Nos quatro maiores municípios do país esperam-se lutas renhidas a 12 de outubro. O PSD enfrenta "radicalismo" em Lisboa e "fanfarronice" no Porto, defende o coordenador autárquico do partido.
Numa entrevista realizada antes do trágico acidente com o elevador da Glória (e com as declarações reiteradas já nesta terça-feira ao ECO/Local Online), a certeza manifestada por Pedro Alves na vitória de Moedas foi absoluta. Já com Pedro Duarte, no Porto, a vitória não surge tão pronta na resposta do responsável autárquico dos social-democratas, mas há a expectativa de ver para onde caem os 20% que os estudos de opinião dizem haver de indecisos. “O Pedro fez o que é importante em política, correr riscos“, diz o político a quem Luís Montenegro entregou a direção de todo o processo eleitoral do PSD para as autárquicas de 12 de outubro.
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As eleições de 12 de outubro vão agarrar-nos ao sofá a partir do final da tarde. Dezenas de presidentes em limite de mandato, incluindo em Gaia, Sintra e Porto, três dos quatro maiores concelhos. E no quarto, a escolha entre duas coligações abrangentes com um incumbente que ganhou por pouco em 2021. A narrativa da vitória do PSD e do PS passa muito por estes quatro concelhos?
Também é uma perspetiva de encarar o dia e a noite eleitoral… Naturalmente, seria demasiado curto olharmos só para estas quatro e entender que estavam feitas as autárquicas. Se assim fosse, o PSD ganhava de certeza. Em relação a Sintra, sabemos como as perdemos lá atrás, com uma divisão do PSD. Quer dizer que o PSD tem uma boa capacidade de mobilização do eleitorado de Sintra para ganhar eleições. O PS ganhou tendo o PSD duas candidaturas muito próximas, a sua e o Marco Almeida independente. O Marco continuou a fazer o seu trabalho de proximidade, de política, e eu julgo que é a pessoa mais bem preparada. Também uniu o partido. O aparecimento de Fernando Seara também é um estímulo para os eleitores, foi um bom presidente de Câmara que deixou saudades em Sintra.
Quando se escolhe um presidente de Câmara não é pelo mediatismo, escolhe-se em função da competência e a preparação e experiência no exercício de funções. Creio que, aí, o Marco, tendo sido já vice-presidente da Câmara de Sintra, é a pessoa em melhores condições para responder às expectativas dos sintrenses. Lisboa não vale a pena falar, porque tem um presidente de Câmara que fez um trabalho extraordinário na conjuntura possível, com uma oposição pouco construtiva. E que julgo que merecerá por parte dos lisboetas um voto de confiança para poder ter um mandato tranquilo e mais concretizador, onde o projeto político não seja condicionado por uma oposição que não soube ser oposição construtiva.
Lisboa tem um presidente de Câmara que fez um trabalho extraordinário na conjuntura possível, com uma oposição pouco construtiva. E que julgo que merecerá por parte dos lisboetas um voto de confiança.
Carlos Moedas pode ter maioria absoluta?
Penso que pode ter maioria. O eleitor é muito inteligente. Hoje percebe que para ter um presidente de Câmara mais robustecido e empoderado politicamente tem que lhe dar também uma maioria. O que se percebe é que há uma validação muito positiva do trabalho desenvolvido pelo Carlos Moedas. Creio que a maioria está mesmo ao nosso alcance.
Se não atingir a maioria é uma derrota?
Não é uma derrota, é o que os lisboetas quiserem. Creio que há condições para atingirmos essa maioria, fruto daquilo que foram as dificuldades que encontrou no mandato e que este mandato até poderia ter sido muito melhor se houvesse outra estabilidade que permitisse implementar melhor o projeto político do PSD.
Mesmo sabendo-se que Lisboa historicamente se divide entre PS e PSD, que até começou com uma vitória do PCP e foi conquistada a Krus Abecasis por Jorge Sampaio quando juntou PS e PCP, e mais recentemente deu maioria a António Costa, está assim tão confiante?
Estou mesmo muito confiante. Primeiro, pelo resultado do trabalho destes quatro anos. Depois, porque isto é muito dinâmico em política e em termos sociais. A Lisboa do Jorge Sampaio nada tem a ver com a Lisboa de hoje em termos sociais. Nada. Na verdade, o Partido Socialista sempre que faz coligações com a extrema-esquerda parece que é um êxito alcançado, é um efeito extraordinário ligar-se à extrema-esquerda, a partidos não democráticos, e há aqui uma aceitação. Se por acaso se negoceia qualquer coisa com o partido populista parece que o PSD está a cometer um crime extraordinário. Mas isso são contas de outro rosário que não este… a verdade é que está feita uma coligação de esquerda com partidos radicais de esquerda, com pensamentos e propostas preocupantes em termos políticos e sociais. Temos que perceber que esta coligação de esquerda foi a coligação de esquerda que abriu as portas a uma imigração escancarada que trouxe um grande problema para a cidade de Lisboa. Tem que ser responsabilizada também esta coligação, porque enquanto esteve no Governo a “geringonça”, em 2017, abriu as portas para que isto acontecesse em Lisboa, que é hoje o maior problema, que se calhar foi aquele que despoletou todo o processo também de agravamento dos custos com a habitação.

Exceptuando o Chega à direita e o PCP à esquerda, é uma luta de blocos.
Isto vai ser tudo avaliado pelos lisboetas e vão perceber que o que está a acontecer não são projetos políticos alternativos. Há um projeto político claro para a cidade, que foi dificultado pela oposição de esquerda, e depois uma coligação de esquerda que meramente procura o poder para sobreviver, porque o PS está num desespero. Perdeu o poder em todo o lado e deitou mão a tudo, agarra-se a qualquer situação para poder sobreviver. Esta é uma coligação de sobrevivência e não uma coligação de política efetiva. Entendo como um ato de desespero político esta coligação forçada, que os portugueses rejeitaram claramente no país, e em Lisboa também nas últimas eleições legislativas, mas que certamente o Partido Socialista, para não ficar assim tão mal no resultado eleitoral final – e os outros também ainda pior, porque tiveram resultados ainda mais difíceis – se organizaram dessa maneira. No entanto, se olhar para os resultados eleitorais no concelho de Lisboa, mesmo para eleições legislativas, o resultado não é de vitórias da esquerda. Não é isso que tem acontecido com frequência.
Mesmo em 2015, com António Costa como candidato, e a ter saído da Câmara, o António Costa perdeu as eleições no concelho de Lisboa, de onde tinha saído como presidente de Câmara. Os lisboetas sabem o que estão a escolher.
Mesmo em 2015, com António Costa como candidato, e a ter saído da Câmara, o António Costa perdeu as eleições no concelho de Lisboa, de onde tinha saído como presidente de Câmara. Os lisboetas sabem o que estão a escolher.
Já no Porto, onde há uma dispersão de candidaturas fortes no espetro da direita, as sondagens colocam Manuel Pizarro à frente de Pedro Duarte. Ainda vão a tempo de dar a volta?
Nós sabíamos o risco que existia de ter como alternativa o Manuel Pizarro, que já é um candidato experiente, com notoriedade.
Que até esteve num Executivo de Rui Moreira.
Já foi candidato à Câmara do Porto por duas vezes. Tínhamos perfeitamente a consciência disso. Mas também temos noção de que o facto de haver tanta notoriedade, já não há tanta expetativa. Já não há muito para crescer, não acrescenta novidade. Eu achava que o ponto de partida até podia ser melhor para o Manuel Pizarro. Até porque há muita indefinição ainda, mais de 20% dos leitores. Desses 20%, acredito que a maioria conheça o Manuel Pizarro, e não o quis escolher já porque o conhece. A alternativa a seguir só pode ser o Pedro Duarte.
Que estratégia desenharam para o Pedro Duarte?
O Pedro Duarte saberá, é um político muito experiente, absolutamente inteligente, muito competente, está a fazer um trabalho de reconhecido valor, a envolver cada vez mais a sociedade na construção do projeto. Quando entrar na campanha mais intensa, as coisas serão diferentes e muito melhores.
O Pedro fez o que é importante em política, correr riscos. Era mais fácil e confortável continuar como ministro, fazia o seu percurso, tinha um espaço de afirmação político e público tranquilo, uma pasta que lhe dava a visibilidade política que fosse melhor, mas ele escolheu o Porto. Por paixão também, porque tem um orgulho imenso em ser portuense e de servir o Porto através daquela causa. Abandona a sua carreira profissional, primeiro, para poder servir o país na política, onde estava também muito confortável, [depois] abandona a política nacional e correu o risco de se oferecer com as limitações que tinha do ponto de vista do reconhecimento social no Porto, mas com a certeza de que tem todas as condições para poder ser um bom presidente de Câmara. Quem tem que estar preocupado porque partiu à frente é Manuel Pizarro, que certamente já estaria, se calhar com alguma fanfarronice…
A encomendar a faixa de campeão?
A faixa de campeão. Mas vai ter, no dia 12, que felicitar o Pedro Duarte pela vitória nas eleições.

Temos visto Rui Moreira por perto do PSD, desde logo no dia em que esteve ao lado de Montenegro quando o Governo fez o Conselho de Ministros no Bolhão e Pedro Duarte se assumiu ali candidato a presidente do Porto. Quando é que Moreira se afirma apoiante?
É uma pergunta que tem de fazer ao Rui Moreira, que é um cidadão livre. Se ele emprestar a sua notoriedade à candidatura do Pedro Duarte é bem-vindo e, naturalmente, será um apoio muito bom para o Pedro Duarte. Foi presidente de Câmara 12 anos como independente. Quer dizer que os portuenses lhe reconhecem mais valor para além daquilo que os partidos representam por si só. Estamos a falar dos dois maiores partidos da democracia, que conseguiu derrotar de forma clara. Significa que é uma voz ouvida com autoridade no Porto. Se isso vier a acontecer, será certamente uma mais-valia para o Pedro Duarte e uma vantagem eleitoral também que pode retirar. Daí não tenho dúvidas. Gostaríamos muito, e certamente o Pedro, que o fizesse, mas depende só da vontade do Rui Moreira.
Estive em Gondomar na apresentação do candidato Emídio Guerreiro, e a personalidade que o Emídio Guerreiro convidou para fazer a apresentação pública da sua candidatura foi o Rui Moreira. E ele foi lá emprestar a sua credibilidade numa intervenção extraordinária, explicar as razões para apoiar um candidato como o Emídio e foi muito claro na forma como ele interpreta a política. Se colocar os mesmos critérios de avaliação no apoio que deu ao Emídio Guerreiro, não tenho dúvida de quem é que ele possa apoiar no Porto também.
O facto de o vice dele ir a votos num movimento independente não fraciona a direita a favor de Manuel Pizarro?
Não se transfere o trabalho do Rui Moreira para ninguém. É próprio. O movimento era de Rui Moreira. Constituiu uma equipa, que foi todo este movimento, mas era na liderança de Rui Moreira que estava consolidado todo este projeto político. Tem vontade própria e tem condições de o fazer como independente. Se poderia ser mais fácil? Era melhor que estivéssemos todos juntos, seria sempre a somar, mas não creio que seja essa a razão suficiente para não haver um resultado eleitoral. Falou há pouco do aparecimento do Chega no espetro político nacional. Altera muito mais as contas do que os movimentos independentes.
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Moedas “pode ter maioria” e Pizarro “vai ter de felicitar Pedro Duarte pela vitória”
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