Startup Lisboa. A incubadora que acelerou a cidade

Cinco anos depois do dia 1, a Startup Lisboa contribuiu para a criação e aceleração daquilo que Lisboa é hoje: uma cidade que acolhe e faz crescer empreendedores e startups.

abertura-sulx-2fev2012-4
As primeiras chaves da Startup Lisboa foram entregues a 2 de fevereiro de 2012. A Uniplaces foi uma das primeiras startups residentes.

No dia em que a Uniplaces assentou arraiais na rua da Prata, Miguel, Mariano e Ben trabalharam com os computadores pousados na mesa do almoço. “As mesas das salas ainda não tinham chegado à Startup Lisboa mas nós precisávamos de trabalhar mesmo assim”, conta Miguel Santo Amaro, cofundador e CEO da Uniplaces, o primeiro inquilino da casa.

Miguel e os sócios Mariano Kostelec e Ben Grech fundaram a Uniplaces e foram dos primeiros a ocupar o espaço do número 80 da rua da Prata, na Baixa lisboeta. Na altura, chegaram a partilhar o prédio com uma senhora que viveu no último andar do edifício durante quase um ano após a abertura do espaço da incubadora. E o facto de “ninguém” conhecer o termo startup e a sinalização estar no prédio dava mais alento do que desmotivava os “desconhecidos” moradores.

"As pessoas passavam e perguntavam: sabe o que é que é isto da Startup Lisboa?”

Miguel Santo Amaro

Uniplaces

“Acabámos por entrar antes da inauguração oficial e foi engraçado ver que as pessoas que integravam o projeto foram construindo a ideia do que é isto do empreendedorismo, ver os primeiros venture capitalists — estes investidores que não percebiam muito de tecnologia nem do que estávamos a fazer –, e hoje ver a evolução que a cidade e que a própria Startup Lisboa tiveram. A fasquia está bastante alta mas acredito que pode ser muito mais alta”, recorda Miguel Santo Amaro, em conversa com o ECO.

uni

Viver para contá-la

Inaugurada a 2 de fevereiro de 2012, a ideia de criar uma incubadora de startups na cidade surgiu a partir do Orçamento Participativo 2009/10, um projeto da Câmara que desafia os cidadãos a dar ideias para a cidade. A ideia, uma das mais votadas, serviu de catalisador a um projeto desejado pela Câmara mas que, sem a ‘aceleração’ do orçamento participativo, provavelmente demoraria muitos mais anos a concretizar, acredita Graça Fonseca. Desde a sua fundação, há cinco anos, a Startup Lisboa recebeu mais de 3500 candidaturas e apoiou 255 startups de empreendedores de mais de 35 países.

“A Câmara Municipal de Lisboa decidiu começar a trabalhar no projeto em várias dimensões. A primeira foi encontrar e definir a localização”, recorda Graça Fonseca, à data vereadora da Economia e Inovação da autarquia e que viria a ser presidente da Associação Startup Lisboa durante cerca de quatro anos. Na altura, optaram pela Baixa: apesar de ser uma zona com pouca circulação de empresas e empresários, a ideia era que a incubadora fosse em pleno centro da cidade.

A incubadora também é uma startup. Fomos descobrindo o mercado.

João Vasconcelos

Secretário de Estado da Indústria

Estamos a falar de uma altura em que, na Baixa, às 19 horas, não havia uma luz acesa além da do nosso prédio, não havia um sítio para comer uma sandes, era um sítio tenebroso. Toda a rua estava vazia a partir das sete da tarde”, recorda João Vasconcelos, diretor da incubadora durante os primeiros quatro anos de vida e que agora é secretário de Estado da Indústria e um dos dinamizadores do Startup Portugal, a estratégia nacional para o empreendedorismo lançada pelo Governo no ano passado.

De Atlantic Business Center a Startup Lisboa

Decidido o local — uma parceria com o Montepio, a instituição bancária que, desde o primeiro momento, apoiou o projeto –, era altura de pôr mãos à obra. Foi nessa perspetiva que a Baixa, outrora sem movimento, assistiu a uma revitalização de uma das suas ruas mais célebres da cidade: o primeiro edifício a dar teto à incubadora lisboeta tinha como objetivo fundamental a “atração de novas pessoas”.

“Por isso, não era um trabalho apenas para a Câmara mas para todos: foi nessa perspetiva que desafiámos instituições bancárias a juntarem-se a nós e fomos procurar outros parceiros”, explica Graça Fonseca.

O projeto original estava desenhado muito antes de João Vasconcelos chegar. “Era uma espécie de soft landing para PME’s dos PALOP, e ia chamar-se Atlantic Business Center. O Montepio já tinha disponibilizado o primeiro edifício. Depois, tanta coisa aconteceu. Decidimos ver o que outras capitais europeias estavam a fazer e descobrimos que, no meio da maior crise dos últimos anos, Lisboa estava a conseguir atrair estrangeiros para montar empresas. Percebemos que havia ali tração, focámo-nos no digital e começámos a trabalhar nisso. Criámos uma rede de mentores e de investidores, tivemos muita sorte com os primeiros empreendedores que conseguimos atrair: foi uma construção deles também”, conta João Vasconcelos, em entrevista ao ECO.

A Startup Lisboa nunca foi um agregado de startups ou de vontades. Criou-se uma comunidade.

Graça Fonseca

Secretária de Estado Adjunta e da Modernização Administrativa

O objetivo era fazer com que o edifício fosse, mais do que espaço de desenvolvimento de um conjunto de ideias de negócio, o ponto de partida para um ecossistema. Berlim e Londres serviram de inspiração mas o que, a partir de fevereiro de 2012, se foi criando naquele prédio da rua da Prata foi muito mais do que uma mera incubadora.

“Era um espírito verdadeiramente único. Tivemos sorte por sermos convidados a fazer parte da equipa de fundadores, mas o que é interessante é que, hoje, muitos dos nossos amigos e parceiros continuam a ser as mesmas pessoas que estavam connosco nessa altura. Acaba por ter aquele core connosco: passados cinco anos, e mesmo que apenas uma percentagem pequena das empresas sobreviva, continuas a ter essas pessoas a representar bem Portugal no mundo. E é interessante que um edifício na rua da Prata, numa zona praticamente abandonada pela cidade, se tenha tornado um hub tecnológico”, detalha Miguel Santo Amaro.

abertura-sulx-2fev2012-3
António Costa, na altura presidente da Câmara de Lisboa, Graça Fonseca, então vereadora, Zeinal Bava e Tomás Correia, no dia da inauguração da Startup Lisboa, a 2 de fevereiro de 2012.

Outro fator preponderante, considera o secretário de Estado da Indústria, foram as visitas de António Costa a cada dois meses: o presidente da Câmara da altura estava pessoalmente envolvido no processo. “Isso faz com que toda a cidade abrace o projeto. Não tínhamos orçamento, não tínhamos dinheiro relevante, não havia fundos comunitários em Lisboa. Vivíamos muito de as empresas perceberem que aquilo era útil para eles, e as pessoas foram-se envolvendo. Fomos aprendendo todos muito”, explica João Vasconcelos.

“No início, a lógica passava por construir uma relação muito próxima entre os elementos e isso foi muito importante porque permitiu tornar mais ágil e dinamizar o ecossistema, acelerar processos, etc. (…) Escolhemos uma ou duas empresas consolidadas numa fase inicial e quisemos apostar em novos negócios: creio que naquele primeiro dia entregámos 40 chaves a startups”, recorda Graça Fonseca.

Curioso como um edifício, umas paredes e as pessoas que começaram lá, acabem por ser uma das razões para o Web Summit ter vindo para Portugal e para que grandes empresas hoje olhem para Lisboa como base para o futuro.

Miguel Santo Amaro

Uniplaces

Entretanto, já em 2015, foi inaugurado mais um edifício para incubação, o Espaço Caixa Empreender by Startup Lisboa, localizado no número 81 da Rua da Prata. Também na Baixa, perto dos dois edifícios com espaços de trabalho para as startups, na Rua do Comércio (n.º8), foi inaugurada a Casa Startup Lisboa, com 14 quartos, e onde já passaram mais de 50 pessoas. A estes, junta-se mais um, no Marquês de Pombal, espaço de incubação de startups de comércio e serviços que, em breve, terão uma loja para implementação de projetos pop-up na Rua da Prata, adianta Miguel Fontes, atual diretor geral da Startup Lisboa.

miguel_fontes_start_up_lisbon
Miguel Fontes, diretor da Startup Lisboa, foi um dos responsáveis pelo lançamento da primeira coleção de merchandise da incubadora.Paula Nunes / ECO

Em cinco anos, a Startup Lisboa permitiu a recuperação de dois edifícios históricos na Baixa, a criação de mais de 1500 postos de trabalho e 80 milhões de euros de investimento nas suas startups incubadas. E, no ano passado, lançou outra grande notícia: a gestão do projeto do hub do Beato, The Base, um projeto da câmara de Lisboa que tem como ambição criar uma cidade inovadora e criativa na zona ribeirinha da capital, num espaço com cerca de 35.000 metros quadrados que serviam armazém da Antiga Manutenção militar.

“A ideia é que, naquele espaço que é enorme, tem muitos edifícios e numa zona que está a mudar a face da cidade e junto ao rio, possamos criar ali um polo que seja aglutinador e dinamizador daquilo que de mais inovador está a ser feito debaixo de quatro eixos: empreendedorismo — queremos trazer para o Beato boas ideias e conceitos debaixo da ideia da incubação, aceleração, fab labs –, indústrias criativas, e um terceiro pilar mais corporate declinado em dois: procurar os bons projetos de I&D e aquilo a que se chama scale-ups e global companies. A soma disto tudo é o que será o Beato: intencionalmente a mistura de diferentes perfis e ambientes em que a única coisa que é comum é a ideia da inovação”, explica ao ECO Miguel Fontes, assinalando a ideia clara para a implementação do projeto.

Não queremos que o Beato substitua aquilo que já existe na cidade porque isso não acrescentaria valor. Queremos o contrário: a partir de um espaço posto à disposição da cidade e da comunidade consigamos atrair projeto ainda a ser desenhados ou que ainda cá não estão, ainda não são conhecidos e tenham esta marca de serem inovadores e gerem impacto por essa via”, esclarece.

João Vasconcelos e Graça Fonseca na inauguração da Startup Lisboa, a 2 de fevereiro de 2012.
João Vasconcelos e Graça Fonseca na inauguração de um dos edifícios da Startup Lisboa.D.R.

Medir o impacto

Depois da Startup Lisboa, foram muitos os projetos ligados ao empreendedorismo e às startups a instalar-se em Lisboa. Casos como os londrinos Second Home ou Impact Hub, escolheram Lisboa para instalar os seus mais recentes hub e, a maior conferência de tecnologia e empreendedorismo da Europa, o Web Summit, mudou-se para Lisboa e organizou o evento, pela primeira vez fora de Dublin, em novembro de 2016.

Esta dinâmica cada vez mais divulgada levou a que, ainda na semana passada, Lisboa tenha sido considerada uma das dez cidades mais amigas das startups pelo Fórum Económico Mundial.

Há pouco mais de um ano na direção da Startup Lisboa — depois da saída de João Vasconcelos –, Miguel Fontes garante que, na incubadora, o tempo vive-se de maneira completamente diferente. “É qualquer coisa de muito forte em termos de impressão: um ano de vida aqui corresponde a sete porque é tudo tão intenso, tão acelerado, tão vibrante que, de facto, notável quando olhamos para trás e passou ‘só’ um ano que se desdobra em mil coisas”, detalha.

"A história do ecossistema de Lisboa cruza-se muito com o da Startup Lisboa. E a realidade está aí para o demonstrar. Há cinco anos, contava-se pelos dedos de uma mão o que havia para contar dentro desta área. E isso tem muito a ver com a missão da Startup que é, obviamente, apoiar as startups aqui incubadas como também ajudarmos ao desenvolvimento do próprio ecossistema empreendedor da cidade.”

Miguel Fontes

Diretor Startup Lisboa

Cinco anos intensos que não deixam margem de dúvidas quando se fala em marcas. “O impacto que a Startup Lisboa tem tido na cidade é enorme. O que aconteceu a partir daí foi, por exemplo, a criação de uma rede de incubadoras, projetos privados motivados pelo dinamismo que lá viam. Muitos dos negócios de comércio que agora existem na cidade começaram entre aquelas paredes. Muita gente começou a ser empreendedora na Startup Lisboa”, recorda Graça Fonseca.

Para João Vasconcelos, a questão do impacto mede-se em função do espanto. “Essa é que foi a surpresa: em Portugal, toda a gente falava de crise e de desemprego. E, ao mesmo tempo, no meio deste cinzentismo todo havia uma coisa colorida. Durante pelo menos três anos, o edifício da Startup Lisboa era uma coisa à parte do país, era outro país. Toda a gente ali dentro acreditava no futuro, acreditava que Lisboa e Portugal eram o melhor sítio para montar o negócio, toda a gente queria contratar, exportar. E mal se saía da porta, toda a gente queria emigrar, ir embora. Não digo que tenha sido só da Startup Lisboa que tenha nascido essa contaminação boa para o país, mas ajudou. Sentimos que fizemos parte desse processo. O que mais prazer me deu em termos pessoais foi sentir que éramos uma espécie de farol de esperança para o país: demonstrámos que era possível.”

PUB

Comentários ({{ total }})

Startup Lisboa. A incubadora que acelerou a cidade

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião