Lisboa caiu em janeiro. Será assim o ano inteiro?

Janeiro, um bom conselheiro. Pelo menos, tem sido assim ao longo dos últimos anos na bolsa nacional. Com Lisboa a fechar o mês no vermelho, 2017 reúne os ingredientes para nova penalização.

Como vai janeiro, assim vai o ano inteiro. O adágio popular não é 100% certeiro, mas pode revelar-se bom conselheiro. Com o primeiro mês do ano já passado, vale a pena fazer as contas aos altos e baixos no PSI-20, que começou 2017 com perdas acentuadas devido ao aumento de capital BCP, à deterioração do negócio postal dos CTT e à subida dos juros da dívida. Há razões para temer um novo ano de perdas em Lisboa?

A bolsa nacional fechou janeiro com uma perda mensal de 4,36%, castigado sobretudo por dois títulos: BCP e CTT. E isto num contexto em que os juros associados à dívida portuguesa voltaram a alarmar responsáveis portugueses e europeus, com a taxa a 10 anos acima da fasquia e 4%. “A volatilidade nos mercados sublinha a necessidade de Portugal acelerar as reformas e de fortalecer os bancos”, notou Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo.

Juros já superam os 4,2%

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Fonte: Bloomberg

A forte subida do risco do país ditou uma saída de investidores dos principais títulos nacionais. O aumento do risco-país ficou patente na subida do diferencial de taxas de juro, face a Espanha e Alemanha, no que é um despertar para a realidade da economia portuguesa e incapacidade de resolver os problemas do sistema financeiro”, considera Pedro Lino, CEO da DifBroker. “O aumento de capital do BCP e a revisão em baixa das expectativas de rentabilidade dos CTT penalizaram ainda mais a bolsa”, notou ainda. José Correia, gestor de ativos da XTB Portugal, salienta o “clima económico” que não potencia qualquer otimismo no cenário nacional.

Ambas as cotadas acumulam já uma desvalorização superior a 15% só nos primeiros 31 dias do ano, tendo sido pressionadas por fatores bastante específicos. No caso do banco, o aumento de capital de 1.300 milhões de euros trouxe consigo 14 mil milhões de novas ações e um efeito diluição destrutivo para a cotação dos títulos. O banco espera conseguir melhorar a sua posição financeira, através da devolução dos CoCos ao Estado e do reforço de capitais. Já os Correios anunciaram que o tráfego postal caiu mais do que o esperado no final do ano passado e isso vai penalizar as contas. O “profit warning” de Francisco Lacerda causou apreensão no mercado.

Pharol dispara 25% num mês em que a bolsa caiu 4,36%

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Do lado positivo, Jerónimo Martins, Pharol, Altri e Navigator deram bons motivos para sorrir aos investidores neste arranque de ano. Se as papeleiras continua a beneficiar da perspetiva conferida pelo impacto forte dólar na indústria do papel, a dona da cadeia de supermercados Pingo Doce está a tirar ampla vantagem da sua posição de liderança na Polónia. Tanto que levou os analistas do Haitong afirmar: “Continuamos a gostar da Jerónimo Martins devido à liderança incontestável na Polónia, à oportunidade de crescimento a longo prazo na Colômbia e a uma rara combinação entre crescimento de dois dígitos dos resultados e elevada rendibilidade do dividendo“.

Um adágio que é um presságio

Comparando o comportamento do PSI-20 no primeiro mês do ano com o desempenho anual desde 1993, em apenas sete ocasiões em 24 anos o mês de janeiro foi um mau conselheiro para os investidores. Por exemplo, janeiro de 2015 terminou com uma valorização mensal de 7,2%, enquanto a bolsa somou um ganho anual de 10,7%. Já 2016 fechou com uma perda acumulada de 11,9%. Sabe como foi janeiro desse ano? Lisboa registou uma perda de 4,66%.

Janeiro, um bom conselheiro

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Fonte: Bloomberg (valores em %)

Se a sabedoria popular voltar a imperar, 2017 não trará boas notícias para os investidores nacionais. O que pode travar o mau presságio que trouxe janeiro?

“Tudo irá depender da evolução dos juros”, resume Pedro Lino. “Caso o risco do país se continue a agravar é natural que os investidores optem por ficar fora ou por vender posições que tenham nas empresas portuguesas”, porque “a ausência de investimento e crescimento que permita uma redução sustentada do défice e da divida publica está a penalizar as expectativas dos investidores”.

José Correia destaca o contexto europeu que deverá condicionar fortemente a negociação ao longo do ano, nomeadamente o risco político associado às eleições na Alemanha, França e Itália. “São eleições europeias que antecipam variações significativas nos principais índices e aumento da incerteza relativamente ao rumo que a União Europeia irá tomar”.

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