Petróleo rumo aos 100 dólares? Depende do xisto

Fazer subir os preços sem fomentar o aumento da produção de petróleo de xisto será o desafio da OPEP. Uma tarefa que pode impedir os preços da matéria-prima de chegar aos 100 dólares por barril.

Lembra-se quando o petróleo tocou os 100 dólares por barril? Já foi há algum tempo, mais propriamente em setembro de 2014. Desde então a cotação da matéria-prima tem vindo a perder valor, uma descida que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) quis travar com um acordo para reduzir a produção de petróleo. Os esforços compensaram e os preços do “ouro negro” já superaram a barreira dos 55 dólares por barril. Mas será que é suficiente para chegarem aos três dígitos? O mercado tem dúvidas. E tudo por causa do petróleo de xisto nos EUA.

O barril está a negociar perto dos 55 dólares — 56,47 dólares em Londres e 54,19 dólares em Nova Iorque –, tendo superado a fasquia dos 50 dólares assim que a OPEP chegou a acordo para reduzir a oferta da matéria-prima. E ao cartel juntaram-se outros países produtores a nível mundial, puxando ainda mais pelos preços. Mas o regresso aos 100 dólares parece ser uma tarefa difícil.

Acordo da OPEP levou o Brent acima dos 55 dólares

Fonte: Bloomberg (Valores em dólares)
Fonte: Bloomberg (Valores em dólares)

“O regresso do petróleo aos 100 dólares será muito difícil nos próximos tempos, diria na próxima década”, diz António Costa Silva. E porquê? “Porque com a revolução do petróleo de xisto nos EUA temos um excesso de produção no mercado e durante muito tempo, desde o primeiro trimestre de 2014, foram cerca de dois milhões de barris por dia. Consecutivamente, este ano vejo pela primeira vez que esse excesso de produção se está a desvanecer, mas ainda temos um excesso de cerca de um milhão de barris por dia e há muitas forças contrárias”, explica o presidente da petrolífera portuguesa Partex.

O petróleo de xisto será uma das forças contrárias que a OPEP terá de enfrentar no próximo ano. O cartel terá de conseguir fazer malabarismo: impulsionar os preços sem fazer aumentar a produção da matéria-prima nos EUA. O primeiro aumento significativo do petróleo de xisto provocou um excesso global da oferta que, por sua vez, deu início à queda dos preços em meados de 2014 — quando o petróleo estava nos 100 dólares.

O excesso ainda se agravou mais em novembro desse ano quando a OPEP decidiu produzir em máximos para obter quota de mercado. Durante esse período, os preços em Nova Iorque caíram para 26,05 dólares, colocando sob pressão os orçamentos das empresas de xisto nos EUA e dos países produtores a nível mundial, incluindo a Arábia Saudita.

petróleo

Agora a OPEP tem um novo plano para 2017: diminuir a produção, aumentar os preços e melhorar a exploração do mais importante recurso natural do mundo. Com o corte da produção, os preços podem ficar, em média, nos 58 dólares por barril, de acordo com a estimativa de 24 analistas consultados pela Bloomberg. No entanto, embora a subida de 29% da média estimada para este ano ajude os países do cartel, também pode levar as empresas dos EUA a aumentar o número de plataformas petrolíferas — os produtores de petróleo de xisto poderão acelerar o ritmo de produção já que tornará as suas explorações mais rentáveis.

“A OPEP procura o tão necessário aumento dos preços do petróleo“, tendo em conta os balanços frágeis de todos os países produtores, diz Ed Morse, responsável pelo research de matérias-primas do Citigroup. Num universo de 13 países, apenas um contabilizou no orçamento para 2016 uma cotação do “ouro negro” abaixo da fasquia dos 50 dólares por barril: a Rússia. Por sua vez, a Líbia considerou, como referência para o equilíbrio das suas contas, os 195,2 dólares para o preço do barril de petróleo. Nem quando a matéria-prima atingiu o pico máximo, em julho de 2008, se assistiu a valores semelhantes.

Mas o HSBC recorda: os membros da OPEP não costumam respeitar os acordos. Por isso, não se deve “esperar demasiado” do que foi definido entre os países produtores. O regresso da OPEP à gestão da oferta deverá limitar a descida dos preços daqui em diante, refere o banco. Mas os preços devem ficar entre os 60 e os 75 dólares por barril. O HSBC prevê que o Brent atinja uma média de 60 dólares por barril em 2017 e de 75 dólares em 2018.

Há apostas para os três dígitos

A média do HSBC fica ainda muito longe dos 100 dólares. Mas, com o petróleo acima dos 55 dólares, já começa a haver apostas nos três dígitos. São apostas com um elevado risco, mas se acontecer vão gerar retornos muito elevados.

O contrato de futuros de 100 dólares para dezembro de 2018, ou seja, um contrato que permite comprar um barril da matéria-prima a esse valor dentro de dois anos, tem sido muito transacionado no mercado. Não quer dizer que esse valor seja efetivamente alcançado, mas é revelador do otimismo dos investidores numa escalada dos preços da matéria-prima.

Não é claramente o consenso do mercado que os preços voltem a esses patamares [acima dos 100 dólares] em breve, pelo que essas apostas traduzem, provavelmente, uma estratégia contra eventos geopolíticos imprevisíveis”, diz Ole Hansen à Bloomberg. Além disso, tendo em conta as cotações atuais “é um bilhete de lotaria relativamente barato“, acrescenta o responsável pela estratégia de matérias-primas do Saxo Bank. O mesmo banco que previu em 2015 que o petróleo poderia regressar aos 100 dólares em 2016.

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