A grande guerra da direita

As referências perdem-se, as vitórias são imorais. A direita perdeu lastro com a crise, ficou sem programa e, como se não bastasse, dividiu-se. Haverá nela espaço para os moderados?

1.
Percebo a desorientação de tanta gente à direita. A cada semana que passa, as referências perdem-se.

Desta vez foi Angela Merkel quem anunciou o seu fim. Parece que está marcado para 2021, mas em Berlim poucos acreditam que chegue sequer lá, tendo em conta as derrotas nas últimas eleições estaduais e o estado da sua coligação ao centro. E quem sobe na Alemanha? À direita, é a extrema-direita AfD, soberanista, nacionalista, anti-imigração.

Antes de Merkel sabemos o que foi. Em França, nas presidenciais, Le Pen ficou por cima dos velhos republicanos. Em Espanha, Rajoy não resistiu, sequer, ao moribundo Sánchez. No Reino Unido, Cameron demitiu-se depois de abrir a porta de saída da Europa unida. Em Itália, Berlusconi afundou-se no pântano da antiga direita do centro.

A nova direita tem vencedores, mas o seu padrão está longe do centro: na Europa é a Liga de Salvini e os nacionalistas de Órban; fora dela, o “America First” de Trump e o militarismo autoritário de Bolsonaro.

Dá para festejar?

2.
Por cá, uns lançaram as canas, outros deitaram as mãos à cabeça. Mas, na hora da festa, a vitória de Bolsonaro deu-nos uma ideia bem mais nítida sobre o ponto em que está a nossa direita.

Já era claro, por exemplo, que tinha nascido por cá uma nova fação. Aquela que se move pela vingança de 2015, do golpe parlamentar que juntou as esquerdas para tirar Passos do poder. Que se alimenta com a raiva de um certo cinismo de António Costa, mas também da sorte dele por ter governado numa boa conjuntura e com os frutos do sucesso que Passos teve em tirar Portugal do resgate. Uma nova fação que se irrita com uma elite que nunca se abriu à direita – e cuja natureza corporativa a esquerda soube tão bem alimentar, mais agora que a economia deixa.

A verdade é que essa direita hoje não tem partido – o PSD de Rui Rio, estatista, é a antítese daquilo que ela defende.

E é também verdade que essa nova direita não tem programa. Porque o seu programa era o de Passos, que começou a perder-se ainda em 2010, com um projeto de revisão constitucional que não sobreviveu às primeiras notícias de uma tentativa de liberalizar o despedimento. Esse programa, depois, ruiu a meio da troika, quando Paulo Portas reduziu a reforma do Estado a um Powerpoint. E quando a esquerda levou a luta política para o patamar constitucional, travando a ideia de flexibilização do Estado para a qual a direita nunca conseguiu apoio popular.

Depois do fim do resgate sobrou pouco, a Passos e à direita liberal. Quando chegou às legislativas de 2015, restava a ideia de que o país iria sair do aperto, mas devagarinho para enganar o diabo. A mensagem chegou para lhe dar uma curta vitória, mas não para lhe garantir uma maioria de Governo.

Hoje, três anos depois, já nem isso vale para uma campanha. Porque Costa e Centeno reduziram o défice quase a zero e tiraram à direita o argumento de só ela sabia endireitar as contas.

Assim sendo, o que é que sobra a esta nova direita?

Olhando para a festa que fez com a eleição de Bolsonaro, ou com a defesa tímida que vai fazendo de Trump e de outras novas novas direitas na Europa, sobra-lhe em entusiasmo o que lhe falta em ideias para copiar. Porque o caminho não pode ser o protecionismo económico (Portugal é pequeno e não vive sozinho); também não será o do afastamento dos imigrantes (poucos são os que aqui querem viver); nem será o do combate com armas à violência, porque ela não se sente nas ruas; ou sequer o retorno à proibição do aborto ou à negação dos direitos das minorias sexuais (porque já nem o CDS tem aí refúgio eleitoral significativo).

3.
Mas sobra-lhe, a essa direita, uma data no calendário: a do julgamento de José Sócrates. Qualquer que seja o resultado, dará margem para um discurso que já foi testado à distância com esta eleição brasileira: ou é o PS que é corrupto (se Sócrates for dado como culpado); ou é o sistema que está corrompido (por não ter culpado Sócrates). O argumento pode repetir-se para Ricardo Salgado, porque para esta direita um e outro são (apenas) a face e contra face da mesma moeda.

Sim, esta nova direita quer correr a pista justiceira, antecipando na política um julgamento que ainda não se concluiu na justiça. Porque é o que lhe resta – e o que lhe resta cola bem com o seu ressentimento: o combate à corrupção, o discurso da elite cartelizada, do país amarrado. Dirá que é preciso menos Estado porque o Estado é corrupto. No Brasil foi Lula e a Petrobras, por cá foram Sócrates e o BES (como se a direita não tivesse tido os seus tristes pecados).

Isto pode não ser um programa eleitoral, mas é bandeira para uma campanha. Como se viu no Brasil, elas fazem-se cada vez menos com programas ideológicos, cada vez mais de discursos identitários, aqueles que unem muita gente diferente, afastando todos os outros. São políticos que promovem a divisão, que detestam o politicamente correto.

4.
Repare como tudo isto desequilibra o regime: enquanto à esquerda Costa integrou o PCP e Bloco, neutralizando parte do seu discurso populista (o Luís explica bem aqui), a direita divide-se entre o eixo da tolerância e o da rutura. Hoje, a que mais se faz ouvir é esta: a que largou o valor do diálogo e rasgou o seu compromisso com o consenso, a que detesta a esquerda e a direita que contemporiza com ela. Ouvirão isto muitas vezes: quem não é inimigo deles é seu inimigo – um “colaboracionista”.

Como dizia esta semana o Nuno Garoupa, em Portugal “há hoje uma direita Bolsonaro e há uma direita não-Bolsonaro. Sendo que a primeira se caracteriza por um programa simples: ódio à esquerda, ódio a quem discorda, insultos permanentes, desprezo pelo ‘agree to disagree’, superioridade moral”.

Como essa direita não tem, hoje, partido nem candidato, seria fácil ignorá-la, desvalorizá-la, seguir em frente como se não fosse um problema. Acontece que, como vemos lá por fora, estes são projetos que sabemos como começam, mas nunca como acabam.

Na América (para não voltar à polémica sobre Bolsonaro), o discurso do ódio de Trump, totalmente divisivo, levou a que, na semana passada, um cidadão enviasse sete bombas para o correio de sete adversários e críticos do Presidente. As mentiras xenófobas de Trump sobre a caravana de imigrantes que segue das Honduras para a América (“vem lá gente desconhecida do Médio Oriente ”) levou a Fox News e os “influenciadores” de extrema direita inventar teorias da conspiração sobre se o judeu George Soros estaria por trás da manobra, financiando a caravana para desafiar a América conservadora. Poucos dias depois, um extremista pegou em quatro armas, entrou numa sinagoga e matou 11 judeus. Antes, esse cidadão destilou ódio contra os judeus numa rede social que nasceu contra o Facebook e Twitter, fundada no desprezo profundo pelo “politicamente correto” e com o argumento de que, em democracia, a palavra é mesmo livre. Será mesmo? Sempre?

5.
Haja ânimo para a direita moderada, porque também lhe sobram alguns exemplos, mesmo aqui ao lado: em Espanha, o Ciudadanos ganhou um papel central na política e no futuro da governação; em França, Macron refez o centro e redundou o sistema e reabilitou o liberalismo. Nos dois casos, é verdade, foram movimentos que nasceram do zero. Talvez seja a hora de os moderados pensarem nisso por cá também.

P.S. O João Miguel Tavares quer saber onde é que eu estava no tempo do Sócrates. Eu satisfaço-lhe a curiosidade: a ouvir os gritos dele ao telefone, porque nunca abdiquei de o escrutinar – nem saí do jornalismo para fazer piadas.

Notas soltas da semana

  • História da carochinha? Voltamos ao caso de Tancos, para concluir que, afinal, Azeredo sabia do memorando… mas que não percebeu o que lá dizia. Mas não foi António Costa quem disse, no Parlamento, que o seu ministro não sabia? Afinal sabia? Mas Costa não lhe perguntou quando soube? Azeredo era ministro de quem? Mas ainda há alguém que acredite em tudo isto que nos querem contar?
  • Uma aula para o ministro? O novo ministro da Defesa defendeu a contagem do tempo de carreira dos militares. Será que ainda ninguém lhe deixou um memorando para saber o que pode dizer?
  • Um Presidente que adivinha? Marcelo mandou dizer que ainda não decidiu se promulga o diploma do Governo que só dá um bocadinho do tempo de carreira que os professores queriam ver descongelado. Será que lhe cheira a coligação negativa na Assembleia?
  • Um cartão de agradecimento? Parece há festa na CGD, com os lucros que voltaram. Alguém já agradeceu a António Domingues?

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