Continente no mundo, a Nos e o retalho na bolsa. A década de Paulo Azevedo à frente da Sonae

Paulo Azevedo liderou a Sonae desde meados de 2007 e conduziu os destinos da companhia durante o período da crise mundial. Vai deixar o cargo no fim deste ano. Como era e como é a dona do Continente?

Cláudia Azevedo vai assumir a presidência executiva da Sonae, anunciou a empresa esta terça-feira. Mas o que foi o grupo ao longo de mais de uma década sob a batuta de Paulo Azevedo? O gestor teve a missão de comandar o império criado pelo pai, Belmiro de Azevedo, que pegou numa pequena empresa de laminados para a tornar numa companhia com um portefólio que vai do retalho ao turismo e das telecomunicações à tecnologia.

Foi a 3 de maio de 2007 que Paulo Azevedo assumiu a presidência da Sonae, após um minucioso processo de seleção comandado pelo próprio Belmiro de Azevedo. Aliás, o ECO já o explicou aqui: também Ângelo Paupério, Álvaro Portela e Nuno Jordão eram candidatos ao alto cadeirão da dona do Continente e a passagem do testemunho foi gerida com máxima cautela. O homem forte da companhia queria uma transição suave, mas também baseada no mérito. E receava perder algum destes talentos. A escolha do filho do empresário acabou por ser consensual entre todos.

É impossível descolar o rótulo “retalho” da Sonae de Paulo Azevedo. Foram anos e anos de know-how acumulado, que a empresa veio a aplicar noutras áreas de negócio, como o desporto na Sport Zone, ou a eletrónica de consumo na Worten. Mas a Sonae de hoje é diferente da Sonae de ontem. E isso torna-se evidente após uma visita ao arquivo de relatórios de contas da companhia dos últimos 11 anos.

Em 2007, ano em que Paulo Azevedo assumiu os comandos, a Sonae lançava-se numa “estratégia de crescimento” no negócio de retalho, “reforçando a liderança” em Portugal. Também continuava a “expandir a sua presença internacional no negócio dos centros comerciais”, fechando o ano com 47 centros comerciais em sete países. Tudo isto tinha um objetivo que era claro: crescer em “setores atrativos”, com potencial para se tornarem cada vez mais globais.

Já nesta altura, o ADN da Sonae estava bem definido perante os investidores. No documento, a companhia assumia “sete princípios de comportamento fundamentais”: o empreendedorismo “para explorar novas oportunidades”, a boa gestão, a liderança, a disponibilidade para a mudança, o controlo, a transparência e a “independência do poder político”. Um traço que a Sonae herdou da era de Belmiro. Mas além da teoria, importa olhar para a prática. Reconhecendo um ano de “forte desempenho operacional” em toda a linha, a Sonae fechou o exercício de 2007 com receitas de 5,2 mil milhões de euros e um lucro de 284 milhões de euros, de acordo com a Reuters. O volume de negócios subiu 9,1% face a 2006.

Os próximos anos não terão sido fáceis, até porque vale a pena recordar que Paulo Azevedo recebeu a Sonae numa altura em que a crise mundial começava a dar de si. Neste ano, já se antecipava uma “desaceleração” do crescimento económico mundial, mas o PIB de Portugal ainda crescia 1,9%. No ano seguinte, 2008, com a crise já bem instalada no país, a empresa acabaria por conseguir, mesmo assim, aumentar as receitas para quase 5,7 mil milhões de euros. Já os lucros, esses, não escaparam: afundaram quase 72% para os 80 milhões de euros.

“Durante o ano de 2008, o ambiente macroeconómico e financeiro continuou a deteriorar-se em todo o mundo, muito acima das previsões iniciais”, lia-se no relatório de contas sobre o ano de 2008. Foi o primeiro ano completo de mandato para Paulo Azevedo, que assumia agora uma estratégia puramente voltada para o mundo global.

Numa mensagem enviada aos investidores, o gestor escrevia: “A internacionalização, focada no nosso negócio principal e incluindo as áreas adjacentes, será o nosso fator principal de crescimento durante muitos anos que hão de vir.” Paulo Azevedo estava a pensar em grande: “Temos a oportunidade de aumentar a nossa pegada internacional e de transformar a Sonae numa grande multinacional.”

A estratégia passava por apostar em oportunidades nos mercados emergentes e noutros já maduros, em que a Sonae já tivesse presença. Nos primeiros, Paulo Azevedo procurava crescimento económico para desenvolver mercados de retalho. No segundo, procurava oportunidades para “ganhar vantagem” sobre a concorrência.

Com os anos, a pressão sobre os resultados da Sonae aumentou. As receitas atingiram um pico de 6,3 mil milhões de euros em 2010, mas recuaram até 2014, período marcado pela passagem da troika pelo país. Já a pressão sobre os resultados líquidos manteve-se durante alguns anos, com a Sonae a só conseguir regressar acima da fasquia dos 200 milhões em 2016, ano em que apresentou um lucro de 215,1 milhões de euros. Pelo meio, apresentou-se com uma nova imagem. Foi em 2009, por ocasião dos 50 anos da companhia.

Falar da Sonae de Paulo Azevedo também é falar da fusão da Zon de Isabel dos Santos com a Optimus da antiga Sonaecom. A operação foi anunciada no final de 2012, em meados de dezembro. Poucos dias depois de ter sido conhecida a intenção, o conselho de administração da Optimus aprovava a operação “sem reservas”. Nessa altura, Ângelo Paupério, hoje parceiro de Paulo Azevedo na liderança do grupo, era administrador executivo da Sonae e presidente executivo da Optimus. E tudo estava alinhado para a operação: numa carta citada pelo Jornal de Negócios, Paupério dizia estar “integralmente disponível para negociar com a Zon a elaboração de um projeto de fusão” com a operadora.

Foi criada a Zopt, detida em conjunto pela Zon de Isabel dos Santos e pela Sonaecom. A primeira transferiu 28,8% da Zon para a nova empresa, enquanto a Sonaecom transferiu 81,8% da Optimus. A compra foi aprovada a 26 de agosto de 2013 e lançou as bases para o que é atualmente a Nos, liderada por Miguel Almeida. A participação de Ângelo Paupério em todo o processo de fusão terá sido decisiva.

Na carta aos investidores assinada por Paulo Azevedo na apresentação dos resultados de 2013, o gestor destaca o sucesso da operação. “Esta fusão criou um player com maiores vantagens competitivas e ambição que, apesar de ainda nas primeiras fases de integração, está já a lançar produtos convergentes de forma bem-sucedida”, dizia o líder da Sonae.

Hoje, a Sonae tem negócios em 91 países espalhados por todos os continentes como resultado da estratégia de internacionalização de Paulo Azevedo:

  • É dona da Sonae MC para o setor do retalho.
  • Tem a Sonae S&F, dona da Sport Zone e de marcas como a Berg Outdoor e Deeply.
  • Detém a Worten e a Worten Mobile para toda a componente de eletrónica.
  • Com a Sonae RP, o grupo aposta na gestão do seu património imobiliário de retalho.
  • Conta com a Sonae FS como coordenadora de serviços financeiros, e que inclui, por exemplo, o Cartão Universo e a corretora de seguros MDS.
  • Tem a já conhecida Sonae Sierra, que aposta nos centros comerciais.
  • É acionista da Nos, através da Sona IM, bem como dona do jornal Público.

E por falar em Sonae IM, a subsidiária da Sonae também tem feito apostas na área da tecnologia. Dela, nos últimos tempos, têm partido notícias de várias operações de compra de empresas internacionais ligadas à segurança informática e a tecnologias emergentes, como a inteligência artificial. Já este ano, fundiu duas empresas espanholas num “primeiro passo” para criar uma empresa líder em cibersegurança a nível europeu. Com o mundo a mudar, a Sonae não quer ficar para trás.

Na mais recente apresentação de resultados, relativos a 2017, Paulo Azevedo reconhece que a Sonae enfrentou crises mundiais e instabilidade política ao longo da última década. A estratégia, agora, inverteu-se. No retalho, o grupo aposta em estabelecimentos mais voltados para o nível local, um dos pilares de crescimento para a próxima temporada. Diz mesmo que a decisão da “expansão para pequenos centros nas cidades e lojas comunitárias ainda menores” resultou num reforço da quota de mercado e pôs a Sonae em áreas onde a empresa ainda não estava. É o caso do conceito por detrás do Continente Bom Dia.

Antes de deixar a liderança, Paulo Azevedo e Ângelo Paupério terão uma última missão: pôr o negócio do retalho na bolsa de Lisboa. O grupo já deu conta dessa intenção e deverá listar um portefólio que contará com ativos dos segmentos do retalho alimentar e da propriedade imobiliária. Segundo o Jornal de Negócios (acesso condicionado), a Sonae deverá optar por uma venda direta a investidores institucionais, o que significa que apenas quando a nova empresa estiver cotada é que os pequenos investidores vão poder comprar ações. A operação permitirá reduzir a dívida da Sonae.

Posto isto, em linhas gerais, este é o cenário: Cláudia Azevedo vai receber uma empresa a gerar 5,71 mil milhões de euros em receitas e lucros de 165,8 milhões de euros, a afirmar-se no setor tecnológico e a mudar conceitos no setor do retalho, de uma lógica de massa para uma mais local e focada. Levará a cabo projetos já em curso, como o projeto do Troia Resort, que ainda recentemente alienou mais uma parcela a uma empresa francesa. O carimbo de Paulo, esse, ninguém o apaga do historial da companhia com Azevedo no nome de família.

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