Há uma empresa portuguesa que ninguém conhece mas diz valer 28 mil milhões

Não tem funcionários, não tem vendas e dá prejuízos. Mas a Yupido, uma empresa portuguesa, diz que vale uns insólitos 28 mil milhões de euros. Auditor já terá solicitado explicações à administração.

Sabe qual é a empresa portuguesa com maior capital social em Portugal? Não, não é a Galp Energia. É a… Yupido, S.A. Trata-se de uma companhia com sede nas Torres de Lisboa e que tem registado um capital social superior a 28 mil milhões de euros. Sim, leu bem: são 28.768.199.972 euros para sermos precisos, ou mais de 15% da riqueza gerada em Portugal no ano passado.

Está registada como uma empresa de consultoria e, até hoje, nada se sabia dela. Mas os holofotes incidiram na Yupido esta quarta-feira, quando dezenas de utilizadores do Twitter perceberam que existia uma empresa que diz valer qualquer coisa como duas vezes o valor de mercado da gigante Galp. Ou nove vezes o BCP. Será isso possível?

Na sua página na internet, a Yupido refere que não é “uma empresa tradicional”

É fácil encontrar a página da Yupido na internet, mas bem mais difícil é chegar aos responsáveis. No site, exibe os 28 mil milhões de capital social, publica os estatutos da empresa (que corroboram o valor) e indica ainda quem está ao leme deste grande navio: tem Hugo Martins como presidente executivo e foi fundada por Cláudia Alves (diretora de operações) e Torcato Jorge (diretor de marketing). No LinkedIn, há pelo menos uma pessoa que garante ter completado um estágio de verão na Yupido.

O caso ganha contornos ainda mais bizarros quando se tenta contactar a Yupido. No site não consta qualquer endereço de email ou número de telefone: apenas um formulário de contacto que o ECO usou para remeter algumas questões, mas às quais ainda não obteve resposta. O ECO fez ainda um telefonema para a morada da Yupido, um andar na Torre G, na Rua Tomás da Fonseca, em Lisboa. Uma responsável da Regus Business, a empresa que faz a gestão do escritório da Yupido, não foi capaz de transferir a chamada para a empresa por não existir lá uma extensão telefónica.

Na prestação de contas da Yupido relativa a 2016 constam mais de 28 mil milhões de euros de ativos intangíveis

Mas, afinal, de onde vem tanto dinheiro? Para perceber isso, há que dissecar os números. A Yupido foi fundada em 2015, mas o volume de vendas nesse ano, e também em 2016, é nulo. Aliás, a empresa tem dado prejuízo. Há dois anos, perdeu 11.800 euros. No ano passado, as perdas chegaram aos 21.570 euros. Também não existem empregados ao serviço da Yupido.

Sabe-se também que a Yupido realizou um aumento de capital em espécie no ano passado. O ECO teve acesso ao relatório de contas da Yupido relativo ao exercício do ano de 2016, onde a empresa começou com um capital próprio de mais de 243 milhões de euros. É durante o ano passado que nascem os 28 mil milhões de euros. O valor está inscrito na folha de balanços como sendo a avaliação total dos “ativos intangíveis” que a Yupido gere.

Os estatutos da Yupido corroboram o valor: mais de 28 mil milhões de euros

Um ativo intangível pode ser, por exemplo, um direito de exploração, uma patente, e por aí em diante. É, sobretudo, algo não palpável. E, pela lei, só pode ser reconhecido se “for provável que os benefícios económicos futuros esperados atribuíveis ao ativo sejam gerados em favor da entidade” e “o custo do ativo possa ser mensurado com confiabilidade”. São ativos deste tipo que a Yupido diz que puxaram o capital social para valores estratosféricos, mas não foi possível apurar que tipo de ativos gere esta empresa em concreto.

O ECO sabe que já foram solicitadas informações ao conselho de administração por parte do auditor de contas da Yupido, a J. Rito & Associada. Contactado, o revisor de contas, José Luís Freire Rito, preferiu não fazer comentários a estas informações.

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