“Esta onda da IA está a ser muito mais rápida. Ninguém sabe bem onde isto vai acabar”

Do modelo de agência às pessoas, dos processos ao valor, do que é produzido à forma como é cobrado, a IA coloca "tudo em causa". Erik Lassche, CEO da Fullsix Portugal, em discurso direto.

O aparecimento das redes sociais, o lançamento do iPhone ou o ponto de inflexão em que o digital passou a já ser core em praticamente todos os produtos e serviços são grandes marcos de transformação das últimas duas décadas. No entanto, uma mudança como a que está a ser provocada pela inteligência artificial assume outras proporções. “Esta onda da IA está a ser muito mais rápida e, de repente, não é uma mudança linear mas pode ser exponencial, ninguém sabe bem onde isto vai acabar“, aponta Erik Lassche, CEO da Fullsix Portugal.

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Líder de agências de marketing digital há perto de 20 anos, apesar de ainda se ver como cliente, o CEO da agência do grupo Havas acredita que este “está a ser claramente o momento de maiores incertezas, porque põe em causa tudo”. Ou seja, “o que nós fazemos, qual é o modelo da agência, se deve haver agências ou não, como é que produzimos, onde está o nosso valor… De repente, tudo está em causa“, descreve em entrevista ao +M.

Hoje fazemos mais com menos. Ou seja, o aumento da eficiência é bastante grande. Em alguns casos até é assustadoramente grande“, comenta o fundador da Grand Union, na opinião de quem as agências do futuro vão ter menos pessoas. “Quem diga que não, ou não está a dizer a verdade, ou está errado“, assegura.

Digo sempre que a nossa missão não mudou. O que produzimos, tem mudado sempre. A cada cinco anos, o que fazemos é diferente“, recorda Erik Lassche, antecipando também a forma como uma “agência de serviços de marketing” pode vir a aportar valor. Em simultâneo, o modelo de pagamento está está posto em causa. “Historicamente, qualquer profissional de marketing é cobrado à hora. Se o que é que era feito numa semana agora é feito em 10 minutos, este modelo não tem muitas pernas para andar”, resume. Com uma equipa de cerca de 150 pessoas e uma faturação na casa dos 10 milhões de euros, Erik Lassche diz ver as alterações provocadas pela inteligência artificial “muito como uma oportunidade”. No entanto, alerta, “a agência do futuro, e o futuro já chegou, é diferente”.

Lançaram no ano passado um departamento de inteligência artificial (IA), o Fullsix AI Lab. A ideia era fazer auditoria, formação e ajudar as marcas a lançar conceitos criativos baseados em IA. Dizias que o objetivo não era só ter especialistas em IA, era que fosse utilizada por toda a organização, para que todos trabalhassem melhor. Antecipava também a mudança de métodos e processos em toda a cadeia do marketing e da comunicação. Passado quase um ano e meio, o mudou no essencial?

Mudou tudo e não mudou nada, como se diz. Mas, mudou muita coisa. Uma coisa é o mercado, o mundo, outra coisa é a Fullsix e o grupo Havas, do qual fazemos parte. Se olhar para os nossos processos e formas de trabalhar internos, mudaram bastante. Hoje fazemos mais com menos. Ou seja, o aumento da eficiência é bastante grande. Em alguns casos até é assustadoramente grande.

Este ano estamos a crescer bastante o nosso volume de negócio e o número de pessoas é estável ou até está a diminuir um pouquinho.

Qual é o vosso volume de negócio?

A faturação ronda à volta de 10 milhões de euros. Este ano estamos a crescer 8 ou 9%. Vemos em áreas como development, onde AI coding já começa a ser importante, pelo menos já parte integral de qualquer developer — não estou a dizer que escrevemos código automaticamente sem intervenção, mas já cada equipe de development já tem apoio em AI standard. Tudo o que são projetos mais de criação, conteúdos visuais, são muito IA driven, como é que podemos escalar produção. E também em tudo o que é estratégia, como é que a AI nos pode ajudar a acelerar.

Há aqui duas formas de olhar para isto. Uma é como é que com a IA podemos otimizar trabalho. Fazer mais ou a mesma coisa com menos. E é sempre uma conversa um pouco assustadora. O nosso emprego vai ser trocado por uma máquina, ou 10 empregos por uma máquina, ou 100 empregos por uma máquina.

É sempre uma conversa um pouco assustadora. O nosso emprego vai ser trocado por uma máquina, ou 10 empregos por uma máquina, ou 100 empregos por uma máquina.

Fizeste há pouco tempo uma apresentação onde o título era precisamente esse, “a IA vai matar as agências de marketing”.

Exatamente, foi um convite da DPSA. É uma reflexão muito estratégica para a nossa própria indústria. Aqui falo como CEO de uma empresa, não como alguém que trabalha com os seus clientes, mas como alguém que gere o seu negócio. O impacto da IA na nossa indústria tem que ser repensado. Na Fullsix a inovação, a mudança, faz parte do nosso DNA desde sempre. Digo sempre que a nossa missão, o que fazemos, não mudou. O que é que produzimos tem mudado sempre. A cada cinco anos o que é que fazemos é diferente.

Quando o Fullsix nasceu, não fazia as mesmas coisas e hoje. E se calhar uma agência tradicional de publicidade, há 25 anos, fazia publicidade. Se calhar hoje é pouco menos filmes e mais digital, mas ainda continua a ser muito filme, script, etc. Se não é um script para TV, é para YouTube. Portanto, não mudou tão profundamente. Hoje em dia, o que nós fazemos não tem nada a ver com o que foi feito há 10 ou 20 anos.

Este mede de renovação, não temos tanto, vemos isto muito com uma grande oportunidade. Mas a agência do futuro, e o futuro já chegou, é diferente da do passado. Chamo agências de serviço de marketing, acho que é o mais correto.

As agências do futuro vão ter menos pessoas, é inevitável. Para o mesmo volume de trabalho, precisamos de menos pessoas. E quem diga que não, ou não está a dizer a verdade, ou está errado.

Serviço de marketing?

Serviço de marketing e não tanto publicidade. Eu acho que as agências do futuro vão ter menos pessoas, é inevitável. Para o mesmo volume de trabalho, precisamos de menos pessoas. Podemos ter mais pessoas, então vamos ganhar quota. Mas para o mesmo volume de trabalho, vamos precisar de menos pessoas. E quem diga que não, ou não está a dizer a verdade, ou está errado.

A pirâmide de uma empresa de marketing é normalmente bastante larga. Esta pirâmide está a ser transformada.

Como é hoje e como vai ser?

Normalmente, qualquer consultora, qualquer agência de marketing e publicidade, é uma pirâmide com um core sénior e muitas pessoas juniores a entrar, a fazer carreira, a fazer muitas horas, a ser mal pagas. É este um pouco o modelo de muitas empresas deste setor. E estes roles que estão lá em baixo são os mais fáceis de automatizar. É isto que está a acontecer. É muito mais difícil de tirar o papel de uma pessoa muito sénior, porque o pensamento, o orquestrar, orientar, continua a ser muito preciso. Agora, muito do que são tarefas mais juniores, consegue-se automatizar. Significa menos pessoas, pessoas que são mais seniores. Vai mudar a dinâmica de quem trabalha numa agência. E como é que criamos os líderes do futuro? Muitas pessoas que trabalham em serviço de marketing entram jovens e vão crescendo lá dentro. Vai ser mais difícil, a pessoa entra exatamente onde e com que papel? Porque muitos destes papéis, o muito júnior, o estagiário,…

Deixam de ser necessários.

Não vão ser necessários. É interessante, não há resposta final sobre isto. Outro ponto extremamente importante é o nosso pricing model, como vendemos os nossos serviços. Historicamente, qualquer profissional de marketing é cobrado à hora. Se o que é que era feito numa semana agora é feito em 10 minutos, este modelo não tem muitas pernas para andar.

Basicamente estamos a desvalorizar o nosso próprio trabalho, não faz sentido. O nosso pricing model ao cliente tem que ser mais sobre o valor que acrescentámos e menos o número de horas que trabalhamos. Isto é tudo muito bonito, mas levá-lo à prática é muito difícil.

Se o que é que era feito numa semana agora é feito em 10 minutos, este modelo não tem muitas pernas para andar. Basicamente estamos a desvalorizar o nosso próprio trabalho, não faz sentido.

E como se faz? Já? Ou seja, neste momento, se calhar, já demoram 10 minutos. Continuam a faturar a semana? Tentam explicar ao cliente?

Há aqui um gap, que não é sustentável, entre quem adota rapidamente novas ferramentas, como a Fullsix, e o mercado, que está um pouquinho atrasado. Há aqui há uma janela de oportunidade — de meses, um ano, não sei, não deve ser muito, depende da maturidade, do cliente, do mercado –, onde uma agência se consegue adaptar mais rápido e vender a mesma coisa, mas fazer com menos.

Isto vai desaparecer, porque o mercado vai apanhar-nos, é normal. Não é um gap defensável, não é por aí. Eu não posso ser ‘chico esperto’ e vender por 100 o que custava 90, e agora vender por 100 e custa nove, e fico com uma margem brutal. Isto não é sustentável e também não está a acontecer. Tem que estar à tua vista dos clientes, porque senão um dia não é sustentável.

O que vendemos tem que ser mais baseado ao valor. E isto tem algumas nuances. Uma, é fazer uma pergunta muito importante: qual é a proposta de valor de uma organização? Se a proposta de valor é executar, é difícil, porque a execução vai ser cada vez mais uma commodity Portanto, o valor tem de ser em algo um pouco superior.

Mas, com valores ou entregas diferentes, não é o que as agências tentam fazer há uma série de anos? Têm conseguido que a ideia e a estratégia sejam valorizadas?

Acho que ainda não é o suficiente. É uma luta grande, eu próprio faço parte da direção da APAP (Associação Portuguesa das Agências de Publicidade, Comunicação e Marketing), falamos muito sobre isto, a valorização da indústria, o que recebemos, o que é pago às agências, o que conseguimos investir em talento.

Ao longo dos anos, a queixa é que agências não são pagas pelas ideias…

A indústria também... quando isto funcionava a favor das agências, não se queixavam, mixed feelings. No fim do dia, na minha opinião pessoal e da Fullsix, nós temos de acrescentar valor ao negócio. Temos de ser business partners. O negócio do nosso cliente tem de crescer e o nosso trabalho tem de ser um reflexo disso.

E serem remunerados também por isso?

Idealmente sim, nem sempre possível. Fala-se muito do fim dos grandes grupos, WPP em queda de bolsa, etc. Agora, o que está também por trás disto? É que muitos clientes históricos, como Procter & Gamble e as Unilever da vida, também têm tido crescimento muito tépido, quase zero, nas suas marcas.

Se a marca e o negócio não crescem, as agências também não podem crescer. Portanto, o meu KPI (key performance indicator) maior do CSE (customer service excellence), é se o negócio dos meus clientes cresceu ou não. E aí, fazendo o loop com a CX (customer experience), é interessante porque também há outros estudos que dizem clientes que investem mais em customer experience, são experience driven, valem mais na bolsa e têm crescido mais.

Ok, portanto, uma boa experiência vale dinheiro. Se eu foco em experiência de cliente, e se isso vale dinheiro, eu estou a acrescentar valor e devia ser remunerado por isto.

Não estou a dizer que é fácil, muitos dos nossos orçamentos são baseados no esforço e no tempo, e isto não vai acabar tão cedo. Mas temos cada vez mais de caminhar numa ideia de qual é o valor que acrescentamos e qual é a remuneração justa para este valor.

No nosso caso não é qual o valor da ideia, não somos uma agência clássica de publicidade. Eu gostava mais que fosse o valor a nível da experiência do cliente, e do negócio adicional que isto traz aos clientes, e como é que podemos ser remunerados para isto.

Há dados que dizem que 20 a 30% das funções não vão existir da mesma forma, até 2023. Depois há uma percentagem de novas funções, que ainda não sabemos quais são, e depois há um palco gigante no meio, que são as funções atuais, mas que requerem uma atualização. Digo aqui estes números como se nada fosse, mas é um desafio brutal. Eu acho que nós ainda não pensámos muito bem.

 

Entre o que gostavas, o que acontece e o que vai acontecer a curto e médio prazo, qual é o gap?

Ainda é bastante grande, acho que todo o ecossistema, de clientes a agências, não está muito preparado para isso. É muitos anos de fazer isto de uma forma e a ligação também nem sempre é tão óbvia e tão direta.

Mas uma coisa que vemos, é que se não fizermos isso, se continuarmos a investir num escopo de deliverables, outputs e horas, com a IA à mistura, vamos ter um esmagamento brutal e vamos cada vez mais ser geridos por departamentos de compra, a olhar pelo preço.

Como vês a agência no futuro? Que funções vão aparecer e desaparecer?

Há dados que dizem que 20 a 30% das funções não vão existir da mesma forma, até 2023. Depois há uma percentagem de novas funções, que ainda não sabemos quais são, e depois há um palco gigante no meio, que são as funções atuais, mas que requerem uma atualização. Digo aqui estes números como se nada fosse, mas é um desafio brutal. Eu acho que nós ainda não pensámos muito bem.

Uma coisa é ter 20% ou 30% das pessoas, com funções que já não vão existir e o que isso significa. Outra é, aqueles 50% ou 60% no meio, a todos deles vou ter que fazer um upskill.

Se se perguntar a qualquer empresa, também à nossa, qual é o plano de upscaling previsto… Só o custo que isto terá, é gigantesco. Nunca vimos isto antes, falamos, mas acho que ainda não estamos mesmo preparados.

Há mais empresas a falar do que efetivamente a fazer?

Todos, tem que ser… Qualquer empresa tem que ter uma opinião sobre a IA. Todos estão a falar e por isso é difícil ver [a diferença] entre falar e fazer. Eu já não faço apresentações sobre IA, sobre como o futuro vai ser, acho que toda a gente está muito cansada disto. Nós só focámos no que conseguimos implementar entre hoje e os próximos 6, 12 meses. O que é que conseguimos ter coisas a sair, produtos, proof of concepts, a sair que funcionam hoje. É um pouco a metodologia, o pensamento, de uma startup. Começar a fazer, não apenas pensar como vai ser a cinco anos. Temos que começar, também nas organizações, a ter experiências práticas, ver coisas acontecer, ver pequenas áreas onde, através de novos processos e pensamentos, conseguimos trabalhar de uma forma diferente.

O nosso papel, é a grande diferença entre um consultor mais clássico que faz um PowerPoint bonito, é que também implementamos. Tudo o que idealizamos, quando entra na realidade, é diferente. O que está num PowerPoint, na prática, não é bem assim.

Estamos com vários clientes, clientes grandes, a implementar modelos de IA, a automatizar design, como é que eu posso produzir assets com ferramentas automatizadas, declinar, criar a raiz. No papel é tudo fácil. Implementar, fazer e ver as limitações que existem, como é que se pode escalar isto… há aqui muito trabalho do campo que tem que ser feito. Acho que é aí que nos destacamos, porque conseguimos pensar e ter acesso ao que vai acontecer, ter provas dadas no terreno, trabalhar lado a lado com o cliente e testar novas soluções.

Lidera agências de marketing digital há cerca de 20 anos, fundou a The Grand Union já em 2006. Esta é a maior transformação a que assistimos nestes 20 anos?

Sim. Só dizer que antes trabalhei sempre do lado do cliente e ainda acho que sou mais cliente do que agência, mas já passaram 20 anos. Já passámos por muitas alterações. O aparecer da social media foi muito impactante — porque de repente o que é que era uma coisa niche geeky, toda a gente tinha Facebook, toda a gente era um expert, democratizou muito o processo –, tal como o iPhone. Foi um boom gigante.

Outro boom gigante foi o tipping point quando o digital começa a ter penetração e já é core para qualquer empresa de produto e serviço. Agora, esta onda da IA está a ser muito mais rápida e, de repente, não é uma mudança linear mas pode ser exponencial, ninguém sabe bem onde isto vai acabar. Está a ser claramente o momento de maiores incertezas, porque põe em causa tudo. O que nós fazemos, qual é o modelo da agência, se deve haver agências ou não, como é que produzimos, onde está o nosso valor… De repente, tudo está em causa.

Isto não tinha visto antes. Antes, havia uma ou outra mudança. Esta mudança toca em tudo. É uma volatilidade gigantesca, confesso que gosto, sou entusiasta disto tudo. Mas, de vez em quando, à noite, fico um pouco a pensar onde é que isto vai acabar. Temos aquela mentalidade de startup, mas já não somos uma startup, a nível de número de pessoas, somos 150.

Assista à entrevista completa:

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