excesso de viaturas” e denunciando a alegada saturação do mercado em algumas cidades. “Anda tudo ansioso é pela chegada de novos operadores”, desabafou porém, indicando que alguns passageiros têm colocado questões sobre plataformas alternativas.

Outro condutor comentou ao ECO que o período menos positivo da empresa nos Estados Unidos “cria algum desconforto e descredibiliza a empresa-mãe”: “As pessoas estão cada vez mais mentalizadas de que a empresa só vê números”, criticou. E os passageiros que transporta? “Têm perguntado por alternativas. A resposta que vou dando é que a lei [que deverá regular o setor] ainda não saiu”, explicou.

Assim, as principais queixas continuam a ser ao nível da precariedade no setor. A necessidade de regulamentação é apontada por praticamente todas as frentes, desde as empresas parceiras aos taxistas e, em último caso, a própria Uber Portugal, que já se está a preparar para um novo quadro regulamentar. A proposta de lei do Governo deverá ser discutida no Parlamento já no próximo dia 17 de março, pelas 10h.

Recorde-se que, no final desta segunda-feira, a unidade portuguesa da Uber divulgou um estudo realizado pelo centro de empreendedorismo do ISCTE onde mais de 80% do total de participantes pediu descontos e condições especiais em seguros para transporte de passageiros, combustíveis, tráfego nas redes móveis, entre outros. Face às conclusões do trabalho, a empresa decidiu lançar um programa de benefícios para permitir aos motoristas e empresas parceiras “potenciar” rendimentos, oferecendo “descontos e condições especiais em produtos e serviços importantes para as suas operações”.

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