E se fossem as crianças a ensinar-lhe como poupar?

  • Ana Luísa Alves
  • 31 Outubro 2016

A literacia financeira já faz parte do ensino de parte das escolas em Portugal. A palavra "poupança" surge cada vez mais cedo no vocabulário dos mais pequenos.

Reportagem "Dia da Poupança "
Inês Santos e Leonor Santana 6ºCPaula Nunes / ECO 28 Outubro, 2016

No Agrupamento de Escolas Eça de Queiroz, realiza-se esta segunda-feira uma feira para comemorar o dia mundial da poupança, preparada pelos alunos 3º ao 6º ano, que desde 2013 começaram a ter aulas de educação financeira.

As palavras “poupança”, “essencial”, “supérfluo” já fazem parte do vocabulário dos alunos destas turmas. Aprenderam-nas nas aulas de educação financeira e garantem que as usam no dia-a-dia, ou que pelo menos as ouvem na televisão.

Eduarda Paixão é a professora que dá as aulas de educação financeira, da iniciativa da direção do agrupamento, partindo do Referencial de Educação Financeira, do Plano Nacional de Educação Financeira, na Escola Básica Vasco da Gama. O projeto da literacia financeira nas escolas teve início em 2012 em alguns agrupamentos do norte do país. Há três anos a iniciativa começou a ser também adaptada para algumas escolas em Lisboa, nomeadamente as do agrupamento Eça de Queiroz.

cropped-20161028123603_dr8a7203
Alunos das turmas 5ºA, 6ºA e 6ºC.Paula Nunes / ECO 28 Outubro, 2016

Apesar de dar aulas de economia na escola secundária do Agrupamento Eça de Queiroz, Eduarda Paixão aceitou a proposta da direção da Escola Básica Vasco da Gama. “Era um desafio interessante e aceitei. Gostei de tal forma do projeto que foi alargado para os alunos do 5º e 6º ano, e não apenas para os do 3º e 4º como acontecia inicialmente”, explica ao ECO. Além de outras áreas, foi criada a de educação financeira.

Era um desafio interessante e aceitei. Gostei de tal forma do projeto que foi alargado para os alunos do 5º e 6º ano, e não apenas para os do 3º e 4º como acontecia inicialmente

Eduarda Paixão

professora na Escola Básica Vasco da Gama


Dada a importância da temática e o sucesso obtido nesse ano, a direção do agrupamento alargou as aulas de educação financeira ao 2º ciclo, como disciplina integrada na oferta complementar.

Antes de já dar aulas aos mais novos, Eduarda Paixão frequentou a Oficina de Formação sobre A Educação Financeira nas Escolas – Referencial de Educação Financeira para a Educação Pré-Escolar, o Ensino Básico, o Ensino Secundário e Educação e Formação de Adultos, desenvolvida pelo Plano Nacional de Formação Financeira, orientada por formadores do Banco de Portugal, CMVM, DGE e ASF (Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões).

Nos últimos três anos, a professora passou a dedicar-se aos alunos que, segundo caracteriza, têm todo o gosto em aprender mais sobre a área financeira. Embora agora seja uma disciplina, para o 5º e 6º, a educação financeira começou por ser uma Atividade de Enriquecimento Curricular (AEC), como acontece, ainda hoje, com as turmas do 3º e 4º ano. Assim, por ser uma atividade opcional, nem todos os alunos têm a disciplina. Para o 5º e o 6º ano, estas aulas estão integradas na Área de Desenvolvimento Pessoal e Social.

A avaliação é feita tendo em conta os conhecimentos adquiridos dos alunos, atividades em aulas, mas não só. “Tento incutir nos miúdos que a parte financeira não é tudo, a solidariedade é importante e é preciso saber ajudar”. Não existem testes, mas cada aluno tem um portfólio onde colocam tudo o que fazem durante o ano.

Para as aulas, a professora socorre-se de um Caderno de Educação Financeira, cujo título é mesmo este, e Eduarda refere que já o usou para o segundo ciclo de escolaridade (quinto e sexto ano), mas também para o primeiro ciclo (terceiro e quarto ano).

Manual adotado para as aulas de Educação Financeira.
Manual usado nas aulas de Educação Financeira.Paula Nunes / ECO 28 Outubro, 2016

“Tem exercícios, tem uma parte lúdica, aprende-se a brincar. O referencial de educação financeira é o mesmo, depende apenas do grau de profundidade e do ano com que estou a trabalhar”, explica a professora.

O dos pais é bom, mas o dos alunos é ainda melhor. “Os alunos adoram, acham que é uma coisa nova e a adesão é fantástica. Uma vez por mês fazemos um jogo que é o de quantas palavras já conhecem no âmbito da educação financeira e quando chegamos ao fim do ano são centenas!”, explica.

Os alunos adoram, acham que é uma coisa nova e a adesão é fantástica. Uma vez por mês fazemos um jogo que é o de quantas palavras já conhecem no âmbito da educação financeira e quando chegamos ao fim do ano são dezenas!

Eduarda Paixão

professora na Escola Básica Vasco da Gama

A feira do Dia Mundial da Poupança

“Aqui na escola comemoramos o dia da poupança com uma feira solidária em parceria com a organização Helpo. Os alunos vão doar roupa, material escolar e brinquedos. Vai tudo para Moçambique e S. Tomé e Príncipe”, explica Eduarda.

Mafalda Serrano 5ºA
Mafalda Serrano 5ºAPaula Nunes / ECO 28 Outubro, 2016

Os alunos criaram ainda um banco, o EÇA – Empresas com Alma, onde cada EÇA vale um euro. Vendem fitas e os “brindes” são doces. “É uma maneira de comemorarmos também o Halloween”, refere a professora.

Reportagem "Dia da Poupança "
Ana Margarida Cunha e Joana Ribeiro 6ºAPaula Nunes / ECO 28 Outubro, 2016

Para ilustrar a feira, as 17 turmas orientadas por Eduarda Paixão criaram cartazes alusivos ao tema. Lucas Galveias, do 5ºA, criou um dos cartazes na aula onde explica que na feira não se pode usar cartões de crédito, porque assim temos de pagar juros.

Lucas Galveias 5ºA - autor do cartaz
Lucas Galveias 5ºA – autor do cartazPaula Nunes / ECO 28 Outubro, 2016

Poupar é importante? Eles dizem que sim

Afonso Rocha, da mesma turma, escreveu num outro cartaz “Poupa tostões, terás milhões”. Esta frase é importante porque se pouparmos muito conseguiremos cada vez mais”, explica.

Reportagem "Dia da Poupança "
Inês Santos e Leonor Santana e Leonor Sousa 5ºA.Paula Nunes / ECO 28 Outubro, 2016

Leonor Santana é delegada do 5ºA e considera que é importante poupar. E explica porquê: “Não podemos gastar o dinheiro onde não devemos. Como somos mais novos temos de aprender com estas aulas”.

Para Mafalda Serrano e Leonor Sousa, do 5ºA, o mais importante é aprender a gerir o dinheiro com um livro usado em aula, da “Família Moeda”. “Aprendemos a gerir o dinheiro e quando formos mais velhas podemos gastar dinheiro em coisas mais importantes”, refere Leonor.

Inês Silva, Laura Mendes, Joana Ribeiro, Ana Margarida Cunha e Inês Dias são cinco amigas do 6ºA e já têm Educação Financeira há três anos. Para elas as aulas são boas: “No futuro em vez de gastarmos tudo podemos poupar e gerir o nosso dinheiro”, explica Inês Silva, acrescentando: “Se não pouparmos agora não vamos ter dinheiro no futuro”, acrescenta Joana Ribeiro. Mas não só. “Sinto que sou mais poupada desde que tenho as aulas e percebo cada vez mais a importância do dinheiro”, explica Laura.

Ana Margarida Cunha já tem mesada e consegue gerir o seu dinheiro, guarda sempre algum. “Gosto de o guardar, caso no futuro os meus pais não me possam dar”. Inês Dias partilha a opinião das colegas, mas embora poupar seja importante “não é preciso poupar sempre”, frisa. “Podemos gastar de vez em quando”.

Reportagem "Dia da Poupança "
Ana Margarida Cunha 6ºAPaula Nunes / ECO 28 Outubro, 2016

Para Lourenço Veiga e Francisco Fonseca, do 5ºA, toda a gente devia poupar. Só assim se evitariam males maiores, como a pobreza frequentemente espelhada nas ruas.

“Se um sem-abrigo quando nasceu, e quando ainda tinha pais, poupasse mais dinheiro e não o gastasse todo ainda hoje o teria e não vivia na rua”, diz Lourenço. Já Francisco refere que com aquilo que aprendeu a poupar agora ajuda as pessoas que pode. “Eu costumava gastar o dinheiro que tinha, agora guardo-o. E com o dinheiro guardado às vezes dou dinheiro a quem precisa, como quando aparece uma pessoa sem-abrigo”, explica o aluno.

Poupar também é importante para Catarina Cardoso, do 6ºC. “Se pouparmos podemos gastar o dinheiro noutras coisas de valor, essenciais”. E as coisas essenciais são supérfluas? “Não, as coisas supérfluas são coisas que não precisamos mesmo, como os brinquedos”, explica Catarina.

Reportagem "Dia da Poupança "
Inês Silva e Laura Mendes 6ºAPaula Nunes / ECO 28 Outubro, 2016

Os trabalhos feitos em aula são muitos, mas Inês Santos, também do 5ºA, destaca um em particular: “No dia do pai fizemos um cheque que já não tinha validade e escrevemos que eram válidos abraços e beijinhos, no número que quiséssemos”, recorda.

(Notícia atualizada no dia 2 de novembro, às 11:30)

PUB

Comentários ({{ total }})

E se fossem as crianças a ensinar-lhe como poupar?

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião