Do perfume ao nuclear. Inovar a metalomecânica

Encher frascos de perfume, boiões de comida de bebé, válvulas para controlar fluidos nas centrais nucleares... Para cada cliente uma solução. É a regra da T.S.F.

A T.S.F., uma empresa de metalurgia de precisão, produz 90% para exportação, mas só para a Europa. A empresa faz o que o cliente quer, não produz grandes séries e não tem produto próprio. Aos fundos comunitários já os trata por ‘tu’. Pedro Sousa conta o ECO que na próxima semana vão pedir o reembolso e vistoria do último projeto que estão a desenvolver com o apoio do Portugal 2020.

Foram 2,14 milhões de euros de apoio, para um investimento de 3,1 milhões de euros destinado a desenvolver uma nova área de negócio de alto valor acrescentado. Mas o que é que isto significa exatamente? “Desenvolver a construção de uma máquina para a Michelin, para a indústria nuclear e para perfumaria”, explica Pedro Sousa. Perdão? “As máquinas para encher os frascos de perfume são feitas aqui”, precisa. Perfumes franceses, leia-se. “E fazemos as válvulas que controlam os fluidos das centrais nucleares, nomeadamente do Reino Unido e da China”, acrescenta. Neste caso o cliente é a francesa Areva que depois fabrica as centras completas.

Pedro Sousa precisa um pouco melhor o modelo de negócio da empresa: “Somos uma metalúrgica de precisão, fazemos as peças técnicas para as máquinas e equipamentos e, nalguns casos, até montamos as máquinas aqui. Depois a componente informática é acrescentada pelo fabricante”. “A T.S.F. não faz grandes séries, não trabalha para a indústria automóvel, mas antes para um mercado pequeno e exigente de pequenas séries ou peças únicas, o que nos permite estar em clientes de valor acrescentado”. Mas, se por um lado, esta é uma mais-valia para a empresa, por outro exige um investimento sistemático. “E os nossos investimentos são caros”, reconhece o responsável por esta pequena empresa de Vila Nova de Famalicão.

E é aqui que os fundos comunitários desempenham um papel determinante. Já com o QREN, o quadro comunitário anterior ao Portugal 2020, Pedro Sousa conta que o utilizaram por duas vezes: primeiro foi um projeto de 900 mil euros para a Nestlé, em França, para controlar o enchimento de boiões de comida de bebé e garrafas de água, que ainda hoje é usada pela marca. Depois seguiu-se um projeto de maior envergadura de 1,75 milhões de euros para equipamento produtivo.

Apesar da sua pequena dimensão, a empresa está a crescer de vento em popa. Os dois mil metros quadrados iniciais da fábrica já foram, entretanto, alargados para quatro mil. “Mas estamos a pensar fazer mais”, admite o responsável. Esta empresa de Vila Nova de Famalicão registou o ano passado um volume de negócios de 5,7 milhões de euros, sendo que este ano a ambição é chegar aos seis milhões.

Já com o pé na indústria 4.0 lançada com pompa esta semana, Pedro Sousa explica que tudo já é informatizado na empresa para dar a melhor resposta possível aos clientes. “A cada projeto novo o cliente pergunta se somos capazes de o fazer e isso, muitas vezes, implica fazer novos investimentos que tentamos que depois sejam também uma mais-valia para os outros”, acrescenta.

Pedro Sousa admite que a empresa não tem muitos clientes — “são necessários dois a quatro anos para desenvolver a confiança dos clientes, é um processo” — mas não deixa de participar em feiras nomeadamente na Alemanha, Suécia, Holanda, França para tentar encontrar novos, mesmo em mercados onde já está presente. A aposta, não esconde, está sobretudo nos países nórdicos que têm bons prazos de pagamento. Mas “no Reino Unido já há contactos com dois ou três clientes“. E Brexit? “Não é um problema para nós”, garante.

Com um resultado líquido de 180 mil euros em 2015, um valor que deverá ter crescido em 2016, garante, Pedro Sousa conta que a T.S.F. foi crescendo só com clientes portugueses, mas o tempo que perdiam a tentar receber era tempo que não usavam no desenvolvimento do negócio. “Foi assim que fomos para fora. Bendita a hora”, diz. Agora vendem maioritariamente em França, Alemanha, Suécia, Dinamarca, Suíça, Áustria e Itália.

Para o futuro próximo, já estão a a ser pensados novos concursos ao Portugal 2020 até porque Pedro Sousa não tem qualquer razão de queixa. “Ouço muita coisa, mas connosco tem corrido 100%. O maior problema é a aprovação dos projetos que tem um prazo maior, mas é dentro do aceitável, foram quatro meses. Mas já pedi reembolsos por duas vezes e 30 dias depois o dinheiro estava na minha conta”, conclui.

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