PIB cresceu perto de 3%. Mas o ritmo vai continuar?

Os economistas elogiam o crescimento, mas avisam que na segunda metade do ano vai ser mais difícil manter o ritmo. O mesmo quando se olha para 2018.

Na reação aos números, o Ministério das Finanças frisou que este é o “maior crescimento do século” e defendeu que é “sustentável” e equilibrado.Paula Nunes / ECO

Os números do primeiro trimestre do PIB português são inegavelmente positivos: a economia cresceu 2,8% — um ritmo que só compara com o último trimestre de 2007, mostram os dados do Instituto Nacional de Estatística. O valor surpreendeu os analistas pela positiva: superou todas as estimativas. Mas — e este é um mas importante — este ritmo é para continuar?

Apesar de, com apenas a estimativa preliminar de um trimestre, os economistas estarem a rever em alta as suas projeções para o conjunto de 2017, ainda não é garantido que a dinâmica de crescimento que se verifica agora seja sustentável. Sem querer tirar mérito ao crescimento alcançado, recomenda-se cautela. Há pelo menos quatro motivos para moderar o otimismo — ou, nas palavras do Presidente da República, para evitar embandeirar em arco.

1 – Atenção ao detalhe

A estimativa do INE ainda é preliminar. Isto quer dizer que a informação sobre os primeiros três meses não está completamente apurada e que, por isso, o detalhe dos componentes do PIB, e do que justificou a sua subida, ainda não é conhecido.

Na nota de análise sobre os números revelados hoje pelo INE, o Banco BPI sublinha um dado importante: em parte, o crescimento muito expressivo das exportações explica-se por um feito na base de comparação. “As exportações aumentaram mais do que as importações, com a comparação das exportações de combustíveis e dos carregamentos para Angola a beneficiarem de efeitos temporários negativos nos primeiros três meses de 2016″, lê-se na análise de José Miguel Cerdeira.

Os dados disponíveis para as exportações de bens mostram um aumento homólogo de 48,3% nas vendas para o mercado angolano, no primeiro trimestre deste ano, sublinha a mesma nota. Este efeito poderá dissipar-se nos próximos trimestres, e ainda não é claro qual será o impacto para o valor do crescimento.

2 – A conjuntura internacional tem de ajudar

Para que o crescimento continue a bom ritmo, é essencial que a conjuntura internacional continue a ajudar. “O país está a reagir favoravelmente a uma espécie de bonança perfeita”, diz Filipe Garcia, economista do IMF – Instituto de Mercados Financeiros, ao ECO.

"O país está a reagir favoravelmente a uma espécie de bonança perfeita. (…) Para crescer a este ritmo, precisamos sempre do contexto externo favorável.”

Filipe Garcia

IMF - Informação de Mercados Financeiros

Da mesma forma que as crises económicas em Portugal são em parte resultado de maus resultados a nível internacional, agora Portugal também está a beneficiar da melhoria da conjuntura. A política monetária do Banco Central Europeu (BCE) está extraordinariamente expansionista, o que diminui em grande medida o risco-país. Os parceiros europeus estão a recuperar e o preço do petróleo e o valor do euro continuam baixos.

“Para crescer a este ritmo, precisamos sempre do contexto externo favorável”, reforça Filipe Garcia. “Mantendo-se os ventos favoráveis, concordo que seja possível crescer acima de 2% no conjunto do ano”, adianta, indo ao encontro das estimativas do BPI e de outros gabinetes de estudos, como é o caso do Católica Lisbon Forecasting Lab, conforme noticiou a Lusa.

3 – Crescer no segundo semestre vai ser mais difícil

Há que ter sempre em conta que as taxas de crescimento dependem muito do momento com que se está a comparar. Ou seja: no primeiro trimestre deste ano é relativamente fácil atingir números de crescimento mais expressivos, porque o primeiro trimestre de 2016, período com o qual estamos a comparar, foi fraco. O mesmo vai acontecer no segundo trimestre de 2017, que ainda compara com um três meses fracos de 2016.

Mas entrando na segunda metade do ano, vai ser mais difícil continuar a crescer a bom ritmo. Os dois últimos trimestres de 2016 já foram mais fortes, o que significa que será preciso crescer mais em termos trimestrais para que a comparação homóloga saia igualmente expressiva.

O desenho do gráfico torna esta observação bastante óbvia.

Fonte: INE

4 – Sustentabilidade ainda não está garantida

“É de esperar um abrandamento do crescimento em 2018, porque ainda não há motivos que sustentem este ritmo de crescimento”, diz um economista de uma instituição financeira contactado pelo ECO, que preferiu não ser identificado. Esta análise vai ao encontro do que defende Rui Serra, economista-chefe do Montepio, em declarações à Lusa: tanto em termos homólogos, como em cadeia, estes níveis de crescimento “não se deverão repetir no resto do ano” por se tratar de valores “bem acima do atual crescimento potencial da economia”.

É precisamente esta também a avaliação das principais instituições internacionais. Tanto o Banco de Portugal, como o FMI ou a Comissão Europeia antecipam um abrandamento do ritmo de crescimento da economia portuguesa em 2018.

Fonte: CFP, Comissão Europeia, BdP, FMI

“Muitos dos assuntos sérios da Europa estão a ser colocados na prateleira até às eleições alemãs. Um desses assuntos é a alteração da política monetária, que deverá passar a ser menos expansionista”, acrescenta Filipe Garcia. Ora, um dos motivos pelos quais Portugal está agora a crescer bem é, precisamente, a ajuda da política do BCE. Esgotando-se, será mais difícil manter o ritmo.

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