Balsemão deixa aos seus herdeiros uma grande dor de cabeça

Quem é Francisco Pinto Balsemão? É alguém que conseguiu ir além da sua circunstância, afirma Joaquim Vieira, autor da biografia que está agora nas bancas. Mas tem hoje "um grupo com pés de barro".

Joaquim Vieira é jornalista e foi diretor-adjunto do Expresso durante quatro anos, de onde saiu por causa de uma notícia “que terá chocado com os interesses do patrão”. O “patrão” era Francisco Pinto Balsemão e, por causa deste episódio, o jornalista ponderou se deveria escrever uma biografia “do patrão dos media que foi primeiro-ministro”. Escreveu mesmo, “sem a concordância nem a discordância” de Balsemão. Em entrevista ao ECO, viaja pelo livro que demorou mais de dois anos a fazer e que é publicado no 80º aniversário de Balsemão.

Por que escreveu uma biografia de Francisco Pinto Balsemão?

Foi um convite da editora [a Planeta], não era um projeto meu inicial, nunca me passou pela cabeça escrever uma biografia de Francisco Pinto Balsemão, tanto mais que tinha sido funcionário dele durante 15 anos. Após ter refletido um pouco, considerei que valia a pena escrever a biografia, pela figura, e que seria capaz de escrevê-la com o distanciamento e a equidistância necessárias e ultrapassar o facto de ter saído em conflito com o Expresso.

Uma biografia que demorou mais de dois anos a concluir…

Demorou, porque tenho outros projetos pelo meio, senão teria sido mais rápido, e a editora teria preferido (risos). Mas sai numa boa ocasião, porque há o processo de reestruturação do ‘império Balsemão’, como se diz, e porque faz agora [dia 1 de setembro] 80 anos.

Porque é que tantas pessoas recusaram falar sobre Francisco Pinto Balsemão?

Algumas falam em ‘off-the-record’, mas sobretudo em relação à sua vida privada, familiar, porque Balsemão teve, nesse âmbito, uma vida complicada e, portanto, as pessoas não querem ser confrontadas com essas questões. É um assunto incómodo, concretamente no seio da família, e eu percebo que seja difícil lidar com esses temas. Quando se recusa a paternidade a um filho, quando se leva o caso a tribunal, até ao Supremo [Tribunal de Justiça], sendo sempre sucessivamente condenado e, quando se vê esse filho quando tem 16 ou 17 anos, é uma questão que não é fácil de enfrentar por parte dos familiares. Compreendo que nem o próprio filho, nem a mãe, nem a primeira mulher, nem a segunda mulher, nem os irmãos, ninguém tenha tido disponibilidade para falar.

Mas na política também recebeu muitos ‘nãos’. Por exemplo, Marcelo Rebelo de Sousa, que é uma das figuras sempre presentes nesta biografia, também não falou. Porquê? Por causa do poder e da influência de Balsemão?

Em alguns casos, sim. É uma pessoa com muita influência e poder e muita gente não quer desafiá-lo ou dizer alguma coisa que seja desagradável. Mas não me parece que seja esse o caso de Marcelo Rebelo de Sousa. Sabemos que, a esse nível, é completamente imprevisível e nunca sabemos o que pode fazer. Ele [Marcelo] tinha outro projeto na altura [em 2015], que era a candidatura à Presidência da República. Descansei-o, porque lhe disse que a biografia só seria publicada depois das presidenciais, mas mesmo assim creio que lhe passou pela cabeça que poderia interferir na candidatura e disse-me que preferia não ser protagonista… ele é protagonista, quer queira, quer não. Mas usou a desculpa de que tinha encerrado o passado.

Quem é Francisco Pinto Balsemão?

Francisco Pinto Balsemão é alguém que conseguiu ir além da sua circunstância e, nessa medida, é uma figura da história da sociedade portuguesa no século XX. Foi contra aquilo que era previsível que fizesse. Nascido no meio em que nasceu, com o conforto material e os rendimentos e a garantia de uma certa vida assegurada com todo o luxo, Balsemão quis arriscar, interveio fora da sua circunstância, tanto no plano dos media — a principal marca que deixa –, como também do ponto de vista político. Não precisava de desafiar o regime antes do 25 de abril, entrando em conflito com Marcello Caetano, tanto mais que vinha de um meio conservador. Foi deputado da ala liberal em 1969 e fundou o Expresso em 1973, são dois marcos na vida de Balsemão. É alguém que arrisca e, nessa medida, é alguém que pode ser objeto de grande admiração.

Balsemão saiu do jornalismo para entrar na política. Ficou claro, para si, o que o moveu?

Esse é um grande mistério, porque é que evolui de uma posição conservadora para uma posição liberal. O próprio deu uma justificação, que não é muito convincente. Falava de Humberto Delgado, das pessoas que viu e que contactou, mas o facto de ter sido, na prática, o diretor do Diário Popular, que era um jornal da família, lhe abriu muito os horizontes. Deu-lhe outra perspetiva sobre a natureza do regime, porque ele tinha de lutar todos os dias contra a censura. Foi, creio, fundamental para fundar um espírito liberal e uma visão diferente da política. Deveria estar farto do salazarismo e viu em Marcelo Caetano alguém que poderia renovar o regime e por isso aceitou participar nesse movimento. Depois, apanhou a desilusão, que todos apanharam, de que tudo continuava na mesma, mas ele não se resignou.

Mas a política não foi o momento mais feliz da vida de Francisco Pinto Balsemão.

Não foi. Balsemão, com a sua própria natureza e personalidade, não tem as características que fazem um bom político. O político tem de fazer ruturas, tem de fazer opções, tem deixar gente para trás, tem de avançar contra tudo e contra todos, como fazia Sá Carneiro. Balsemão é o contrário de tudo isso, quer dar-se bem com toda a gente, contemporiza com tudo, e deixa que lhe ‘comam as papas na cabeça’. Uma pessoa com essas características dificilmente seria um bom político. Como político, Balsemão sempre foi ultrapassado à esquerda e à direita. Estava no meio, sem se definir, mas apesar de tudo, tem um papel fundamental na revisão constitucional de 1982, e isso não é suficientemente reconhecido. Podemos dizer que a revisão era inevitável e seria sempre feita, mas era preciso uma capacidade negocial com Mário Soares, e Freitas do Amaral também tem um papel decisivo. Ainda assim, fica com essa marca, mas os dois governos de Balsemão não foram particularmente brilhantes. Também acho que a saída do Governo foi, para ele, um alívio. Nunca pensou que poderia ser um primeiro-ministro, foi a morte de Sá Carneiro que o levou a São Bento, saiu e foi fazer o que gosta, regressou à comunicação social, ao Expresso, e depois foi fazer a Sic.

E como era o gestor de comunicação social que encontrou no Expresso?

Era muito tolerante, muito ‘mãos-largas’, havia dinheiro e o Expresso estava num grande crescimento, não intervinha nos conteúdos…

…e garantia independência editorial? No seu caso, saiu por causa de uma notícia?

É verdade, há momentos-chave em que isso deixa de existir mas, na maior parte do tempo não existia qualquer tipo de interferência editorial. Mas também é verdade que, quando se entra no Expresso, já existe um clima — criado por ele, por Marcelo Rebelo de Sousa –, uma atmosfera, que não foi definida por nenhuma ordem concreta, mas uma cultura e um ambiente, uma cultura de liberdade mas também social-democrata, do partido, sem nada escrito, como digo. Regra geral, não havia interferências, a não ser em momentos-chave, ou porque se incomodou o seu grande amigo André Gonçalves Pereira, ou porque envolvia os seus próprios negócios. Foi, aliás, isso, que levou à minha saída do Expresso, embora isso tenha tido muito a ver com a atitude do diretor de então, José António Saraiva. Se não tivesse tomado aquela atitude, provavelmente Balsemão não teria feito nada, não teria imposto a minha saída. O José António Saraiva sentiu-se desautorizado porque, no fecho do jornal, acrescentei informação a uma notícia que tinha sido combinada com o próprio Balsemão sobre a entrada de Berardo como acionista do grupo. Acrescentei porque havia espaço em branco na página que tinha de ser preenchido.

O que é que acrescentou?

Esse foi o problema. Não havia qualquer indicação de que não pudesse acrescentar alguma coisa, mas, ‘azar dos távoras’, havia na maquete final do jornal um buraco e foi necessário acrescentar alguma coisa. Pedi ao arquivo do jornal um dossiê sobre Berardo e, do que havia, a notícia mais recente era do Independente sobre processos fiscais. Quando o Saraiva leu a notícia no sábado, escreveu uma carta a Pinto Balsemão a dizer que se sentia desautorizado e, na sequência disso, disse-me que tinha 24 horas para me demitir ou seria demitido. Acabei por me demitir.

Mudou a sua opinião sobre Francisco Pinto Balsemão?

Mudou um pouco, porque percebi que não era o patrão tão liberal nos seus órgãos de comunicação social como gostava de apregoar para os outros. Havia limites a essa liberdade de imprensa. Mas também percebi que, não tendo a confiança do diretor, não teria outra alternativa. Já antes do 25 de abril, há uma notícia que não se publica por causa da pressão do seu amigo André Gonçalves Pereira, advogado de uma parte interessada. Os limites eram os seus próprios negócios ou os interesses dos seus amigos íntimos. Não há, portanto, a liberdade total e absoluta que Balsemão gosta de apregoar.

Como é que foi o processo de sucessão no império Balsemão, primeiro com um gestor independente da família, Pedro Norton, depois com o filho, Francisco Pedro?

Foi caótico, com uma indefinição e uma incerteza de como fazer esse processo. Aí, Balsemão tinha uma certeza, que era a de manter o grupo na esfera familiar e isso, na minha perspetiva, era fatal. Sempre foi assim, sempre desenhou operações e engenharia financeira para manter o controlo do grupo. É uma situação difícil, porque o capital de Balsemão era limitado e precisava de levantar dinheiro lá fora. Ao escolher alguém fora da família – Pedro Norton, em quem confiava e que tratava como um filho -, acabou por chocar com a estratégia de manter o controlo familiar… isto não faz muito sentido, o que é necessário é escolher os melhores gestores e a família nem sempre tem a melhor solução.

A escolha de Pedro Norton surpreendeu-o?

Não, conhecia o Pedro Norton e acompanhei a sua carreira, e penso que era a escolha adequada. Não tinha outra opção. Surpreendeu-me foi a saída de Pedro Norton para a entrada do filho mais novo, o Francisco Pedro Balsemão.

Qual é a explicação?

Pedro Norton tinha outra estratégia, queria encontrar um aliado estratégico na Europa e isso implicava perder o controlo familiar do grupo. As coisas não estavam a correr bem para o grupo e seria difícil um novo acionista meter dinheiro sem a capacidade de decisão. É, aliás, o que acontece hoje por exemplo com António Parente [acionista da Impresa], que nem sequer está na administração, e está a ver o grupo a perder valor. De facto, Balsemão sempre geriu o grupo na esfera familiar, nunca abriu a gestão… os membros da família podem colocar as suas despesas pessoais, são os únicos a fazê-lo. O grupo está fechado e está…

É um grupo bem gerido, profissionalizado?

Acho que não. A prioridade dada aos filhos também causa problemas. Os filhos não são necessariamente os melhores para determinadas responsabilidades, e Pedro Norton talvez fosse o único profissional ao nível de gestão. Quando houve o choque entre Balsemão e Pedro Norton, numa reunião de quadros anual, quando Norton disse que havia uma alternativa e Balsemão afirmou que o grupo era familiar e assim continuaria, o Pedro percebeu que não havia grandes hipóteses e apresentou a demissão. Ora, para cumprir essa orientação estratégica, Balsemão não encontra outra alternativa que não a escolha de um filho. Qual? É o mais novo, fruto do casamento com a sua atual mulher e isso resulta também do contexto familiar.

Porquê?

Não escolhe os filhos mais velhos, embora ouça dizer que a sua preferência seria a escolha da filha do primeiro casamento, Mónica Balsemão, que trabalha no grupo. Como não era filha da atual mulher, existia uma contingência, não escolhe o filho que nasce fora do casamento, com todos os problemas que houve no passado, mas que está a trabalhar no grupo, e não escolhe o filho do primeiro casamento porque estava noutra vida profissional. Escolhe o filho mais novo, na esperança de que fosse o salvador, e isso é muito complicado, para dizer o mínimo. Francisco Pedro assume as funções de presidente do grupo com a mesma idade que Balsemão criou o Expresso, com 36 anos, mas os tempos são diferentes e as histórias não se repetem.

Como era a relação de Francisco Pinto Balsemão com Ricardo Salgado?

Havia uma relação de proximidade por causa do contexto social em que ambos se moviam. Não investiguei essa dimensão da vida de Balsemão, não sei que relação existia entre ambos fora desse contexto. Depois, houve uma situação difícil por causa de notícias do Expresso sobre o BES e há sempre uma tendência para esta gente ver tudo como uma campanha. Acho interessante que, desde sempre, tudo o que o Expresso publicava era visto como uma intenção malévola de Balsemão, sendo certo, e eu posso garantir, que não tinha que ver com isso. Com o que saía na primeira página, mas era sempre visto assim, e Ricardo Salgado também fez essa leitura. Cortou a publicidade ao Expresso e muito justamente, creio eu, o jornal associa o Grupo Espírito Santo ao caso ‘Mensalão’ no Brasil. É o início de um conflito e é curioso que é Balsemão que defende mais a posição jornalística do Expresso que o próprio diretor [José António Saraiva]. Mas como havia outros envolvimentos, o financiamento do grupo, creio que isso terá trazido algumas complicações. A partir de uma certa altura, por causa das suas ligações à PT, o próprio Ricardo Salgado faz com Balsemão um certo joguete, através de Zeinal Bava e das negociações da operadora com o grupo Impresa por causa dos canais de cabo. Aí, as relações não eram as melhores e Balsemão estava muito na dependência de Salgado, era uma realidade.

Na biografia, fica claro que Balsemão tem um grande aliado na área financeira: Fernando Ulrich, que entrou como jornalista de economia do Expresso logo em 1973.

O BPI foi fundamental… arrisco até dizer que os problemas gravíssimos que o grupo Impresa tem neste momento, do ponto de vista financeiro, devem-se ao facto de Ulrich ter deixado de ser o presidente executivo do BPI. Estou a especular, mas o BPI assegurou certas condições e garantias a Balsemão que lhe permitiram assegurar a expansão do grupo neste início do século XXI, baseando-se muito em dívida. O poder no BPI mudou e essas condições deixaram de existir.

Há algum facto da vida de Francisco Pinto Balsemão que o tenha surpreendido?

Talvez no aspeto da vida privada, não esperava esta situação tão complicada com o filho fora do casamento e a sua atitude de negação, negação de paternidade. Já tinha ouvido alguma coisa sobre isso, mas ignorava que Balsemão tivesse mandado a futura mãe à Suíça com todas as despesas pagas para abortar, ignorava que, não tendo a mãe feito isso, Balsemão tenha dito para não assumir que o filho era dele, ignorava que, depois, o tenha negado sempre nas diversas instâncias judiciais e que o caso se tenha arrastado até ao Supremo, onde foi condenado a assumir a paternidade. Surpreendeu-me que este caso tenha durado tantos anos, antes e depois do 25 de abril, e que não tenha transpirado nada e se tenha mantido sempre num círculo restrito. Porquê? Por causa do poder e da influência de Balsemão. Fiquei surpreendido com estes dados, não fiquei surpreendido com nada em relação à dimensão política e empresarial.

Regista, na biografia, uma outra dimensão pessoal de Balsemão. É um homem vingativo, que não esquece?

É curioso que, sendo muito tolerante, com muito chá e simpatia, quando acha que alguém o trai… É incrível que Balsemão aceitou muitas coisas de Marcelo, mas gostava dele. Depois do caso do “lélé da cuca”, as coisas esfriaram um pouco, mas, depois, até o levou para o governo. É certo que o levou numa perspetiva negativa, porque entendia que lhe fazia menos danos estando no governo do que no Expresso. Não é a melhor razão para levar alguém para o governo. Ele [Balsemão] também é vingativo porque muita gente lhe diz que não pode transigir, tem de ser implacável. Houve muita gente a dizer-lhe isso, a dizer-lhe que permitia muitas coisas, até aos jornalistas. E Balsemão a jogar entre a sua própria natureza e o que lhe diziam. Quando define o princípio de que quem sai do Expresso já não entra, quando define um index de pessoas que estão proibidas de colaborar com o Expresso, por exemplo Marcelo Rebelo de Sousa, é duro porque as pessoas à volta dele lhe dizem que tem de ser assim. Mas a natureza de Balsemão é liberal, tolerante e isso vai acompanhá-lo até ao final da sua vida.

Tendo em conta a história recente do grupo Balsemão, o que se pode esperar para o futuro?

Hoje, é um império com pés de barro. Balsemão deixa aos seus herdeiros uma grande dor de cabeça. E esta biografia foi escrita sem saber que o grupo se preparava para alienar todas as publicações, com exceção do Expresso e da SIC. O grupo cresceu muito e de uma forma desmesurada, Balsemão estava muito à vontade, muito seguro de si, pensando que a sua posição era inabalável. Porque tinha o suporte financeiro do BPI, e isso permitia uma gestão menos cuidada e rigorosa. O investimento na aquisição de revistas, por exemplo, à esquerda e à direita, foi feita para manter a ideia de dinâmica e prestígio do grupo, mesmo quando se sabia que essas revistas não eram rentáveis. Além disso, sem avaliar o impacto da tecnologia e do digital na comunicação social. O grupo chegou tarde a essa realidade, Balsemão atrasou-se, com consequências desastrosas.

Balsemão concedeu recentemente uma entrevista em que afirmou: “Eu morro, mas a família mantém-se”…

Foi o que disse na reunião de quadros do grupo em 2015. Manteve essa ilusão, mas isso pode ser fatal para o grupo. É verdade que Balsemão tem um lugar na história de Portugal, e não apenas dos media. Ao lançar o Expresso e a Sic, Balsemão tem um contributo para a formação de uma opinião pública, que não existia à data. Esse mérito, ninguém lhe tira, mas a forma como isto está a acabar, a implosão do grupo, que sentimos e intuímos, mancha o percurso de vida de Balsemão. Não lhe retira os méritos que teve, mas deixa uma mancha. Muitos impérios acabam assim.

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