A vitória da CMTV

O problema é que os canais ditos de referência estão manietados pelos resultados e não têm antídoto para combater a CMTV.

Há uns dias entrei num café que tem duas televisões. Numa, um homicídio no país real, noutra uma operação do Ministério Público. Curiosamente, nenhuma delas a CMTV, porém, era a sua filosofia que vingava. Mas se espreitássemos os canais ditos de notícias, no cabo, em qualquer outro dia veríamos o frenesim na busca do acidente que acontece, a excitação perante a tragédia que comove quem vê.

A CMTV já habituou os espectadores a uma coisa: chega sempre primeiro. Essa é uma vitória de grande mérito. Mas onde arrasa por completo é quando os seus directores vêem os canais concorrentes a submeterem-se ao conceito CMTV para combater nos resultados de audiências, e, aí, perdem sempre porque a cópia nunca é melhor do que o original e ninguém sabe fazer esse conceito de notícia melhor do que o Correio da Manhã e a CMTV.

No dia 27 de Outubro de 2016, aqui no ECO, escrevi um artigo que tinha por título, «A Ascensão da CMTV e a queda dos outros». Ali, escrevi o seguinte: «No panorama actual dos nossos canais televisivos ditos de informação, o único que tem crescido sustentadamente é a CMTV. Podemos gostar ou não, mas é a mais pura das verdades. É de condenar? Claro que não. Porque são as pessoas soberanas nas suas escolhas e sintonizam o que lhes apetecer.

A estratégia do Octávio Ribeiro e do Carlos Rodrigues que se baseou no êxito do Correio da Manhã, jornal que vende mais do que toda a concorrência junta, compreendendo melhor a cabeça e os gostos dos portugueses, e a tendência geral da qual já o “Janela Indiscreta”, de Alfred lHitchcock, dava conta quando lá se dizia “tornámo-nos numa raça de mirones”.

Assim, eu não contesto a aposta da CMTV e o trabalho dos seus jornalistas e colaboradores, o que me assusta é todos os outros canais estarem a seguir a sua filosofia, a copiarem, e a não oferecerem alternativas com outro tipo de informação». Passado mais de um ano, e com a CMTV já na Vodafone e na Nowo, os resultados são de vitória absoluta. Vencendo à vontade também no prime-time. Isto significa trabalho, consolidação e conhecimento de que os portugueses querem notícias e poucos comentadores oriundos da política a debitarem entre si a mesma conversa oriunda do Parlamento.

O fundador do Correio da Manhã, Vitor Direito, sabia que a informação não era um exclusivo da Corte e de iluminados, é um bem público, para todos os segmentos da população. Todos têm direito a saber o que se passa no seu país e na proximidade da sua comunidade. A facilidade em estar próximo das pessoas tem sido o maior património da marca CM. Dão-lhes o que elas querem ler e ver. Se os outros jornais e agora televisões concorrentes não sabem o que fazer e perdem diariamente audiência, isso, é um problema deles.

O mais fácil e menos imaginativo é copiar a sua agenda, o problema é que os canais ditos de referência estão manietados pelos resultados e não têm antídoto para combater. Podem perguntar-me se eu gosto de tudo no CM e na CMTV? Claro que não. Erram muitas vezes, mas também os outros erram, mas já vi pedirem desculpas e desagravarem pessoas em primeira página e nunca vi outros fazerem o mesmo. Não gostei nada da notícia dos bilhetes de Mário Centeno, foi um erro crasso, a meu ver, e já deviam ter dado uma palavra aos seus seguidores. Há conteúdos dos quais não gosto e debates que não vejo, mas aí tenho sempre o poder de decidir mudar de canal. O problema é que – e excluindo a RTP que tem construído um trajecto credível na informação, ainda há pouco tempo elogiado no CM pelo Carlos Rodrigues (director da CMTV), apesar da RTP3 ter de melhorar o seu painel de comentadores – as alternativas não são melhores e estão a morrer na tabloidização que não sabem fazer.

Nota: o autor escreve segundo a antiga ortografia

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