Juros da casa vão subir. E os spreads?

Em 2017, os portugueses deverão ver os juros da casa aumentar, embora continuem em níveis historicamente baixos. Já os spreads têm muito pouca margem para baixar. Spreads abaixo de 1%? Esqueça.

Vive-se uma época dourada no crédito à habitação. Nunca os encargos com as prestações da casa foram tão baixos, com os indexantes em terreno negativo e os spreads do novo crédito no patamar mais baixo desde a crise financeira. Contudo, já começam a surgir indícios que poderão implicar uma subida dos encargos com os empréstimos da casa, após o recente anúncio da subida de juros nos EUA. Será que as famílias portuguesas que têm, ou pensam contratar, um crédito à habitação têm razões para se preocupar em 2017?

2017 será um ano tranquilo no que respeita ao credito à habitação, de acordo com os vários analistas consultados pelo ECO. Estes acreditam que a recente subida de juros nos EUA e os primeiros sinais de inversão da política monetária por parte do Banco Central Europeu (BCE), não deverão ter um impacto considerável no rumo das Euribor, taxas que servem de referência à maior parte dos contratos de crédito à habitação, em Portugal.

"A nossa perspetiva é que o BCE mantenha as taxas de juro ao longo de todo o ano, pelo que as taxas Euribor deverão ficar, também, relativamente estabilizadas.”

Rui Serra

Montepio Geral

Logo, não são previsíveis grandes alterações nos encargos mensais com as prestações da casa no próximo ano. “A nossa perspetiva é que o BCE mantenha as taxas de juro ao longo de todo o ano, pelo que as taxas Euribor deverão ficar, também, relativamente estabilizadas”, diz Rui Serra, economista-chefe do Montepio, antecipando que “mais para o final de 2017 é provável que se venha a assistir a ligeiras subidas”.

Evolução da Euribor a 3 meses

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Filipe Garcia, da IMF, aponta para um cenário muito próximo. “Para já a perspetiva para as Euribor é de manutenção perto dos níveis atuais. O mercado de futuros mostra-nos que apenas em 2018 as Euribor a 3 meses deverão subir de forma mais pronunciada e será só em meados de 2019 que se aproximarão de zero”, defende o economista, ressalvando contudo que as dinâmicas da zona euro, nomeadamente em termos de inflação e crescimento, que poderão alterar a política monetária do BCE, poderão afetar esse cenário.

"Para já a perspetiva para as Euribor é de manutenção perto dos níveis atuais. O mercado de futuros mostra-nos que apenas em 2018 as Euribor a 3 meses deverão subir de forma mais pronunciada e será só em meados de 2019 que se aproximarão de zero.”

Filipe Garcia

Economista da IMF

A Euribor a 3 meses encontra-se atualmente nos -0,317%, próxima do mínimo histórico de -0,318% estabelecido a 8 de dezembro último. O mercado de futuros aponta para que daqui em diante a Euribor a 3 meses se torne cada vez menos negativa, mas de forma muito lenta, para finalmente em dezembro de 2019 se fixar acima dos 0%, nos 0,03%. A expectativa do mercado é que daí em diante este indexante assuma valores cada vez mais altos, mas de forma muito gradual, de modo a que só em dezembro de 2020 toquem a fasquia dos 1%.

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Trata-se ainda assim de um valor bastante baixo, sobretudo quando comparado aos níveis historicamente elevados registados logo após a queda do Lehman Brothers, em 2008. Nessa ocasião os indexantes superaram o patamar dos 5%, levando muitas famílias a ter dificuldade em cumprir com os compromissos dos seus empréstimos. Não é aquilo que os especialistas antecipam que venha a acontecer nos próximos anos, mesmo que o BCE comece a subir a taxa de juro de referência da Zona Euro.

Ou seja, as famílias deverão continuar a beneficiar de encargos com o crédito à habitação bastante baixos, por um período de tempo prolongado. Mesmo num ambiente de subida das taxas de juro associadas aos seus empréstimos, deverão também tirar partido dos abatimentos no capital em dívida que conseguiram fazer durante o período em que as Euribor estiveram negativas.

Spreads abaixo de 1%? Esqueça

Do ponto de vista de quem pretende recorrer ao crédito à habitação, os últimos tempos também têm sido favoráveis. Após os recordes acima de 4% dos spreads mínimos do crédito à habitação durante o pico da crise, o preço cobrado pelos bancos para conceder empréstimos com esse fim têm caído, estando já abaixo dos 2% na generalidade das instituições. As mexidas mais recentes nos spreads, colocaram as margens mínimas cobradas pelos maiores bancos no intervalo entre 1,5% e 1,75%. E segundo os analistas poderá ainda haver alguma margem para mais quebras, mas muito curta.

Spreads mínimos dos bancos

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Fonte: Preçários dos bancos

“Não acreditamos que haja uma margem significativa para a descida dos spreads, quer porque a própria subida das Euribor deverá ser diminuta, quer pelo facto de os bancos necessitarem de ser rentáveis”, refere Rui Serra. Uma opinião partilhada por Paula Carvalho, economista-chefe do BPI. “Num cenário global mais positivo haveria provavelmente condições para que os prémios de risco continuassem a descer. Mas será um movimento lento, dados os condicionalismos da banca em termos de rentabilidade”, complementa a economista.

"Num cenário global mais positivo haveria provavelmente condições para que os prémios de risco continuassem a descer. Mas será um movimento lento, dados os condicionalismos da banca em termos de rentabilidade.”

Paula Carvalho

Economista-chefe do BPI

Já Filipe Garcia, não antevê sequer que haja condições para os bancos oferecerem spreads mais baixos. “Penso que haverá pouco espaço para descidas nos spreads ‘reais’, tendo em conta as necessidades de receitas dos bancos e os spreads atuais já se encontrarem próximos da margem mínima nessas operações. Claro que poderá haver campanhas com spreads mais baixos, mas com certeza que haverá outros custos ou comissões que colocam a TAEG a um nível equivalente aos atuais”, diz o economista.

Em face destas circunstâncias, qualquer dos analistas consultados pelo ECO não acreditam que o prémio cobrado pelos bancos para financiar a aquisição de casa possa cair abaixo da fasquia dos 1%. Enquanto Paula Carvalho considera como “bastante improvável” esse cenário, Rui Serra vai ainda mais longe ao afirmar que “não é desejável”.

É fundamental para a solidez do sistema bancário que os bancos portugueses tenham lucros. Sendo o crédito à habitação uma das principais atividades dos bancos, é crucial também que este segmento de atividade seja lucrativo, ao contrário do que sucedeu nos últimos tempos, em que os bancos estiveram, no que em linguagem económica se designa, a subsidiar as famílias (muito ‘por culpa’ das Euribor negativas)”, argumenta o economista.

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