Guterres: já houve contacto com a equipa de Trump

António Guterres deu esta quarta-feira a sua última entrevista em Portugal antes de chegar a secretário-geral da ONU. O português assume oficialmente o cargo este domingo, dia 1 de janeiro de 2017.

Terei o maior interesse em visitar Trump assim que for possível“, afirmou, em entrevista à Sic, o português que no próximo domingo passa a ser o secretário-geral da ONU. António Guterres referiu que já existiram contactos entre as equipas de transição e garantiu que tudo fará “para trabalhar de forma construtiva com a nova Administração norte-americana”.

O próximo secretário-geral da Organização das Nações Unidas vincou o papel “fundamental” dos Estados Unidos no funcionamento da ONU, recusando especular, em entrevista, se as relações com Donald Trump serão mais difíceis, assim como com Putin. Guterres defendeu-se dizendo que está habituado a dialogar e que até já teve uma reunião produtiva com o Presidente russo.

É entre a Rússia e os EUA que existe falta de consenso em relação à Síria. Na entrevista, o próximo secretário-geral da ONU alertou que é o Conselho de Segurança que cria as soluções e que cabe ao líder da organização administrar os recursos: “Não haverá verdadeiramente uma reforma da ONU se não for possível reformar o Conselho de Segurança para ser mais adaptado ao mundo de hoje, mas é difícil haver condições políticas para tal“, explicou António Guterres.

Colocando-se na posição de um sírio, Guterres afirmou que “estaria zangado com os atores que não encontraram uma solução”. O português diz existir “uma consciência crescente de que isto [guerra na Síria] se transformou num cancro à escala global“, referindo o impacto do conflito nos atos terroristas, transformando-se numa “ameaça global”.

Esta globalização da ameaça “deveria fazer os principais atores com influência no conflito perceber que uma solução será mais favorável para todos”, declarou, ressalvando que, na verdade, “sem apoios externos o conflito não seria possível”. Como solução à vista, Guterres fala em diplomacia discreta, tal como aconteceu em situações anteriores, para resolver este problema. “É mais difícil ter esta diplomacia discreta, mas é mais necessária do que nunca”, afirmou, referindo a diplomacia criativa. “A ação humanitária só por si não basta, é preciso fazer tudo para resolver politicamente as crises”, sentenciou.

É com o mesmo mote em mente que fala sobre o drama dos refugiados na Europa, desvalorizando o peso da fatura nos Estados europeus. “Na Europa há dois imigrantes ou refugiados por cada mil europeus. No Líbano há um refugiado por cada três libaneses“, relembrou o próximo secretário-geral da ONU. António Guterres falou da “pura ilusão” dos países europeus: “As sociedades europeias não são demograficamente sustentáveis, só com acesso à migração. As migrações são uma necessidade. Têm é de ser organizadas por cooperação entre os Estados”.

Guterres argumentou que o problema foi o alerta que passou nos media. “As opiniões públicas viram uma multidão avançar pelas fronteiras com a ideia de que ninguém controlava nada. A incapacidade política da Europa se unir criou movimento caótico que acabou por ser visto ameaçadoramente”, explicou o ex-primeiro-ministro.

O caminho até à ONU

“A questão central na minha vida tem muito a ver com a parábola dos talentos”, afirmou António Guterres relembrando as suas origens familiares, a sua formação e a revolução que assistiu quando era estudante de Engenharia Eletrotécnica. Nessa altura foi o “choque” com a realidade dos bairros de lata de Lisboa que fomentou a “intervenção política”.

A candidatura à ONU foi fruto de um “impulso moral muito forte de estar disponível”. O ex-primeiro-ministro acreditava que só teria 10 a 20% de hipóteses de chegar à liderança da organização. Num Conselho de Segurança dividido, Guterres conseguiu o consenso, mesmo entre Rússia e EUA numa altura em que o conflito sírio afetou as relações diplomáticas. Antes de assumir o cargo, o português já foi a Paris, Londres, Pequim, Washington e Moscovo auscultar os líderes dos países com poder de veto.

Chegado ao cargo, falta ainda muito trabalho. A começar pela equipa de Guterres que ainda não está formada. “Leva tempo”, disse, porque tem de ouvir os Estados-membros. No entanto, já se sabe que terá três mulheres na sua equipa para “dar um sinal claro” que a igualdade de género e a representação geográfica serão duas preocupações centrais do seu mandato de cinco anos à frente da ONU.

O orgulho em ser português

Questionado sobre o caso português onde os populismos não têm expressão, Guterres falou em orgulho. “Tivemos recentemente duas campanhas eleitorais que foram muito fortes quer para a Assembleia da República quer para a Assembleia da República, num clima bastante tenso, e ninguém levantou a questão dos imigrantes ou dos refugiados“, afirmou.

“E temos cerca de 400 mil imigrantes em Portugal e é possível aos demagogos dizer que é por causa deles que há desemprego, sabendo que isso não é verdade. A demagogia não se baseia na verdade, baseia-se nas perceções erradas que as pessoas podem ter sobre as situações. A atitude geral dos portugueses tem sido de aceitação da diversidade. Em Portugal ninguém ganhou votos com o ódio ou com a intolerância. Isso, para mim, enquanto português, enche-me de orgulho”, rematou o próximo secretário-geral da ONU.

Apesar de referir que enquanto secretário-geral das Nações Unidas não pode interferir na vida política de nenhum país, Guterres disse ter ficado “sensibilizado por todas as forças políticas em Portugal, o Parlamento e todos os órgãos de soberania, o Presidente da República e o Governo, se terem unido” na candidatura. “Isso teve uma influência grande. Ajudou muito à imagem do nosso país como um país em que se pode confiar“, afirmou.

Editado por Mónica Silvares

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