De Tabuadelo para o mundo dos sapatos de trabalho

Em Guimarães, uma empresa de calçado, a AMF Shoes, aposta em inovação e desenvolvimento e produz calçado técnico de segurança. Aliou o design com conforto e calça as principais indústrias.

 

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Em Tabuadelo, uma aldeia no concelho de Guimarães, a AMF Shoes, empresa de calçado de segurança, é conhecida de todos e, nem a falta da placa com o nome da empresa impede os mais distraídos de saber o que se faz naquela fábrica. Percebe-se porquê: a aldeia é pequena e a fábrica de calçado dá emprego a mais de cem pessoas da região e vai fechar o ano de 2016 com uma volume de negócios de 11 milhões de euros. Mas esta não é uma fábrica de calçado qualquer. Aqui não há saltos altos, mas o design e conforto estão presentes em cada par de sapatos que saem da AMF Shoes.

O que é então a AMF Shoes? A AMF Shoes é uma empresa criada para um nicho de mercado: calçado de segurança para a indústria. Debaixo da marca Toworkfor, o calçado produzido em Tabuadelo nasceu para fazer face às necessidades do mercado: resistente para responder às exigências do mercado de trabalho mas sem descurar o design, uma área que até então não era vista nem sequer pensada para este sub segmento de calçado.

Albano Miguel Fernandes fundador e presidente da empresa adianta em conversa com o ECO que “começamos por fazer calçado de moda em regime de outsourcing e foi essa a nossa principal competência até 2002″. Nessa altura, “percebi que o mercado de segurança era interessante e entre 2002 e 2005 fizemos as duas áreas”.

AMF Shoes

Em 2005 e, sentindo necessidade de organizar a empresa financeiramente, Albano Miguel Fernandes convida um amigo para vir trabalhar com ele. O economista tinha mais sensibilidade para os números. As coisas corriam bem mas era evidente que, financeiramente, o mais interessante era o calçado de segurança. Alocados todos os recursos para a nova área, a empresa sentiu necessidade de tornar o projeto mais robusto: é assim que abre o capital a Domingos Almeida, o amigo e economista contratado meses antes.

É ainda durante 2005 que é lançada a primeira marca própria: 2work4, dirigida a trabalhadores que procuram calçado de segurança moderno com uma linha desportiva. Mas o nome não vingava a nível internacional e a empresa procede, em 2013, ao rebranding da sua marca principal para Toworkfor.

Importámos os nossos conceitos de moda para o calçado de segurança e fizemos imenso sucesso na primeira feira internacional do setor a que fomos, na Alemanha.

Albano Miguel

Toworkfor

Em terra de cegos quem tem olho é rei

No fundo tratou-se de aplicar design, conforto e apresentação a um produto que até então era considerado “tosco”. Ou, como diz o fundador da empresa, “Em terra de cegos quem tem olho é rei”.

Hoje, a AMF Shoes produz 2.400 pares de sapatos por dia, emprega 106 pessoas e está a crescer a dois dígitos. “2016 vai ser o nosso melhor ano de sempre, temos crescido 25% ao ano e este ano vamos manter esse nível de crescimento”, refere o presidente da empresa.

AMF Shoes

“Crescemos em todos os sentido e somos líderes europeus no calçado de segurança colado, porque a maior parte do calçado de segurança é injetado. A AMF Shoes inovou na forma de fazer calçado técnico: temos também uma marca de calçado de injeção mas, na área do colado, somos os maiores na Europa”.

Albano Miguel Fernandes diz mesmo que “têm tentado copiar o nosso trabalho mas não têm sido felizes. O facto de termos trabalhado no início da nossa atividade em outsourcing para terceiros deu-nos ‘arcaboiço’. Diria mesmo que foram anos essenciais, uma vez que se aprende muito a trabalhar para outros. Foi aí que criámos a espinha dorsal da nossa empresa“.

Apesar de exportar maioritariamente (85%), Portugal tem-se assumido como o mercado em que se verifica maior crescimento devido ao investimento realizado. Em 2016, o mercado nacional terá um peso de 15% nas contas do grupo. No total, a AMF Shoes exporta para mais de 30 países, sendo a Holanda e a Alemanha os principais mercados, seguidos de Portugal, Suíça e Áustria, já com “volume razoáveis”.

Em França, onde a presença da marca portuguesa é ainda muito fraca, a empresa mudou a estratégia e criou uma sociedade de distribuição naquele país em parceria com o número um a vender galochas. “Este é o ‘ano zero’ em França. Esperamos que, no próximo ano, as vendas possam disparar”, adianta Albano Miguel.

Com investimentos nos últimos três anos na ordem dos 1,5 milhões ao ano, a AMF Shoes espera fechar 2017 na casa dos 18 milhões. Aliás, o otimismo é tão grande que, até 2020, Albano Miguel estima poder estar a faturar 30 milhões de euros.

Ainda em termos de investimento, a “empresa já não cabe nestas instalações”. “Estamos a estudar como vamos fazer, ou expandimos aqui, mas teremos que comprar terrenos que são muito caros, ou então temos que mudar… vamos ver. O próximo ano vai ser de tomada de decisões”.

AMF Shoes

Mas de onde vem tanto otimismo?

A resposta reside na área de investigação e desenvolvimento. Sem querer levantar muito a ponta do véu, Albano Miguel adianta que “estamos a desenvolver um novo tipo de calçado, de segurança e não só. Vamos reinventar a forma de fazer sapatos e, se isso se concretizar não consigo prever o que vai acontecer nesta empresa”.

Albano Miguel confidencia que “este projeto de investigação é muito forte e se se vier a concretizar, vamos ter uma tecnologia para ter calçado técnico, sem precisar de costuras, nem de montagem, e isso é o mais caro na produção de sapatos, e eu não vou ter dinheiro para pôr isto a funcionar, vamos ver como faremos”.

Parceiros? “Eventualmente ainda não sei dizer, primeiro vamos ver se a tecnologia funciona, mas eu sei que funciona porque já tenho aqui sapatos feitos com esta tecnologia, agora é só conseguir em vez de um sapato fazer um milhão”.

No negócio do dia-a-dia, a AMF Shoes está a negociar com os maiores players mundiais na área do calçado técnico, na tentativa de criar conceitos próprios. “São players que querem regressar à Europa e que olham para Portugal como um país interessante, pelo que é impossível que, no próximo ano, não subamos o nosso nível de volume de vendas na ordem dos 30%”. Para isso não acontecer, prossegue o gestor, “é preciso que aconteça uma surpresa muito grande e as vendas caiam a pique”.

“Estamos a falar de players que vendem 21 milhões de pares de sapatos por ano, nós vendemos 500 mil… estamos a falar de outra dimensão. Estes players vendem e não produzem, por isso o potencial [de negócio] é enorme”, acrescenta o homem forte da AMF Shoes.

Neste momento, a AMF Shoes trabalha com três linhas de produção — uma das quais com dois turnos –, e está a avaliar criar um segundo turno para outra das linhas.

Propostas de compra

Está desvendado o segredo para o sucesso que a empresa tem alcançado que, de resto, tem sido cobiçado por outros players do setor. “Quase todos os anos temos tido propostas de compra, mas nunca olhamos sequer para os números”. Albano Miguel Fernandes justifica o comportamento com o amor à camisola. “Gostamos do que fazemos e, sobretudo, conhecemos o potencial da empresa que temos em mãos”, diz.

Em 2015, o grupo para além de ter criado a empresa em França, adquiriu a Aloft, uma empresa de solas. Na altura faturava um milhão, agora vai fechar 2016 com 3 milhões de euros de volume de negócios.

O gestor diz que “as sinergias entre as empresas são interessantes, o grupo está no bom caminho, somos mais rentáveis, mais verticais e melhoramos o leque da oferta do negócio”.

AMF Shoes

Parceria com a Michelin

A Toworkfor e a Michelin associaram-se e criaram uma nova coleção. A ideia foi fazer uma sola Michelin — utilizando as borrachas e as geometrias da marca — nos sapatos da AMF Shoes. A ‘parceria’ teve início em 2015 e aconteceu porque “conhecíamos alguém na gestão da Michelin”. Albano Miguel Fernandes diz que “essa parceria dá-nos capacidade de penetrar em mercados onde somos menos conhecidos”.

“Fizemos um investimento juntamente com eles: só nós é que podemos vender com aquela geometria que, no caso, são oriundas de dois tipos de pneus, e usamo-lo em calçado mais outdoor”. Para Albano Miguel Fernandes foi mais uma oportunidade para a empresa de Tabuadelo poder distinguir-se da concorrência: “Os nossos concorrentes fazem calçado injetado, nós fazemos calçado injetado Michelin”. Esta foi também uma forma de rentabilizar o investimento de um milhão de euros realizado numa máquina de injeção que utiliza a tecnologia mais avançada do mundo.

A Michelin ainda não usa os sapatos da AMF Shoes. Albano Fernandes justifica essa decisão com o facto “de estarmos a falar de departamentos diferentes” mas admite que “estamos a negociar”. De resto, Albano Miguel Fernandes reconhece que “somos os únicos, neste momento, a usar as solas Michelin. Mas sei que outra empresa de calçado de segurança está a querer fazer o mesmo. Nós estamos à frente e a trabalhar com outra sola Michelin”.

E fazendo jus ao ditado “candeia que anda à frente ilumina sempre duas vezes”, o presidente da AMF Shoes refere: “É isto que nos permite manter os nossos clientes, estarmos sempre à frente e sempre a apresentar coisas novas”.

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