“A Lusa esteve muito parada no tempo”
O acordo de empresa, os novos estatutos, o memorando com a RTP ou o novo contrato de serviço público são alguns dos temas abordados em entrevista a Joaquim Carreira, presidente do CA da Lusa.
Joaquim Carreira admite avançar com um programa de rescisões voluntárias este ano, mas garante que a prioridade é concluir a revisão do acordo de empresa e reforçar a Lusa com novos perfis profissionais. Em entrevista ao +M, o presidente do conselho de administração da agência diz que a empresa “esteve muito parada no tempo” e defende uma estratégia assente na modernização tecnológica, na contratação de novas competências, em novos serviços e na diversificação das receitas.
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Quatro meses após assumido o novo mandato, Joaquim Carreira diz que a nova administração quer “capacitar a Lusa para os desafios do futuro” através de uma estratégia assente em quatro pilares: pessoas, sistema mediático, inovação e processos. O objetivo passa por reforçar a agência nacional e internacionalmente, contratar diferentes perfis, desenvolver produtos e procurar novas fontes de receita comerciais, que hoje se aproximam dos quatro milhões de euros.
No plano laboral, a administração mantém como prioridade a revisão do acordo de empresa, cuja denúncia motivou contestação dos trabalhadores. O presidente da Lusa justifica a decisão com a necessidade de uma revisão estrutural de um documento que “vem de 2009” e começou a ser negociado em 2006. “Estamos a falar de 20 anos de acordo. Precisava de uma revisão essencialmente por causa das pessoas”, afirma. Quanto ao plano de rescisões voluntárias, admite que poderá avançar “no segundo semestre“, embora sublinhe que, para já, “a concentração, o foco, é no acordo de empresa“.
Entre as prioridades da administração está também a revisão do contrato de prestação de serviço público, que considera desajustado dos desafios atuais. “Falamos pouco de literacia mediática, falamos pouco de multimédia, falamos pouco de inteligência artificial — ou nada de inteligência artificial —, falamos pouco da transformação digital“, afirma, defendendo ainda alterações ao modelo de financiamento da agência, que, “no meu ponto de vista, não deveria continuar” nos moldes atuais.
A inteligência artificial é outra das áreas em que a Lusa quer acelerar, embora sempre com supervisão humana. A agência já utiliza estas ferramentas em tarefas como transcrição, pesquisa e automatização de processos, mas Joaquim Carreira rejeita a publicação de notícias geradas por IA sem intervenção editorial.
“A Lusa tem um ponto muito importante para o futuro, que é a credibilidade e a confiança“, diz, defendendo que, perante o aumento da desinformação, os cidadãos tenderão a valorizar cada vez mais as marcas jornalísticas credíveis. “No futuro, todos nós vamos ficar saturados de notícias não credíveis e vamo-nos refugiar na credibilidade”, defende.
Qual é hoje o maior desafio da Lusa?
A Lusa tem vários desafios. Tem um desafio de concretização da sua estratégia. A Lusa tem um novo Conselho de Administração e, como tal, temos um novo capítulo. E esse capítulo traz uma nova estratégia que passa, diria eu, por quatro pilares: ao nível de pessoas, ao nível do sistema mediático que temos, ao nível de inovação e ao nível também dos processos que temos para implementar.
Ou seja, o que queremos ao nível estratégico é reforçar o papel da Lusa, não só nacionalmente, como internacionalmente, através da contratação de novos recursos, de novas pessoas, de novas competências, por um lado. Também entrar em novos mercados, com novos produtos, do ponto de vista tecnológico, assente em questões tecnológicas que atualmente não temos e para as quais passámos a ter essa capacitação com o aumento de capital que ocorreu recentemente.
E, acima de tudo, o que é muito importante, as pessoas. Pessoas ao nível de competências, ao nível de capacitação. Temos um défice com as novas tecnologias e com os novos mercados que se abrem — não estou só a falar de inteligência artificial, estou a falar de multimédia, estou a falar de outras funções que têm que ter um grande apoio tecnológico. E assente também uma coisa muito importante, que é a racionalidade financeira da empresa.
O que nós queremos é capacitar a Lusa para os desafios do futuro. Desafios que estão presentes em todos os órgãos de comunicação social, e a Lusa teve um período em que esteve muito parada no tempo.
Denunciaram no final de maio o acordo da empresa. Era mesmo necessário fazer esta denúncia? Ou seja, porque é que utilizaram este mecanismo em vez de negociar um novo acordo?
O acordo de empresa era muito datado. Vem de 2009, começou a ser negociado em 2006. Estamos a falar de 20 anos de acordo. Precisava de uma revisão essencialmente por causa das pessoas. O que nós queremos é capacitar a Lusa para os desafios do futuro. Desafios que estão presentes em todos os órgãos de comunicação social. A Lusa houve um período em que esteve muito parada no tempo.
Ou seja, essa é a grande questão, é uma revisão mais estrutural do que conjuntural, do que pontual. E, como tal, isso é a principal questão que obriga a uma revisão mais profunda do acordo de empresa, mas sempre baseado no futuro da Lusa.
Mas porquê terem começado com a denúncia do anterior?
A denúncia é um mecanismo que existe, tal como a arbitragem que os trabalhadores utilizaram. É um mecanismo que existe na lei.
E em relação à arbitragem – visto que os trabalhadores recorreram ao Conselho Económico e Social –, como está o processo?
O processo está a seguir a sua tramitação normal. Até agora não temos nenhum desenvolvimento, além da escolha dos árbitros, digamos assim.
Quando espera ver o tema concluído?
Não tenho ideia. É um processo que não está nas nossas mãos, é um processo que passa pelo CES. Provavelmente passará por nós e pelos trabalhadores, mas até agora não temos nenhuma indicação das próximas etapas.
O novo acordo introduz o conceito de jornalista especialista, que tem levantado algumas dúvidas internamente. Este jornalista especialista é o que é?
No fundo é um jornalista com capacidades mais alargadas, que mais uma vez tem a ver com aquilo que o mercado necessita ao nível de especialização, ao nível de áreas que atualmente não existem. Ou seja, como não existe ao nível da multimédia, e que nós não temos — e também queremos discutir esse assunto ao nível da multimédia —, como jornalistas especializados, que na realidade é uma área que faz falta em termos de futuro para a Lusa.
Já referiu o aumento de capital. Trata-se de um aumento de cinco milhões de euros, dois para recursos humanos e três para modernização tecnológica. Estes dois milhões para os recursos humanos vão incluir o montante para um processo de rescisões?
O processo de rescisões, que já tinha sido falado o ano passado ao nível de rescisões voluntárias, irá ser discutido, mas atualmente não está em cima da mesa. Estamos concentrados na questão do acordo de empresa, mas foi falado e, logicamente, poderá acontecer, se calhar, no segundo semestre.
No segundo semestre?
No final do segundo semestre.

Setembro, talvez?
Sim, mas é prematuro, para já, dizer. No fundo estamos a falar nessa nossa perspetiva, mas a concentração, o foco, é no acordo de empresa.
Vamos tentar antecipar um bocadinho. Será um processo de rescisões voluntárias?
É um processo de rescisões voluntárias, mas não está definido ainda, por isso é prematuro falarmos nisso. Esse processo começou a ser falado no ano passado, é um processo essencialmente, para capacitação e renovação geracional.
O mais importante, é que a Lusa, atualmente, está a reforçar. Está a reforçar a rede nacional, internacional, e vai continuar a reforçar.
A ideia será mudar o perfil de algumas funções?
Há perfis de que, na realidade, precisamos mais. Mais uma vez, multimédia é um deles. Polivalência ao nível de competências de gestão também é outro perfil de que precisamos mais. São áreas que, às vezes, são muito intangíveis, normalmente não vemos e nas quais precisamos ter mais competências.
Mas também na parte técnica, a parte de redes sociais, a parte multimédia. Tudo isso, cada vez mais, exige esta polivalência, porque há muita tecnologia a acontecer ao mesmo tempo. Mesmo se for só na parte multimédia, há várias tecnologias ao nível de inteligência artificial que estão a surgir.
Mas, o mais importante, é que a Lusa, atualmente, está a reforçar. Está a reforçar a rede nacional, internacional, e vai continuar a reforçar. E não está em causa aqui o possível plano de saídas e como é que vai ser estruturado.
Em relação a este reforço, de quantas pessoas precisam? Há esse cálculo feito?
Não, não existe. Existe uma análise global. Estamos a fazer o processo de orçamentação para o próximo ano. Temos uma ideia, mas não tenho o número. A direção de informação e as várias direções foram ouvidas relativamente a tudo isso. Mas estamos mesmo neste processo atual para fazer o plano para os próximos três anos.
O plano de atividades para este ano já está aprovado?
O plano de atividades não está aprovado por causa dessas mudanças. Não esquecer um dado importante, a Lusa veio de uma evolução por causa do Plano de Ação para a Comunicação Social.
O Plano de Ação para a Comunicação Social tinha quatro medidas: uma relacionada com a aquisição das participações financeiras, a segunda, com o modelo de governação, a terceira, com o tal plano de modernização em meios humanos (mais uma vez, reforço, meios humanos e tecnológicos, mas sempre com os meios humanos muito presentes) e a última, a quarta, tinha a ver com o novo contrato de prestação de serviço público e os benefícios aos órgãos de comunicação social.
O primeiro foi concluído, o terceiro…
O primeiro foi concluído, mas eu queria relembrar que se passou por fases importante, porque havia o famoso fundo estrangeiro, penso que a memória já se esqueceu.
Uma empresa de capital maioritariamente público tinha um fundo estranho e que causava bastantes perturbações.
O fundo que controlava a Global Media.
A Lusa tinha um fundo estrangeiro e nem sabia quem é que mandava naquele fundo, quem era o tal beneficiário efetivo último, quem é que estava e quem era o que poderia liderar, do ponto de vista acionista — estamos a falar de 45% —, a parte privada da Lusa, sem sabermos com quem falávamos. Ou seja, uma empresa de capital maioritariamente público, que tinha um fundo estranho e que causava bastantes perturbações.
Outro aspeto que gostava de recordar é que, mesmo no contrato de prestação de serviço público, havia uma cláusula que era uma golden share para os privados e não para o Estado. Ou seja, um pequeno privado podia impactar qualquer política pública que se pudesse implementar.

E aconteceu?
Nunca aconteceu, mas, por exemplo, o contrato de prestação de serviço público, quando ia a discussão no Conselho de Administração, um acionista privado podia bloqueá-lo se não fosse do seu interesse. E, logicamente, um serviço público não é, muitas vezes, convergente com os objetivos de uma empresa mais comercial.
E isso também é uma memória que eu gostava de reavivar e que, na realidade, é um ponto importante daquilo que aconteceu nos últimos anos, em 2024 e 2025, com os governos da AD.
Falamos pouco de literacia mediática, falamos pouco de multimédia, falamos pouco de inteligência artificial — ou nada de inteligência artificial —, falamos pouco da transformação digital, falamos pouco ao nível de competências das plataformas geográficas onde nós estamos, e isso é necessário rever e incluir.
Nos outros pontos, apontou o contrato de prestação de serviço público, que começa agora a ser negociado.
Está, faz parte do mesmo pacote. Isto é um puzzle de várias medidas. Está a começar a ser discutido, mas está também numa fase muito preliminar.
Mesmo estando numa fase muito preliminar, o que é mais crítico que o novo contrato inclua?
Este contrato vai reger a estratégia da Lusa. No fundo, dizer que objetivos estratégicos a Lusa tem. Este contrato atual, 2022-2027, apesar de ser de seis anos, dar uma boa previsibilidade e uma boa estabilidade, tem objetivos muito ancorados no passado. Da mesma forma que eu disse relativamente ao acordo de empresa, este também tem objetivos de, se calhar, há 20 anos.
Ou seja, falamos pouco de literacia mediática, falamos pouco de multimédia, falamos pouco de inteligência artificial — ou nada de inteligência artificial —, falamos pouco da transformação digital, falamos pouco ao nível de competências das plataformas geográficas onde nós estamos, e isso é necessário rever e incluir.
Como é necessário rever e incluir também a questão dos famosos benefícios aos órgãos de comunicação social, que é mais um ponto. E como é necessário rever o famoso — é mais técnico — modelo de financiamento. Se vai continuar da mesma forma ou não, no meu ponto de vista não deveria continuar.
É necessário rever o famoso — é mais técnico — modelo de financiamento. Se vai continuar da mesma forma ou não, no meu ponto de vista não deveria continuar.
Como devia ser o modelo de financiamento?
O modelo devia ser de indemnização, mas o modelo atual ainda está com os resquícios dos acionistas privados. Havia ali, de certa maneira, cláusulas de travão, de modo a que a empresa não pudesse ter a possibilidade de distribuir dividendos através da comparação entre o custo de serviço público e a indemnização. Havia ali regras de travão nesse sentido. Isso já não faz sentido com a nova estrutura legal.

Em termos de indemnização, qual seria a forma mais eficaz do seu ponto de vista?
A indemnização passará sempre primeiro por definir quais são os objetivos, e depois que recursos são necessários para atingir esses objetivos e fazer um cálculo de indemnização. Os objetivos têm que ser discutidos com a nova administração da Lusa – estamos há quatro meses em funções – e pensando nos quatro pilares, ao nível das estratégias.
E em relação aos benefícios para os órgãos de comunicação social, que estavam previstos no Plano de Ação para a Comunicação Social. Como antecipa o futuro nesse campo?
É claro que teremos benefícios. Mas este é um processo que vai demorar, que temos que contabilizar, temos que verificar quais são os órgãos de comunicação social.
Atualmente há uma fronteira, às vezes muito ténue, entre o que é um órgão de comunicação social e o que é apenas um agregador de conteúdos. Ou o que é um jornal, efetivamente, ou um jornal puramente comercial de promoção de um supermercado, por exemplo. Tudo isso está na mesma plataforma, que é a da ERC.
Temos que começar por aí, vamos definir muito bem quais são os órgãos de comunicação social e que serviços vamos dar. Temos algumas ideias, foram feitas algumas estimativas no passado, mas todo esse processo está em revisão ainda, para termos o tal contrato de prestação de serviços novo que está no Plano de Ação para a Comunicação Social – que tínhamos estimado em dois milhões de euros. Isso obriga também logo a aumentar a indemnização compensatória.
Além de outros benefícios que possam vir aí de uma indemnização compensatória, ou para a tecnologia, ou para as condições de trabalho.
A expansão da agência, o alargamento de serviços para empresas, os receitas provenientes dos media, o impacto da IA, o memorando de entendimento com a RTP ou os novos estatutos da Lusa são outros dos temas abordados. Pode assistir na integra, aqui:
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