Uma nota de research com memes? Estiveram mais longe

Chatos, aborrecidos e cheios de números enfadonhos. Wall Street quer mudar a forma como apresenta as suas notas de investimento para contrariar o crescente desinteresse do mercado no research.

Uma nota de investimento sobre a Nos com gatinhos pelo meio? Uma análise sobre o BCP com um meme do sucess kid? Ainda não, mas já estivemos mais longe. Wall Street está a puxar pela criatividade dos seus analistas para fugir à rotina e ao tom monótono que costuma acompanhar as análises de research sobre os mercados financeiros. O objetivo é contrariar o crescente desinteresse dos investidores pela prolífica produção dos bancos de investimento.

O Bank of America Merrill Lynch é um desses exemplos. Longe vão os resumos diários de mercado e os relatórios que necessitam uma leitura mais prolongada. Ao invés, a diretora de research Candace Browning está a incentivar os seus funcionários a usarem da sua imaginação para chamar a atenção dos leitores. Pretende que a sua equipa faça previsões mais ousadas mas sem colocar em risco a reputação no mercado.

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“O único research que vale a pena tem de ser original e tem de incorporar ideias que antecipem” retornos, referiu Browning à Bloomberg. “Temos de dizer aos nossos clientes algo que eles ainda não saibam”, frisa a responsável.

Mostrar personalidade nas notas de análise também ajuda a colorir o cinzento que costuma preencher este tipo de análise usualmente repleto de números e gráficos. David Woo, do Bank of America, comparou a taxa de câmbio dólar-yuan a um mau casamento. O analista Kit Juckes, do Société Générale, é conhecido por recorrer às letras das canções de Bod Dylan ou a provérbios latinos para escrever os seus insights. No Credit Suisse, já utilizaram as rimas do rapper Notorious B.I.G para comentar a política monetária do Banco de Japão.

A ideia de dar alguma humanidade a relatórios onde abundam termos técnicos como target price, underweight ou fair value é simples: desde 2008 os maiores bancos de investimentos já eliminaram mais de meio milhões de postos de trabalho, deixando as equipas de research sob intensa pressão para mostrar o seu valor através de notas de investimento que tenham capacidade para prever movimentos do mercado e memoráveis.

Além disso, a União Europeia prepara-se para banir as comissões que se pagam pelo research já em 2018. Ou seja, cada vez mais serão as próprias empresas a pagarem para ser avaliadas pelas casas de investimento, criando ainda mais incentivos para os analistas se evidenciarem com análises mais coloridas.

Foi o que fez Kit Juckes quando deu o título de “The Times They Are a-Changin” no seu Forex Weekly, iniciando a sua análise semanal sobre o mercado cambial assim:

“Bob Dylan, Prémio Nobel de Literatura de 2016, afirmou uma vez que “escritores e críticos que profetizam com sua caneta” para manter os olhos bem abertos e para não falar demasiado cedo porque o mundo ainda está em rotação. Esse é provavelmente um bom conselho, mas à medida que o dólar recupera metade da sua queda após janeiro, devemos estar cientes da batalha entre as expectativas da taxa da Fed que estão a conduzir o dólar e a ameaça de que a força do dólar assusta os investidores (outra vez). Enquanto isso, no Reino Unido, quando os prémios de risco começam a aumentar as taxas de rendibilidade das obrigações, estes também deixam de dar suporte à libra esterlina, ou qualquer outro ativo para esse efeito”.

O que retirou do comentário? Pois… Que os tempos estão a mudar, como canta Bob Dylan.

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