Portugal coloca 1.250 milhões com juros ainda mais negativos

O Tesouro português colocou esta quarta-feira 1.250 milhões de euros com juros negativos recorde. Procura foi robusta, mas IGCP optou por colocar montante mínimo pretendido.

Portugal voltou esta quarta-feira a financiar-se a um custo mais baixo. No total, o Tesouro português conseguiu colocar no mercado 1.250 milhões de euros em dívida de curto-prazo. Em ambos os leilões, de 6 e 12 meses, a agência liderada por Cristina Casalinho alcançou juros ainda mais negativos.

Em ambas as linhas, a procura foi amplamente robusta para atirar as taxas para mínimos históricos, isto apesar de o IGCP ter optado por colocar apenas o montante mínimo que pretendia. Conseguiu arrecadar 1.000 milhões de euros em bilhetes do Tesouro a 12 meses, tendo registado um juro médio de -0,112%, abaixo do juro de -0,047% que havia observado há dois meses numa operação semelhante. E obteve ainda 250 milhões de euros em títulos a seis meses, com a taxa a situar-se nos -0,158%, que compara com os -0,091% do último leilão.

Com o risco de Portugal a agravar-se desde o início do ano, situação que se tem repercutido num agravamento dos custos de financiamento de longo prazo, o país tem registado uma tendência inversa nos leilões de curto prazo, com os investidores interessados em “pagar” para absorver títulos nacionais com maturidade que não vão além dos 12 meses.

Para os analistas, esta situação reflete-se num conjugação de fatores que, entre outras coisas, têm ver com a taxa de depósitos do Banco Central Europeu (BCE) em -0,4%, que leva os bancos a procurarem outras soluções menos onerosas para ter o seu dinheiro em aplicações com bastante liquidez, e também com as perspetivas da inflação, que provoca uma revisão em alta dos preços dos ativos de mais longo prazo.

Para Filipe Silva, gestor de ativos do Banco Carregosa, “as taxas de saíram em linha com o mercado de curto prazo, que está em mínimos históricos”.

“Estes dados mostram que continuamos a beneficiar do ambiente de baixas taxas de juro e da ausência de sinais de que a subida de taxas de juro do BCE esteja para breve. Enquanto o BCE continuar a comprar a dívida soberana portuguesa, beneficiamos dessa proteção”, sublinhou o responsável.

"Estes dados mostram que continuamos a beneficiar do ambiente de baixas taxas de juro e da ausência de sinais de que a subida de taxas de juro do BCE esteja para breve. Enquanto o BCE continuar a comprar a dívida soberana portuguesa, beneficiamos dessa proteção.”

Filipe Silva

Gestor de ativos do Banco Carregosa

Foi a terceira incursão do IGCP no mercado de curto prazo e a procura não poderia dar sinais mais sólidos quanto ao interesse dos investidores por estes títulos. Na emissão de 250 milhões de euros em bilhetes a seis meses, a procura foi quase quatro vezes superior àquilo que a agência colocou. Já no leilão a 12 meses, Portugal registou quase o dobro da procura.

Filipe Silva não valoriza o facto de o montante emitido ter ficado junto do limite inferior do intervalo pré-definido. “Com estas taxas, é porque foi mesmo uma opção não contrair uma dívida maior”, diz o responsável. A agência que gere a dívida pública contava emitir entre 1.250 milhões e 1.500 milhões de euros.

Um terço do financiamento garantido

Paralelamente às operações de curto prazo, o IGCP tem mantido atividade no financiamento de longo prazo. Ainda na semana passada, garantiu 1.100 milhões de euros em dívida a três e nove anos, com os custos mais elevados para os cofres da República.

Com essa operação, Portugal levantou um total de 5.292 milhões de euros com a venda de Obrigações do Tesouro desde o início do ano, correspondendo a mais de um terço total do financiamento de longo prazo previsto para 2017, situado entre os 14 mil milhões e os 16 mil milhões de euros.

Ainda assim, o país tem encontrado condições mais adversas nestas primeiras idas aos mercados primários de financiamento em 2017, com vários fatores a contribuírem para a escalada dos juros em mercado secundário, nomeadamente a subida da inflação, dúvidas quanto ao impacto do programa de compras do BCE e riscos específicos do país, onde se incluem as fragilidades do sistema financeiro.

(Notícia em atualizada às 11h06)

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