Transportes urbanos? Investimento e integração precisam-se

Os peritos que falaram ao ECO dizem que os principais desafios dos transportes urbanos para os próximos anos são melhorar a qualidade, mas também tornarem-se prioritários.

No dia em que o Bloco de Esquerda leva ao Parlamento a questão do desinvestimento nos transportes públicos, o ECO foi perguntar a dois especialistas em transportes coletivos urbanos quais deveriam ser as prioridades para as redes portuguesas nos próximos anos, com um olho mais atento na capital.

“Há muito trabalho a fazer”, começa desde logo Rui Cunha Marques, investigador e professor da área dos Transportes no Instituto Superior Técnico. “Nos últimos anos em Portugal, durante a crise, por um lado havia alguma expectativa de aumento do número de passageiros nos transportes urbanos, por outro também se verifica que houve alguma degradação, pelas dificuldades de investimento que existiram nos anos passados”.

O que é preciso? Investimento para renovar as frotas e expandir serviços em certas áreas, para não continuar aquilo a que Rui Cunha Marques chama um “ciclo vicioso”, em que “o défice de investimento leva à menor qualidade do serviço, com menor qualidade de serviço há menos passageiros, e com menos passageiros há menos receita”.

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Ao ECO, Avelino Oliveira, da Área Metropolitana do Porto, descreveu, em poucas palavras, as prioridades para as infraestruturas de transporte dessa região nos próximos anos: “Uma melhoria da velocidade média dos resultados, adoção de mais corredores, melhor serviço, ajustamento de linhas e do próprio serviço”, explicou, acrescentando que a operadora também pretende renovar as frotas.

“No fundo, as prioridades são coisas que, devido à maior proximidade da empresa com os municípios, irão proporcionar respostas mais rápidas e eficazes, otimização da rede, melhor comunicação”, resumiu o responsável.

Fala-se muito em ciclovias, mas serve-me de facto de muito pouco, se não conseguir fazer todo o meu percurso de mobilidade com a bicicleta e, ao ter de me integrar com um autocarro ou com o metro, não tenho forma de transportar a bicicleta.

Rosário Macário

Investigadora no Instituto Superior Técnico

E em Lisboa? A investigadora do Instituto Superior Técnico Rosário Macário relembra, sobre a Carris: “Um dos grandes desafios é obviamente a questão do défice, que vai ser absorvido pelas contas do Estado e que portanto está facilitado”. Além disto, “é um desafio de qualidade e de integração também”.

Para a investigadora, os transportes urbanos de Lisboa têm de se assumir como sendo “o principal modo de deslocação e o principal instrumento de acessibilidade”, o que significa ser capaz de integrar as restantes opções e ajudar os cidadãos a construírem os seus trajetos de maneira unificada.

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“Fala-se muito em ciclovias, mas serve-me de facto de muito pouco, se não conseguir fazer todo o meu percurso de mobilidade com a bicicleta, e ao ter de me integrar com um autocarro ou com o metro não tenho forma de transportar a bicicleta”, exemplifica Rosário Macário. “É este o grande desafio que os transportes coletivos têm de assumir, é o papel integrador”.

Para Rui Cunha Marques, há três prioridades principais para os transportes públicos de Lisboa. Em primeiro lugar, afirma, é preciso melhorar a qualidade da oferta, de forma a compensar a falta de investimento das últimas décadas que tem prejudicado o serviço e também, claro está, a imagem do serviço.

Para melhorar a reputação dos transportes públicos, o professor propõe ainda “campanhas e alguma pressão do ponto de vista mediático” para chamar a atenção para as vantagens do transporte coletivo, tanto do lado económico — pois pesa menos no orçamento familiar — como para promover o papel dos transportes coletivos para a melhoria da sociedade.

E reduzir o uso do automóvel?

A terceira prioridade de Rui Cunha Marques tem a ver com o desincentivo do uso do transporte individual. Para o investigador, alguns tipos de condicionamento, como a restrição da circulação em certas zonas mais condicionadas, já deram bons resultados noutras grandes cidades, como Londres. “É a mensagem que se manda, de que o transporte coletivo é uma das prioridades das políticas públicas dos nossos governantes locais e nacionais”, afirma.

Rosário Macário considera que “essas medidas fazem parte”, mas que não podem ser aplicadas sem antes melhorar os serviços de transporte coletivo.

“Quando restringimos temos de ter o cuidado de dar a alternativa, e dar uma alternativa de muito boa qualidade. Não podemos esperar que as pessoas se transfiram para os transportes públicos quando eles têm uma qualidade média baixa”, conclui.

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